O legado dos falecidos artistas Manuel Figueira e Luísa Queirós, fundadores da Cooperativa Resistência em 1976, juntamente com Bela Duarte, constitui a essência do enredo que o grupo Cruzeiros do Norte vai apresentar no desfile do Carnaval 2027, na cidade do Mindelo. Ontem à noite, o grémio revelou a história a ser contada nas “ruas de morada” em 4 andores e tripés, pensada para garantir a renovação do ceptro, sob o título Magia e Emoções por detrás das janelas de Manuel e Luísa.
Proposto pelo carnavalesco Fernando “Noia” Morais, o enredo, segundo o autor, está fundamentalmente apoiado nas “emoções”, daí constituir um “enorme desafio”. “É um enredo baseado nas emoções porque não quis ser óbvio. Aliás, não gosto de ser óbvio”, pontua o artista, enfatizando que o Cruzeiros não vai criar alegorias que representam claramente a obra dos homenageados. Pelo contrário, diz, haverá uma representação inspirada no pensamento e no legado artístico dessas duas grandes referências da pintura criativa cabo-verdiana, que fundaram a Cooperativa Resistência, juntamente com Bela Duarte.
Revela a sinopse que uma pessoa estava passando por um hipotético lugar, deu uma vista de olhos indiscreta por uma janela que, por acaso, dava acesso ao atelier usado pelos artistas Manuel Figueira e Luísa Queirós. “Num único relance, viu toda a vida e criatividade destes criadores e foi contar o que viu na morada, à sua maneira”, assim Noia abre um pouco o véu sobre a linha da história que o Cruzeiros do Norte vai apresentar no dia 9 de fevereiro no centro da cidade do Mindelo.
Quem quiser saber o que esse olhar revelou vai ter de acompanhar o desfile do Cruzeiros e com atenção. Isto ficou claro na encenação apresentada ontem à noite ao público no quintal interior do CNAD – Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design -, espaço esse escolhido de propósito devido a sua relação umbilical com a dupla Manuel-Luísa, enquanto elementos fundadores do embrião do centro.
O grupo vai expor esse trabalho em 4 carros alegóricos e alguns tripés, mas Noia salienta, mais uma vez, que não vai conseguir mostrar a cem por cento toda a sua criatividade. “Nunca consegui colocar em prática todas as minhas ideias e estou certo de que isto não será possível também este ano. São Vicente não tem ainda as condições que gostaria de dispor no Carnaval. E tão depressa isto não irá acontecer porque vamos perdendo recursos humanos”, diz o carnavalesco, para quem a falta de profissionais qualificados vai afectar a continuidade do Carnaval do Mindelo.
Jailson Juff, presidente do referido grémio, está ciente do nível do desafio proposto pelo carnavalesco. Afirma, aliás, que este projecto é mais ousado do que o apresentado no concurso de 2026. Por isso diz contar com o apoio dos colaboradores e amigos do grupo para a sua execução.
No tocante às figuras de destaque, o Cruzeiros do Norte mantém a coroada passista Ilsevânia Alves como Rainha da Bateria, assim como a dupla vencedora Cady e Laurinda como Mestre-sala e Porta-bandeira. O maestro Nuno Gonçalves continua igualmente à frente da batucada “Ritmos do Norte”. Para o reinado, vai apresentar duas rainhas – Miriam Sousa e Alcídia Ferro – e dois reis – Vandy Silva e Ronaldo Fortes.
