Uma reportagem do Wall Street Journal revela que o Primeiro Comando da Capital (PCC), considerado a maior organização criminosa do Brasil, tem usado Cabo Verde e Guiné-Bissau como rotas intermediárias para o envio de carregamentos de drogas para a Europa. Os produtos, reproduz o Globo.com, são armazenados nestes dois países e depois remetidos para Portugal, camuflados em cargas de frutas ou madeira, país este considerado ponto estratégico de entrada dos estupefacientes na Europa e ainda base de operações logísticas e de lavagem de dinheiro.
Esta estratégia ocorre, conforme o jornal norte-americano, pela facilidade do uso da língua portuguesa e por causa dos laços comerciais entre Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal. Segundo o Globo.com, a publicação norte-americana destaca a expansão do PCC como uma facção que passou a usar uma logística sofisticada, alianças com máfias europeias e tecnologia avançada para dominar rotas do tráfico em direção a países como Portugal, Guiné-Bissau e Cabo Verde.
O Wall Street Journal afirma que o PCC deixou de actuar apenas no Brasil para operar como uma “multinacional do crime”, com estrutura comparável à de uma corporação. Fundado em 1993 após o “massacre do Carandiru” numa penitenciária de São Paulo em 1992, evoluiu de uma “irmandade carcerária” para uma rede internacional, com presença em diversos continentes.
Um dos pilares dessa expansão, diz o Globo.com, citando o WSJ, é o controle logístico do tráfico. Neste sentido, explica, o Porto de Santos, o maior da América Latina, tornou-se o principal ponto de saída dos carregamentos de droga rumo à Europa. Para assegurar a sua eficácia, a organização utiliza técnicas como o “rip-on/rip-off”, em que a cocaína é inserida em contentores de empresas legítimas sem o conhecimento dos exportadores. Acrescenta que o PCC diversificou suas operações para portos do Nordeste e para Paranaguá, no Brasil, explorando áreas com menor rigor de fiscalização.
A reportagem destaca ainda a aliança estratégica entre o PCC e a máfia italiana ‘Ndrangheta. Neste modelo, o Primeiro Comando da Capital actua como fornecedor de drogas em larga escala, enquanto o grupo europeu é responsável pela distribuição no continente. A diferença de preços é um dos motores dessa parceria: um quilo de cocaína comprado por cerca de 2 a 3 mil dólares na fronteira com a Bolívia pode alcançar mais de 30 mil euros no mercado atacadista europeu.
O PCC, conforme o WSJ, passou a contratar especialistas, como mergulhadores para fixar cargas ilícitas em cascos de navios e até hackers para invadir sistemas portuários e manipular registros de mercadorias. De acordo com o jornal, o modelo de negócios do grupo se assemelha a uma “franquia”, em que membros pagam contribuições e seguem regras internas, mas mantêm autonomia operacional. Essa flexibilidade contribuiu para sua rápida expansão internacional.
O impacto dessa atuação, salienta a reportagem, já é sentido em diversos países. Regiões como Paraguai e Equador enfrentam aumento da violência associado à disputa por rotas ligadas ao grupo. Ao mesmo tempo, autoridades enfrentam dificuldades para conter a organização, já que líderes continuam a comandar operações a partir de presídios de segurança máxima, utilizando sistemas de comunicação que driblam o controle estatal.
Ultimamente, os Estados Unidos da América têm falado sobre a possibilidade de classificar o PCC como organização terrorista. No entanto, o tema tem gerado posições díspares no Brasil. Uma delas é que os grupos terroristas têm motivações ideológicas, muitas vezes viradas para o fundamentalismo religioso, enquanto as organizações criminosas visam alcançar o lucro.
