Empresário indignado com a decisão da CMSV de “vender” o espaço entre Caravela e Electra para construir edifício comercial com três pisos

O empresário mindelense Toy de Caravela procurou o Mindelinsite para expressar a sua indignação pela alegada venda ou cedência do espaço entre Caravela e Electra e que funcionava como um ginásio ao ar livre para construção de um edifício comercial de três pisos. Afirma que o bloqueio do espaço, que um “camin d’ agua’ das chuvas e das enxurradas que vem de Chã de Alecrim, vai colocar em risco o seu investimento, o primeiro feito na Lajinha, o que o leva a pedir a intervenção do Governo para travar esta tragédia anunciada.
Segundo Toy Caravela, esta denúncia é um pedido de ‘socorro’ ao Governo para travar a forma como o edil mindelense tem vindo a gerir a ilha de São Vicente, sem se preocupar com os riscos resultantes das suas decisões. “Estou a pedir ao Governo para analisar aquilo que o presidente A. Neves está a fazer porque, caso a construção se concretizar, vai-se criar um caos ainda maior na zona da Lajinha. Basta ver que, apesar das fortes chuvas do dia 11 de agosto, que devastaram a ilha, a praia incluída, Caravela ficou intacta. Todas as enxurradas que vieram de Chã de Alecrim, Canalona e Fundo d’ Mestre, foram escoados no espaço que fica entre Electra e Caravela, onde antes funcionava um ginásio ao ar livre.”
Trata-se, diz, de um espaço público muito frequentado, sobretudo por idosos e pessoas que fazem caminhada e aproveitavam para exercitar nas máquinas, entretanto retiradas na calada da noite sem alarde por forma a evitar questionamentos. “Foi uma mulher que utilizava o espaço todos os dias para treino que nos alertou para a retirada das maquinas, a cerca de um mês. Aconteceu durante a noite anterior. De imediato iniciaram as suspeitas e especulações, que agora se concretizam com a notícia de que o espaço foi vendido e foi aprovado um projecto para se construir um edifício de três pisos no local – sendo o primeiro na linha da praia, o segundo no calçadão e o terceiro para cima,” desabafa.

Defende este empresário que a construção vai bloquear o curso natural da água, a semelhança do que aconteceu em Chã de Alecrim, com prejuízos incalculáveis para os moradores. Toy mostra-se ainda mais revoltado porquanto, diz, há seis anos submeteu à Câmara um projecto para requalificar o espaço. Este prevê a manutenção dos equipamentos, a substituição dos obsoletos, a colocação de uma cobertura flutuante, iluminação e som para criar um ginásio ao ar livre, com todas as condições. “Iria assumir todos os custos, inclusive de manutenção. Mas, não obstante a nossa insistência, temos sido sistematicamente ignorados pela CMSV. Nunca tivemos uma resposta. E agora fomos surpreendidos com a retirada dos equipamentos de treino e com um projecto, com outra filosofia.”
Construção na orla marítima
O espanto deste operador é ainda maior porque, afirma, trata-se de uma construção na orla marítima, onde as exigências são maiores. “Quando decidi construir Caravela, num edifício antigo que comprei a um privado, tive de ter aval do Instituto Marítimo e Portuário, a Enapor, Alfândega do Mindelo e Câmara Municipal. E na altura, todas estas instituições deixaram claro que estavam a autorizar a construção porque o antigo edifício estava degradado e o meu projecto iria beneficiar toda a orla, a praia da Lajinha em particular. Já o Caravela iria beneficiar apenas dos painéis solares fixados na cobertura.”
Agora, sem problemas de maior, aparece um projecto aprovado e pronto para o arranque, sem concurso. E mais, no seu caso, não foi tido e nem achado, não obstante o seu interesse manifesto em requalificar o espaço, o que o leva a insistir uma vez mais em uma intervenção do Governo. “O edil A. Neves não pode fazer o que quiser nesta ilha. Precisa respeitar o povo. Ainda não fizeram nenhuma obra visível no espaço, mas o projecto foi aprovado e o promotor já tem na sua posse o estudo de impacto ambiental e a licença para iniciar as obras. Espero uma intervenção do Governo na prevenção para evitar o caos nesta zona, que neste momento acolhe outros investimentos importantes.”
PAICV contra construção em espaços públicos consolidados
O PAICV em São Vicente, pela voz do vereador António “Patcha” Duarte, está frontalmente contra a construção em espaços públicos consolidados. Confrontado pelo Mindelinsite a margem da conferência de imprensa-balanço no término da 16.ª sessão ordinária da CMSV, revelou ser igualmente contra a construção em curso nas imediações da Caixa Econômica em Monte Sossego.

No segundo caso, disse, a obra arrancou, foi solicitado uma providência cautelar, mas este não teve provimento e as obras já recomeçaram. “Tudo isso resulta da falta de um PDM. Estamos a falar de ocupação de espaços públicos consolidados. No caso da Lajinha, trata-se de um parque fitness em que os equipamentos foram retirados porque o espaço foi vendido, inclusive soubemos que a obra já foi licenciada. São várias as questões que aqui se colocam, desde infraestrutura, ocupação de espaço público e rede de escoamento de água. Toda a água e enxurrada que veio de Chã de Alecrim, Canalona e Fonte de Mestre saiu ali. É um problema estrutural que está a ser encubado”, pontua.
Para este político, a cidade não precisa apenas de edificações. Precisa também de espaços livres para respirar. “Ao densificar o espaço urbano com edifícios, ficamos sem espaços de recreação e lazer. O espaço de ginástica na Lajinha funcionava diariamente, das 5h até a madrugada.” Patcha cita o projecto de Toy d’ Caravela, que visava a sua reabilitação, no âmbito de uma parceria público-privada, com vantagens para S. Vicente e suas gentes, mas também para a CMSV, que não teria nenhum custo.
O PAICV, concluiu Patcha, não é contra investimentos privados, mas almeja que estes sejam feitos em espaços próprios. Nunca em espaços públicos consolidados.
Tentamos ouvir a CMSV – enviamos um pedido de entrevista através da sua director de gabinete, que se encontra de férias mais prometeu estabelecer o contacto por outras vias -, mas até a publicação da reportagem não tivemos feedback, pelo que poderemos voltar ao assunto caso houver uma resposta.