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Enganados

Dirigido aos “comerciantes de morte”

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frei Silvino Benetti, JPE

O primeiro livro da Bíblia a ser escrito foi o Êxodo, enquanto o Génesis é o último dos seus primeiros cinco livros, ditos Tora, ainda hoje em uso no hebraísmo. O Êxodo fala da experiência da liberdade da escravidão enquanto o Genesi expõe a reflexão da sabedoria hebraica que, juntamente com a origem do mundo, procura como entender e explicar a origem do mal. A compilação do livro foi tardia, mas essa reflexão sobre o mal se estende a toda a história do pensamento hebraico e das outras culturas de então, necessitando também regulamentar a relação entre os seres humanos. Para este entendimento a sabedoria hebraica cria a imagem da serpente que, nas antípodas da existência, tenta a criatura mais “bela” da criação: a pessoa.

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Esta beleza não vem da sua perfeição, mas do amor que Deus tem por ela e traz em si o “ambição de grandeza”. A tentação da serpente consiste em dissociar a pessoa da união de amor com Deus e da harmonia, gerada pelo Amor do Criador, com os outros seres criados. Frente à tentação, a criatura mostra o seu desejo de grandeza, e cai, iniciando um caminho determinado das consequências dadas pela confusão da relação com os outros, consigo próprio e com o Criador. A partir daí, podemos deduzir que as nossas pessoas, todas, sofrem a ambição e caiem no engano que seja possível tornar-se mais grande do que somos e, se for, até ser outro deus. 

Essas considerações podem ser consideradas exageradas, mas podem fornecer luzes para explicar o comportamento desumano de tantos e, entre outros, dos “comerciantes de morte”, neste caso, os que fabricam e organizam a venda de droga. Não falo dos coitados que por desespero e ignorância tornam-se elementos dessa organização, mas de pessoas inteligentes, formadas, organizadas que controlam e espalham esse tráfico. Eles vivem entre nós, perto da nossa casa e com famílias com as mesmas necessidades das nossas, usufruindo dos direitos e benefícios que a sociedade criou.

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Tiram proveito da ingenuidade das crianças e adolescentes, da exuberância dos jovens, das dificuldades das famílias, de dificuldades inerentes a uma sociedade em transformação para espalhar o próprio veneno que, mesmo quando não mata, suga o sentido da vida e cria dependência para fomentar um consumo que produz dinheiro para realizar o “ambição de grandeza” de alguns e financiar a criminalidade internacional. Esses criminosos, utilizam a corrupção, para abrir as portas de acesso ao território de venda, promovendo a cultura do dinheiro como valor absoluto, ao qual todos têm de se sujeitar. 

Temos hoje cerca de 70% dos jovens que usam estupefacientes e desses o 37% usa a chamada “pedra”. Esses jovens estão perdendo tempo, escola, trabalho, relações familiares e amigáveis. Esses jovens sofrem, choram lágrimas amargas, criam violências, perdem tempo e perdem vida, fragilizando a sociedade de hoje e de amanha. Quero revelar a esses criminosos: vocês são enganados, confusos e drogados!

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Vocês também podem ter filhos que chegam a drogar-se; vocês também, embora a oferta duma vida fácil, podem perder uma companheira amável; cada um de vocês sabe que a grandeza construída é sujeita a desaparecer ao chegar duma grandeza superior; cada um de vocês sabe que o dinheiro acumulado serve a satisfazer principalmente vícios e que os crimes cometidos vos afastam sempre mais em acreditar a existência do amor e da felicidade; vocês sabem que estais perdendo o sentido da vida, assim como o perdem os que drogam com o que vocês lhe vendem. Gostaria que vocês vos apercebessem que arriscais morte e cadeia para uma grandeza ilusória, mas sem dúvida, vocês são drogados por essa grandeza e, portanto, dependentes dessa falsa ilusão.

Quero revelar-vos o engano do qual vocês são vítimas: a serpente entrou-vos no coração e enrolou-vos o cérebro; um dia ao espelhar-vos o rosto vereis a cara dele e espantar-vos-ei. Naquele dia, talvez, apercebereis que viveste num engano. Daí para frente não sei o que vai acontecer, talvez podereis vomitá-lo para fora, mas não será sem sofrimento. Por enquanto espero que cada um de vocês possa parar com a venda e se não tiver outra solução chegue a entregar-se à cadeia; conheço vários que encontraram alivio por dentro das suas paredes.

Mindelo 13.04.2026

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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