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Entre 50 anos anos da Independência e 35 anos de Democracia

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– José Fortes Lopes – 

Numa altura em que Cabo Verde assinala os 35 anos da abertura democrática iniciada a 13 de janeiro de 1991, impõe-se uma reflexão crítica e madura sobre os múltiplos atores que contribuíram para esse processo histórico. A consolidação da democracia cabo-verdiana não foi obra exclusiva de um único grupo, nem pode ser compreendida apenas a partir do espaço político interno. Resultou, antes, de uma interação complexa entre dinâmicas internas e externas, entre a ação dos residentes no arquipélago e a intervenção contínua, muitas vezes silenciosa, da diáspora.

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A memória democrática tende, porém, a privilegiar uma narrativa única centrada quase exclusivamente no território do arquipélago, relegando para segundo plano o papel político, cultural e simbólico desempenhado pelas comunidades emigradas. Esta assimetria não apenas empobrece a compreensão histórica, como também distorce a própria natureza do processo de democratização cabo-verdiano, que foi, desde a sua génese, profundamente transnacional.

É precisamente neste contexto que o presente conjunto de artigos se revela particularmente oportuno. Ao revisitar criticamente as dinâmicas migratórias, políticas e socioculturais associadas à independência, ao regime de partido único e à transição democrática, procura-se não hierarquizar méritos, mas relativizar contributos, reconhecendo que a democracia cabo-verdiana foi construída simultaneamente dentro e fora do arquipélago.

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Mais do que um exercício de revisão histórica, trata-se de um contributo para uma memória democrática mais plural, mais inclusiva e mais fiel à complexidade do percurso nacional – condição indispensável para que a celebração dos 35 anos de democracia não seja apenas comemorativa, mas também reflexiva, crítica e verdadeiramente emancipadora.

O objetivo fundamental do presente conjunto de artigos é precisamente contribuir para o preenchimento desse vazio historiográfico, político e memorial. Ao centrar a análise nas dinâmicas migratórias, na diáspora e na sua interação com os processos de independência, de autoritarismo e de democratização, procura-se ampliar o campo de leitura da história contemporânea cabo-verdiana, integrando dimensões que têm sido sistematicamente ignorados.

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Um conjunto de 5 artigos propõe uma reflexão sobre o papel da emigração/diáspora cabo-verdiana nos processos políticos da segunda metade do século XX — em particular os que ocorreram após 1975— a partir de uma leitura alternativa à tradicional ou do pensamento único dominante. Não pretendem substituir a narrativa dominante, mas complementá-la criticamente, introduzindo novos atores, novas escalas de análise e novas interrogações. 

Ao fazê-lo, visam restituir à história nacional a sua complexidade transnacional, reconhecendo que a construção da democracia cabo-verdiana não ocorreu apenas no território insular, mas também nos espaços da diáspora, onde se produziram ideias, pressões políticas, aprendizagens democráticas e formas de resistência que influenciaram decisivamente o rumo do país.

Assim, mais do que revisitar o passado, este conjunto de artigos procura reequilibrar a memória histórica, oferecendo instrumentos para uma compreensão mais plural, mais rigorosa e mais justa do percurso democrático de Cabo Verde.

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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