“Quintal das Artes” reacende a chama e posiciona-se como oferta alternativa da cultura na cidade do Mindelo

O Quintal das Artes, espaço alvo de uma disputa renhida entre a Câmara de São Vicente e um grupo de artesãos no ano passado, está a passar por um processo de requalificação e a reforçar a sua posição de centro cultural alternativo na cidade do Mindelo. Sujeito a intervenções na fachada e no interior, com pinturas murais e nova ornamentação do recinto, passou a atrair mais visitantes cabo-verdianos e estrangeiros e a receber, inclusivamente, espectáculos musicais ao vivo.

“Fizemos um pequeno teste num dia em que não havia barco turista no Porto Grande e registamos 750 visitas. Este número seria de longe superior se fosse com a presença de um ou mais navios turistas na cidade porque somos bastante procurados pelos turistas”, ilustra Maiuca Gomes, um dos principais rostos do Quintal das Artes. Este artista salienta que o espaço está a ganhar uma dinâmica sem precedentes, pelo que, na sua óptica, valeu a pena os artesãos terem criado uma frente unida e lutado contra o assentamento provisório do mercado de peixe nesse recinto, tal como era a pretensão da autarquia e do Governo.

Toda esta dinâmica, segundo Maiuca Gomes, tem por trás a força dos vários artistas que utilizam esse edifício público sito na avenida da Praia dos Botes, mas também de outras pessoas que deram o seu contributo para a valorização do “quintal” nesta nova etapa. Uma frente que, adianta, saiu reforçada com o impacto da tempestade Erin, que afectou grandemente os seus ateliers. “Hoje estamos a fazer intervenções aqui que antes não aconteciam porque cada um ocupava especificamente da sua área particular. Agora estamos a falar a uma só voz”, frisa a citada fonte.

O edifício, que antes apresentava uma fachada completamente degradada, recebeu pinturas murais, fruto de uma parceria com o projecto “Um parede de cada vez”, que ilustram as actividades profissionais exercidas pelos 15 artistas presentes no espaço e homenageia figuras do mundo cultural mindelense ainda vivas. Os pintores tiveram a liberdade de escolher as suas obras, mas receberam também dicas dos actuais responsáveis do Quintal das Artes. Para Maiuca, esta intervenção foi crucial para mudar a imagem do edifício centenário e valorizar aquela zona.

O interior recebeu igualmente obras que deram ao recinto uma sensação de maior amplitude. Foi instalado um palco e colocado bustos de artistas como Cesária Évora, Bana e Ildo Lobo, construídos pelo artista plástico Bitú Alves. Além disso, o espaço apresenta algumas peças ofertadas por grupos carnavalescos, como Vindos do Oriente e Cruzeiros do Norte.

“Hoje trabalha cá um núcleo de15 artistas, mas que movimentam outros artesãos á sua volta. Estamos a fazer um trabalho meritório, em prol da nossa cultura. Aqui as pessoas deparam-se com a arte cabo-verdiana, quando notamos que, aqui ao lado, na Praça Estrela, vemos obras à venda que nada têm a ver com a nossa realidade e identidade cultural”, comenta Maiuca Gomes.

Relação “péssima” com a CMSV

Este porta-voz recorda a luta que os artistas travaram com a Câmara de São Vicente em outubro do ano passado, quando a edilidade tinha a pretensão de instalar no espaço o mercado de peixe provisório. Durante esse braço-de-ferro, negaram inclusivamente abrir o portão do recinto aos técnicos municipais, que, relembre-se, acionaram a Polícia Municipal e a Polícia Nacional.

Questionado sobre a relação entre os artistas e a CMSV, passado este tempo, Maiuca Gomes afirma que é “péssima”. Na sua perspectiva, a edilidade nutre um “ódio” pelos artistas que lutaram pelo direito ao espaço. Exemplifica que a Câmara tem negado fazer a recolha do lixo e a desentupir o esgoto, quando é solicitada. Além disso, prossegue, a CMSV não deu resposta a um pedido para que seja canalizada para as casas-de-banho do Quintal das Artes a água de um poço – que é usada para suportar as necessidades do mercado sito logo ao lado. “Bastava colocar um tubo, mas não faz isso”, comenta.

Na perspectiva deste jovem, a CMSV deveria entender que o espaço está a ser usado para ajudar a própria edilidade a promover a cultura cabo-verdiana e lembrar que boa parte dos artesãos têm microempresas, ou seja, pagam imposto ao Estado.

Os artistas, adianta esta fonte, tomaram a iniciativa de criar a Associação Quintal das Artes, cuja documentação já se encontra na posse do Cartório Notarial. Perspectiva, por isso, uma maior intensidade e qualidade das intervenções do grupo no espaço, quando tudo estiver formalizado legalmente.

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