A nova direção da LIGOC-SV conta ter em mãos ainda este ano o estudo do impacto económico do Carnaval do Mindelo e prevê a participação de todos os seis grupos oficiais no desfile do ano 2027: Cruzeiros do Norte, Flores do Mindelo, Estrela do Mar, Monte Sossego, Vindos do Oriente e Samba Tropical. Estas novidades foram avançadas ao Mindel Insite pela recém-eleita presidente da Liga, mas não são as únicas. Na entrevista, Ronise Évora revela ainda que a sua equipa destinou o mês de agosto para “arrumar a casa” e setembro para iniciar os preparativos do show do próximo ano.
No decurso de setembro, diz a responsável da LIGOC, os planos incluíram reuniões com o Conselho Deliberativo, órgão que comporta os presidentes de todos os grupos oficiais, com o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal de São Vicente, o tripé que sustenta o Carnaval do Mindelo. Com os grupos, esclarece Ronise Évora, o objectivo dos primeiros contactos foi permitir a apresentação dos membros da nova direção da Liga e estabelecer uma ponte de diálogo saudável com todos os grémios.
“Devemos estabelecer este aspecto dentro do contexto da nossa eleição que, apesar de termos sido lista única, a nossa candidatura foi eleita por uma margem de apenas 3 votos. Vários sócios votaram contra, pelo que era preciso iniciarmos o nosso mandato num clima de confiança mútua e de apaziguamento interno”, frisa Ronise Évora. Até agora, diz, os resultados têm sido satisfatórios.
O encontro com o ministro da Cultura aconteceu em setembro e, segundo Ronise Évora, permitiu abordar aspectos como o financiamento do evento, a previsibilidade do desbloqueio das tranches pelo Governo, a disponibilidade das prometidas sedes sociais aos grupos e à LIGOC, a questão dos estaleiros e ainda a importância da realização do estudo de impacto do Carnaval na economia local de São Vicente.
Falta concretizar o primeiro encontro oficial com a Câmara de São Vicente, principal parceira da Liga enquanto entidade organizadora do evento cultural e suporte logístico dos desfiles de segunda, com o Samba Tropical, e terça-feira, com os restantes grupos. “Em relação à CMSV, não fizemos nenhum esforço de contacto em agosto tendo em conta o envolvimento da edilidade nos preparativos do festival da Baía das Gatas e o recesso natural após este grande evento. Além disso, estávamos a arrumar a casa”, explica a presidente da Liga carnavalesca. Ronise Évora adianta, entretanto, que já remeteu uma nota a solicitar uma reunião com o edil Augusto Neves ou com um representante da autarquia mindelense. Porém, ainda não obteve resposta.
Esta jurista de profissão considera fundamental o encontro com a autarquia de São Vicente e que ocorra o mais breve possível. Lembra que o programa da Liga tem de estar em plena consertação com o da CMSV, a entidade que estabelece o circuito, coloca as bancadas, a iluminação e disponibiliza o sistema de sonorização ao longo do trajecto. “Temos, obviamente, de estabelecer as condições da realização do desfile e uma calendarização”, frisa a dirigente.
Outra prioridade estabelecida pela direção é o contacto com os parceiros privados do Carnaval. Empresas ligadas à hotelaria, restauração, transportes e casas comerciais que acabam por tirar partido da realização desse que é a maior manifestação cultural popular de Cabo Verde. Ronise Évora adianta que a Liga já começou a remeter notas solicitando encontros para debaterem eventuais contribuições dessa cadeia no financiamento do desfile oficial.
“Tem acontecido algo, diria, estranho. A cada desfile, os principais actores, que são os grupos, ficam mais endividados, enquanto outras entidades tiram proveito económico do espectáculo. E convenhamos que ‘toda a gente’ ganha algo com o Carnaval”, contesta a presidente da Liga. Acentua, aliás, que o próprio Estado recebe muito mais do que o montante disponibilizado aos grupos oficiais, através dos impostos arrecadados com as actividades geradas por essa festa popular.
