O médico Tito Rodrigues foi afastado dos cargos de director do Serviço de Ortopedia e de presidente da Junta Médica de Barlavento, sediada no Hospital Baptista de Sousa, na sequência da polémica relacionada com a transferência de equipamentos hospitalares da Maternidade do HBS para a Delegacia de Saúde da Boa Vista. Confrontado, este informou que deverá pronunciar-se ainda hoje sobre o caso, negando, no entanto, qualquer envolvimento no alegado vazamento de informações internas. Tito Rodrigues afirma que se limitou a questionar o Presidente do Conselho de Administração do hospital sobre a veracidade dos dados tornados públicos pela deputada Josina Freitas.
Numa carta a que este online teve acesso, o médico diz ter recebido “com profunda perplexidade” a notícia de que equipamentos do HBS estariam a ser embalados para transferência, sem que qualquer comunicação interna tivesse sido feita aos profissionais da instituição. Revela ainda que foi em estado de estupefação – que acredita ser partilhado por um bom número de profissionais do estabelecimento – que decidiu interpelar e questionar sobre as razões que justificam a tomada da medida pelo Conselho de Administração do HBS.
“A construção e a entrada em funcionamento da nova Maternidade era suposto trazer melhoria significativa das prestações de cuidados no HBS, como fê-lo com o Serviço de Pediatria,” constata, reafirmando que a obra representa uma melhoria notável nas instalações físicas, que atingem um alto padrão. Em termos concretos, especifica, contempla duas salas cirúrgicas modernas e responde às normas internacionais, logo representariam um desafogar do atual bloco operatório.
Quanto ao bloco operatório em particular, o ortopedista descreve um cenário de degradação das instalações e insuficiência de meios técnicos e humanos, apontando falta de equipamentos essenciais, escassez de profissionais e dificuldades crescentes na resposta cirúrgica. “Não há pacemaker, as mesas cirúrgicas estão enferrujadas, velhas (têm mais de 40 anos) e em fase de desmantelamento, os monitores estão avariados, falta oxigénio nas rampas do pós-pós-operatório, aspiradores, faltam anestesistas, enfermeiros e ajudantes de serviços gerais, de entre outros”, elenca.
Os alertas sucessivos ao longo dos anos das necessidades do serviço não tiveram retorno satisfatório, reforça o médico, que, paralelamente, traz à tona a incapacidade de uma resposta satisfatória do HBS com apenas “duas salas e meia” para as cirurgias urgentes e, consequentemente, dar vazão às listas de espera, adiamentos e suspensões. Salienta, por isso, a expectativa em torno da inauguração da Maternidade, há 11 meses, oferecida pela China. Sublinha que o edifício seria a resposta às necessidades, que seriam mitigadas porque a tutela envidaria esforços para criar condições para o seu funcionamento, sendo o principal requisito o recrutamento de pessoal.
“Este aspecto foi um dos fatores de desgaste do anterior CA e levou à sua substituição. Com o novo, esperávamos que esta questão seria resolvida e que, rapidamente, a nova maternidade seria aberta. Mas, volvidos cinco meses, não foi possível e nem temos previsões a nível interno”, sublinha, indicando que, por isso, a noticia de transferência dos equipamentos caiu como uma bomba. Para Tito Rodrigues, este material é útil, necessário e indispensável e não há nenhuma justificativa para o seu envio para a ilha da Boa Vista.
Perante os factos, o médico considera ainda que não existe justificação para o envio dos materiais para Boa Vista, acentuando que o Conselho de Administração deve esclarecimentos aos profissionais que, não obstante as condições precárias, trabalham com empenho, dedicação e espirito de sacrifício, e ainda à população de São Vicente.
No entanto, é a parte final desta carta que terá “picado” a administração do hospital e o próprio Ministério da Saúde de forma mais contundente. Nela, Tito Rodrigues ataca o brio profissional do atual PCA, ao lembrar-lhe que, na sua tomada de posse, fez um juramento de defender, em primeiro lugar, os interesses do hospital, dos pacientes e da população da ilha de São Vicente. “A lealdade institucional a que estão vinculados não significa subscrever acriticamente a qualquer proposta da tutela que, por sua vez, tem demonstrado sobejamente um grande desinteresse em resolver os graves problemas desta instituição”, frisou o médico.
Imagem e credibilidade do HBS em causa
A resposta, que deveria ser da administração do HBS, veio do ministro da Saúde, para quem o conteúdo desta missiva, para além de reproduzir e ampliar as denúncias da deputada Josina Freitas (sobre a retirada de equipamentos da Maternidade), contém considerações suscetíveis de comprometer a “imagem e a credibilidade” institucional do HBS. Isto, além de potenciar, na perspectiva do ministro Jorge Figueiredo, “ruído institucional, desinformação e instrumentalização político-partidária”.
Neste sentido, o ministério recomendou o afastamento imediato do médico Tito Rodrigues das funções de chefia da Ortopedia, a abertura de um inquérito interno para apurar a eventual fuga de informações e a instauração de processo disciplinar, assim como a sua substituição no cargo de presidente da Junta Médica de Barlavento, caso se confirmem violações de deveres funcionais.
Entretanto, o Governo confirmou oficialmente o envio de equipamentos para a Delegacia de Saúde da Boa Vista, no âmbito do reforço da capacidade cirúrgica da ilha, através de equipamentos destinados ao bloco operatório local. Fonte do Mindelinsite adianta que materiais retirados da Maternidade do Mindelo fazem parte do lote e adianta que foi enviada uma técnica do HBS para ajudar na instalação dos materiais na Delegacia de Saúde da Boa Vista.
