Afinal, a Inteligência Artificial (IA) vai destruir a humanidade? (EP.1)

Por: João Bosco Gertrudes (*)

Este texto faz parte de uma série de episódios que pretendo publicar com o intuito de colaborar com as discussões em torno de um tema amplamente discutido na atualidade: o uso da Inteligência Artificial e suas implicações na vida das pessoas. Uma resenha em linguagem popular, baseada em informações fidedignas como forma de lançar luz sobre as implicações cada vez mais profundas das IAs no nosso dia-a-dia.

Geralmente compartilho essas e outras inquietações em torno deste tema com os meus alunos (curso de engenharia de computação) sempre com um olhar crítico, mas também com alguma leveza, naturalidade e sem alarmismos; buscando exemplos na história em que ocorreram momentos de mudanças tecnologias que se assemelham ao momento atual. E aqui estamos nós (humanos) novamente adaptando-se à realidade tecnológica atual e em franca imersão na chamada era da Inteligência Artificial.

Percebe-se ainda, principalmente pelas redes sociais a proliferação de desinformação, de medos e de algumas preocupações populares. Algumas legítimas como, por exemplo, relacionadas às implicações das IAs na extinção de profissões, diminuição de empregos, nas atividades de ensino nas escolas, na saúde, nos negócios, na segurança cibernética e etc; e há àqueles mais alarmistas que já manifestam a preocupação com a eventual extinção da raça humana por “humanoides mal intencionados” treinados por super IAs que superariam a inteligência humana. [vide recentes declarações de Jacob Cox, um engenheiro desenvolvedor com conhecimento da coisa e ex-funcionário de bigtechs do ramo de IA].

Seria este o motivo de alguns magnatas das chamadas bigtechs entrarem na corrida espacial para encontrar planetas habitáveis em torno da terra? Vai saber! O certo é que a temática em torno da “Inteligência Artificial” é de longe uma das mais discutidas nos últimos tempos: nas universidades, nas escolas, das discussões cotidianas de rua às casas de representação parlamentar e de tomadas de decisão à nível de legislação governamental. Onde já se discutem necessidades de regulamentar o uso da IAs nas atividades humanas. Ou seja, uma espécie de correção de rumos com a nave “desgovernada” em pleno voo.

Conceitualmente, trata-se de uma tecnologia emergente da área de ciência da computação (geralmente associada à ciência de dados) que se dedica ao desenvolvimento de uma “camada de inteligência” que embarcada em máquinas (hardwares), dota-os de capacidade para simular o mais próximo possível o comportamento humano na tomada de decisões e na realização de suas tarefas. A “camada de inteligência” é viabilizada por meio de algoritmos (conjunto de regras matemáticas e lógicas) e programas computacionais que simulam a forma do pensar humano nas tomadas de decisões e na execução de tarefas. Os algoritmos de IA podem ser “treinados” a partir de grandes volumes de dados para se chegar a níveis de perfeição ou precisão aceitáveis na execução das tarefas. Além disso, algumas classes de algoritmos (de aprendizado de máquina) podem ter capacidade de aprendizado e de auto aperfeiçoamento.

É necessário dizer que o estágio atual de evolução dos algoritmos de IA não é exatamente novo, mas certamente aprimorado e refinado. Os conceitos teóricos, matemáticos e lógicos por trás desses algoritmos das IAs modernos não são novos e remontam à década de 1940. Mas então como explicar esta explosão do uso das IAs nas atividades humanas que se vive atualmente? Esse é sem dúvida um ponto fundamental para discussão e de certo modo um momento oportuno para fazer jus e menção honrosa às evoluções tecnológicas em outras áreas que culminaram com o sucesso do uso das IAs.

As chamadas IAs atuam na camada digital. Na realidade a Inteligência Artificial é como se fosse um ice-berg ancorado na evolução de outras tecnologias e que “surfou na onda tomando os holofotes todos para si”, e de certa forma injustamente, diga-se de passagem. A bem da verdade, o sucesso das IAs é fruto da evolução científica e convergência de várias áreas do conhecimento e o “boom” que se registra hoje é uma consequência da digitalização das atividades humanas. As IAs carregam a fama às custas da evolução e pesquisas aprimoradas ao longo de décadas: da matemática e lógica; da evolução da eletrônica digital e dos computadores; da evolução do poder de processamento e armazenamento de informações digitais; da evolução dos sistemas informação e de comunicação e etc. Mas porque as IAs se tornaram uma das tecnologias mais usadas, mais faladas e comentadas da atualidade? Quais as vantagens e desvantagens?

O sucesso das IAs gira em torno da disponibilidade de grandes volumes de dados e informações digitalizadas (que servem tanto para treinamentos quanto para aprendizados dos algoritmos de IA); da rapidez de processamento, estruturação e de armazenamento e da versatilidade de resolver tarefas repetitivas (padrão) de forma automatizada e aplicáveis em diversas áreas como indústria, militar, segurança, saúde, finanças, ensino, entretenimento e etc. A capacidade de lidar com grandes de volumes de dados (múltiplas entradas) com extrema rapidez aliada a capacidade de aprendizado rápido das IAs torna-as por um lado atrativas e com enorme espectro de aplicações, mas por outro lado, potencialmente perigosas quando comparadas com a capacidade de processamento de informação e limitações físicas de um cérebro humano.

Na prática, não existe Inteligência Artificial, é apenas um conceito que sintetiza o uso de máquinas que são treinadas por algoritmos desenvolvidos por humanos para execução programada de atividades. O problema é que uma vez programadas e treinadas as atividades são exercidas pelas máquinas com grande rapidez, algo atrativo em uma sociedade onde já se sabe que tempo é dinheiro.

