José J. Cabral vai celebrar 20 anos de escrita no CCCV em Lisboa após vencer Prémio Mário Fonseca

O escritor José J. Cabral prepara-se para assinalar 20 anos de percurso literário depois de conquistar, na última segunda-feira, o Prémio de Literatura Mário Fonseca – Edição 2026, com o romance “Ela! – Deu Muito Que Falar”, apresentado pela Ilhéu Editora. A celebração está prevista para 30 de outubro, no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, num momento que o autor pretende também vai aproveitar para revisitar o percurso literário que tem construído ao longo destas duas décadas.

Ao Mindelinsite, José J. Cabral garantiu que tem igualmente um convite para apresentar o seu trabalho na Universidade La Sapienza, em Roma, através da Cátedra Padre António Vieira.“Por lá valemos alguma coisa”, afirmou, numa referência ao reconhecimento que tem recebido fora do país.  A participação internacional inclui ainda a presença na Mesa de Encerramento do Festival Literário de Ovar 2026, ao lado de dois nomes da literatura contemporânea, Rafael Gallo e João Pedro Vala. A sessão está marcada para as 17h00, no Centro de Arte de Ovar, na Sala Principal. O encontro será moderado por Teresa Carvalho e tem como mote uma frase de José Cardoso Pires: “Ao melhor pregador tira-lhe Deus a vírgula e põe-lhe o Diabo o verbo.”

Sobre o Prémio de Literatura Mário Fonseca, o escritor José J. Cabral defende que representa um importante reconhecimento e um estímulo para continuar a escrever, sobretudo perante as dificuldades que, afirma, os autores enfrentam para obter apoio à produção literária em Cabo Verde. O escritor recorda, por exemplo, que procurou patrocínios para o livro agora distinguido, mas que, apesar de ter acabado por conquistar o principal prémio literário de Cabo Verde, os pedidos não chegaram sequer a merecer resposta.

A distinção, atribuída pelo Ministério da Cultura e pelo Instituto da Biblioteca Nacional, contempla um prémio monetário de 400 mil escudos e a publicação da obra em parceria com a editora que a apresentou a concurso. Na apreciação do júri, o romance destaca-se pela qualidade literária e por uma narrativa fortemente marcada pela identidade cabo-verdiana, explorando elementos ligados à história, à oralidade, às paisagens e às relações sociais do arquipélago.

Entre ficção e realidade

José J. Cabral assegura que o livro “Ela! – Deu Muito Que Falar” é ficção, embora sustentada pela realidade de uma determinada época. “O leitor terá a oportunidade de regressar no tempo e perceber como aspetos banais, corriqueiros e normais eram ferozmente rechaçados”, explica. Com uma narrativa ampla e sensorial, construída a partir de um manuscrito encontrado, o romance revisita a vida nas ilhas de Cabo Verde, a tradição oral, a história e as paisagens do arquipélago.

Conforme o sinopse, a história tem como protagonista Clara Albana, uma jovem intrépida cuja personalidade a leva a confrontar as más-condutas, a discriminação, a incompreensão e os escândalos praticados por figuras instaladas nas estruturas de poder da sociedade. A personagem assume uma postura de denúncia e resistência, defendendo a igualdade racial e de género, a justiça social e a educação, ao mesmo tempo que enfrenta o machismo, o conservadorismo e a violência e subjugação das mulheres.

Entre as principais inspirações do romance estão, segundo Cabral, a primeira publicação de Baltasar Lopes, um opúsculo publicado em 1929, e a escritora san-nicolauense Antónia Pusich, cuja figura inspira a construção da personagem Clara Albana.  O autor recupera no romance questões e denúncias presentes nessa publicação de Baltasar Lopes, que acabou por ser retirada de circulação devido ao seu conteúdo. Resgata ainda a memória de personalidades ligadas à história de Cabo Verde, entre elas Antónia Pusich, Monsenhor Bouças, Baltasar Lopes e a descendência Lopes da Silva, além do Cónego José Correia.

Ficcionado sobre pressupostos de realidade, o romance percorre episódios da história social e política de Cabo Verde, trazendo para a narrativa temas como o totalitarismo, a guerra e a ameaça da fome — questões que o autor entende continuarem atuais no século XXI.  Aborda também comportamentos de determinados membros do clero que, segundo a narrativa, se afastam dos princípios da sua missão espiritual, explorando conflitos entre a moral pública, a religião e a conduta privada.

Outro eixo importante é a história prisional do arquipélago. O romance acompanha os primeiros momentos da experiência do novo modelo prisional português ensaiado na ilha de São Nicolau a partir de 1931, com a chegada dos revoltosos da Rebelião da Madeira. O episódio é relacionado com a ocupação do antigo Seminário e o consequente encerramento do Instituto criado pelo Cónego Ortigão, na sequência da Lei de Separação dos Poderes. A narrativa acompanha ainda o afastamento do sacerdote do Seminário e os seus últimos anos de vida, marcados por um período de guerra, seca e fome nas ilhas, até à sua morte, em 1944.

Apesar de mergulhar num período histórico específico, “Ela! – Deu Muito Que Falar” estabelece uma ponte com questões centrais do presente. Diversidade e inclusão, formas alternativas de amor, identidades, igualdade de género, direitos LGBTQIA+, racismo e xenofobia integram a releitura proposta pelo autor. Em suma, o livro apresenta-se, assim, como uma tentativa de desconstrução de padrões sociais e de recuperação de temas do passado à luz dos debates contemporâneos.

Perfil

José Joaquim Cabral nasceu em 1962 na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde. Depois de concluir os estudos liceais no Mindelo, formou-se em Administração de Empresas, em 1990, no Brasil. Foi quadro do Instituto Nacional do Desenvolvimento das Pescas, exerceu funções de direção no Instituto Nacional de Estatística, ocupando-se com questões de planeamento, ambiente e desenvolvimento no município de Tarrafal de São Nicolau.

Exerce funções no Conselho de Administração da Escola do Mar e passou pelo Gabinete do Ministro do Mar, onde foi assessor. Tem publicado os títulos: Acushnet Avenue, romance (2019); Caminho(s) que Trilharam, romance histórico (2014); Sodade de Nhâ Terra Saninclau I, II, III (2008, 2009, 2012), e Padre Gesualdo Fiorini, Italiano, de São Nicolau, cidadão, biografia, (2007).

 

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