Falar com dados na mão
Dentro deste contexto, Ronise Évora considera o estudo de impacto económico imprescindível para a LIGOC. Este instrumento vai permitir à organização falar com dados concretos na mão. Mostrar a cada parceiro o quão o Carnaval contribui para o crescimento do negócio no seu sector e quais as vantagens advenientes de um maior investimento no evento.
“Já temos a empresa que vai realizar o estudo e uma quase garantia de financiamento. E acreditamos que este trabalho exigido há muito tempo será finalmente concretizado”, diz. Ronise Évora enfatiza que toda a gente percebe a movimentação económica na cidade do Mindelo pelo Carnaval, só que falta saber ao certo quais são esses números para que os grupos, a Câmara Municipal de São Vicente, as empresas, a sociedade e o próprio Governo possam tratar esse assunto sem máscara.
“Uma coisa é certa, não é justo que os principais protagonistas do evento, que são os grupos, sejam os menos beneficiados. É chegado o momento de os grémios terem outra voz na negociação com os patrocinadores e parceiros”, defende. Ilustra que neste momento há grémios com dívidas acumuladas, que estão a condicionar a participação no desfile de 2027.
Por falar no concurso do próximo ano, Ronise Évora diz que este item já foi abordado com os grupos, mas evita avançar, por enquanto, eventuais propostas de melhoria. Isto porque, argumenta, tudo vai depender do encontro a ser realizado com a Câmara de São Vicente, autoridade responsável por determinar o trajecto e aspectos logísticos como a iluminação, sonorização e bancadas.
Sobre as bancadas, a presidente da Liga deixa claro que, na sua opinião, a venda dos bilhetes deveria ser via cartão electrónico para gerar mais transparência e confiança. Esta questão, diz, deve ser analisada com a CMSV, até porque as estruturas são da autarquia. “Neste quesito queremos apenas que as regras sejam devidamente esclarecidas. Se, por exemplo, a Câmara determinar que a venda dos bilhetes é da sua inteira responsabilidade aceitamos isto, encantados da vida”, admite.
Sem códigos de acesso
Eleita a 24 de julho, Ronise Évora enfrenta um constrangimento, que está a tentar ultrapassar a todo o custo: receber da anterior direção documentos sobre eventuais acordos e tratados assinados pela Liga com outras entidades e ainda os códigos de acesso ao email oficial e às redes sociais da organização.
Questionada se já agendou alguma reunião com Marco Bento, ex-Presidente da Liga, Ronise Évora diz que entrou em contacto com o empresário, mas que ainda não aconteceu nenhum encontro formal. “…, mas não por nossa indisponibilidade”, garante, lembrando, entretanto, que Bento estava ausente de São Vicente quando aconteceu a eleição e que a direção da Liga destinou o mês de agosto para “arrumar a casa”.
Ultrapassada essa fase, quer que o encontro aconteça o quanto antes porque há questões prementes a serem resolvidas, como o acesso às plataformas digitais. “Para podermos iniciar os trabalhos, e contornar dificuldades, criamos um email provisório. Mas precisamos também entrar no website e nas redes sociais da Liga”, sublinha.
A nova direção tomou igualmente a iniciativa de saber a situação da LIGOC a nível fiscal, administrativo, bancário e junto de parceiros para poder estabelecer a sua actuação. Do levantamento feito, ficou apurado que não há dívidas fiscais e aduaneiros e outras instituições abordadas ainda não se manifestaram sobre eventuais incumprimentos da Liga.
Sede da LIGOC e pelouros da direção
Uma das medidas imediatas implementadas pela nova direção foi criar e distribuir pelouros. Ronise Évora assegura que a medida cumpre o estabelecido nos Estatutos da organização, tendo, por isso, determinado os seguintes pelouros: organização administrativa e financeira, comunicação e relações públicas, tesouraria e secretaria, formação, assuntos jurídicos.
Entretanto, a direção conta receber a escola onde ficarão instaladas as sedes da Liga e dos grupos oficiais do Carnaval. A entrega deverá acontecer ainda em setembro, pelo que pretende abordar a delegação do Ministério da Educação nesse sentido. Acredita que essa medida vai ajudar a impulsionar a dinâmica da LIGOC e dos próprios grémios.