Dito isto, escusado seria dizer que é necessário identificar os prós e os contras do uso indiscriminado e em larga escala dessa tecnologia emergente. Nessa lógica de raciocínio destaca-se o velho e conhecido conflito de interesses entre máquinas e os homens na realização de tarefas. Uma vez que tarefas realizadas com fins lucrativos devem ser remuneradas, em outros termos estamos a falar de empregos. Trata-se, portanto, de um velho conflito de interesses que ocorreu em outras épocas de mudanças tecnológicas: Da Revolução Industrial com a substituição da força humana por máquinas (Sec. XIX) passando pela Era da Digitalização e Automação de Processos Industriais (Sec. XX) com a robotização das linhas de montagens e agora com o conflito mais atual da Era das IAs (Sec. XXI).

Dessa vez não se trata apenas de um confronto envolvendo variáveis como força e velocidade, mas também relacionada à capacidade de tomada de decisões de forma autônoma por máquinas; o que leva a uma necessidade de avaliar os limites éticos do
uso dessa tecnologia, tanto do ponto de vista do acesso às informações quanto ao seu uso final que pode ser para o bem ou para o mal. A versão digital desse “conflito de interesses” é deveras mais preocupante, com maior abrangência e com maior capacidade eminente de estragos. Em tese, a substituição de homens por máquinas de forma indiscriminada nem deveria ser cogitada como opção. Essa ideia por si só é controversa uma vez que é impensável ou impossível girar a roda da economia com pessoas marginalizadas e sem emprego ou fontes de renda, mas não é bem isso o que acontece na prática.

Para além desse conflito evidente e muito conhecido que em tese pode levar a desempregos em massa, existem outros fatores de risco imediatos associados ao uso indiscriminado das IAs relacionados à: (i) às leis de acesso à informação em ambientes digitais; (ii) desvios de finalidade no uso dessas informações, e não menos importante e talvez um dos mais preocupantes (iii) o respeito ao direito autoral em ambientes digitais controladas e/ou manipulados por IAs. Há também preocupações legítimas relacionadas à (iv) Manipulação e disseminação de desinformação em massa; (v) Ataques cibernéticos em massa geridos por IAs à sistemas e serviços
essenciais digitalizados (financeiros, de energia e telecomunicações) (vi) Disseminação em larga escala de preconceitos com modelos de IAs treinados para tal finalidade ou que reproduzem estereótipos já disseminados em ambientes digitais e etc.

A história tem mostrado que os discursos chamativos de uso da tecnologia para “libertar os humanos de trabalhos pesados e repetitivos e não para substituí-los” não se concretizam na prática. A partir de um olhar crítico mais relacionado ao uso das IAs o que se vê hoje, na prática, é uma espécie de monopolização/manipulação tecnológica pelas chamadas bigtechs (Microsoft, Google, OpenIA, Meta, Apple, Amazon, X etc) com níveis concentração de poder econômico, politico e de controle das infraestruturas de acesso à dados e de atividades econômicas ligadas à digitalização nunca antes visto. Não seria exagero dizer que “praticamente controlam” o mundo digital. Um ambiente desafiador que exige reflexões profundas e uma conjugação de esforços com envolvimento de escolas, universidades, agentes da sociedade civil e das autoridades para encontrar soluções, regionais ou globais, que coloquem o bem estar das pessoas como prioridade.

A ausência de regulamentação do uso das IAs tem sido tema de amplos debates nas sociedades contemporâneas e já surgem as primeiras iniciativas de regulamentação de uso, um pouco por todo o mundo. As primeiras iniciativas para “por ordem na casa” pelas vias da regulamentação foram lideradas pela União Europeia, após amplas discussões no parlamento europeu, que resultaram em marcos regulatórios importantes, entre eles a chamada EU Artificial Inteligence Act (Lei das IAs). Mas não basta regulamentar. Para além das regulamentações deve existir os mecanismos para identificar e punir eventuais transgressores que necessariamente leva a busca de alternativas tecnológicas igualmente desafiadoras.

Este tema tem sido debatido também em Cabo Verde que tem projetos muito bem sucedidos de plataformas de governança eletrônica; ecossistema de inovação e formação estabelecida e uma agenda governamental focada na transformação digital. Esta matéria encontra-se consolidada na Resolução do Concelho de Ministros número 72/2026 de 07/05/2026 que sintetiza os compromissos e estratégias em torno da transformação digital em Cabo Verde e estabelece as diretrizes da agenda de transformação digital no horizonte até 2035. Entre os desafios desta matéria destacam-se questões relacionadas à segurança digital e à consolidação de um quadro normativo adequado à evolução tecnologia atual, preocupações alinhada com a conjuntura de transição tecnologia atual.

A rápida evolução do Uso das IAs nas mais diversas áreas exigirá esforços conjuntos de diversos atores e das autoridades cabo-verdianas face aos enormes desafios não só para a agenda de transformação digital com viés econômica mas também e igualmente importante os impactos e desafios para as escolas e para as universidades no seu papel de formação de profissionais e mão de obra especializada e de se manter na vanguarda do conhecimento face às mudanças rápidas no perfil dos profissionais exigidos na atual era de transição tecnológica.

No próximo episódio desta série pretendo abordar de forma comparativa sobre os riscos e desdobramentos do uso indiscriminado das IAs em ambientes não regulamentados versus oportunidades e benefícios do uso das IAs em ambientes regulamentados e/ou sob supervisão humana.

(*) Eng. Eletricista/Professor.
Ultima versão revisada em 17/09/2026 (jbosco.cv@gmail.com)

 

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