Psicóloga da Comunidade Terapêutica  relata mudança do perfil dos usuários e policonsumo de drogas em S. Vicente

A psicóloga da Comunidade Terapêutica da Ribeira d’Vinha, que participa da ação de capacitação dos profissionais de saúde mental que acontece hoje e amanhã na Delegacia de Saúde de S. Vicente, relata uma mudança no perfil dos usuários, muito diferente dos dados do inquérito nacional de prevalência de consumo de drogas em Cabo Verde, de 2013, e policonsumo de drogas. Com base na sua experiência, Katiza Lima afirma que hoje os jovens que procuram a CT chegam com problemas de consumo de drogas, mas também de ansiedade, depressão e outros que demandam uma intervenção multidisciplinar. 

Estas informações foram avançadas à imprensa à margem desta formação em que participa com foco em dois pilares, sendo o primeiro os dados epidemiológicos da ilha, que constam do primeiro inquirido nacional sobre prevalência de consumo de substâncias em Cabo Verde e do relatório internacional das Nações Unidas (ONODOC). Mas, diz, mais importante que os relatórios, vai apresentar dados baseados na sua experiência, observação e práticas clínicas. “Estes dados focam a atenção nos aspectos e padrões consistentes nos jovens, que estes relatórios não capturam”, assegura. 

Em jeito de exemplo, Katiza Lima revela que o perfil qualitativo de consumidor de droga permite-lhe afirmar, sem sombra de dúvidas, que os jovens estão hoje a chegar na comunidade com problemas de consumo de substâncias, mas também outras perturbações psicológicas, psiquiátricas e emocionais. “Recebemos jovens com problemas de ansiedade, depressão e de traumas de desenvolvimento complexo, que é uma questão que vou focar na minha intervenção e que tem sido sub-diagnosticado, caso do stress pós-pós-traumático complexo,” específica. 

Para esta psicóloga, qualquer tipo de intervenção que não alcance estes aspectos, ou seja, que foca apenas no consumo, é incompleta e o risco de recaída é maior. “Temos, por isso, de considerar este novo padrão que está a sobressair e que não foi reportado nos relatórios referidos anteriormente e que datam de 2013. Este novo padrão de consumo de jovens e da população geral em S. Vicente, tem a pedra/crack como droga de eleição, sendo que antes consumia-se essencialmente a cannabis, o álcool e outras em S. Vicente e a nível nacional.”

Aumento consumo de cocaína

Hoje, diz, os utentes procuram internamente sobretudo por consumo de cocaína, que tem aumentado de forma significativa. Para justificar esta afirmação, Katiza Lima explica que, na Comunidade Terapêutica, de 2023 para 2026, perceberam um aumento muito significativo de consumo de cocaína e pedra. “O padrão de consumo mudou, mas o que se destaca é o policonsumo. Os jovens começam a consumir cada vez mais cedo, ou seja, a idade de consumo baixou. Chegam com um padrão de dependência estabelecido, muitas vezes com anos de consumo ininterrupto. E consomem várias substâncias, sendo a combinação mais frequente de álcool, cocaína, cannabis e tabaco”, descreve. 

A situação, do ponto de vista desta especialista, é ainda mais preocupante, tendo em conta que a maior parte desses jovens – cerca de 70% – são provenientes de um contexto sócio-familiar e psicossocial disfuncional. Ou seja, são de famílias desestruturadas, pobres e desempregados, sendo que a maioria nunca teve um trabalho formal estável. “Boa parte desses jovens não conseguiram sequer concluir o ensino básico. Vêm de um contexto de vulnerabilidade social, que está diretamente ligado aos seus traumas de desenvolvimento.” 

Por isso, afirma, acabam por ser expostos a abusos, negligência, violência doméstica, ou seja, a uma variedade de formas de adversidade ao longo do desenvolvimento e da vida. E isto leva ao trauma de desenvolvimento complexo. “Não resulta de um evento único, mas de uma exposição crónica à estas adversidades. E isto faz com que o consumo acabe por funcionar como um alívio para o sofrimento psíquico provocado por aquele trauma, aqueles problemas e outras perturbações provenientes da vida desestruturada.” 

Consumo como automedicação

Mais, diz Katiza Lima, o consumo de substâncias acaba por funcionar como automedicação, agravando o trauma e a vulnerabilidade psiquiátrica. Com isso, leva à exclusão social, à ruptura familiar, perpetua a dependência. “É um cenário preocupante e exigente em termos sociais. Por isso que digo que as estatísticas não alcançam a realidade. Os conhecimentos que temos, repito, partem da observação e do conhecimento informal. Mas são reais.”  

Para reverter este quadro, a psicóloga reclama medidas específicas e à altura da magnitude do problema. Lembra que o consumo inicia-se cada vez mais cedo, sendo hoje a idade reportada para as estatísticas para o consumo de cannabis 15 anos, para o álcool e outras drogas 16 anos. “O Inquérito Nacional aponta a idade crítica para o início do consumo entre 15 a 24 anos. Desse número, 6.7% de jovens desta idade já tinham consumido alguma droga ilícita e, metade, já tinha consumido álcool no último ano. Estes dados apontam para uma maior experimentação e um maior e recorrente consumo.” 

Mais mulheres toxicodependentes

Instado a confirmar se há maior consumo de drogas em S. Vicente, Karina Lima volta a referir que a sua percepção baseia-se na sua observação pessoal mas, tendo em conta o número de residentes que procuram o internamento, cuja faixa etária tende a diminuir, não tem dúvidas. Esta destaca, por outro lado, o aumento da procura por parte de mulheres e por pessoas com policonsumo, isto é, que consomem mais álcool, cannabis, pedra, cocaína e tabaco. “Sao pessoas que consomem mais de três substâncias ilícitas em simultâneo e as consequências são devastadoras, principalmente neste novo padrão que está a emergir e que tem o consumo de pedras como droga de eleição,” detalha. 

Mais mulheres-toxicodependentes 

No caso particular de pedra, sublinha, é uma droga que tem um potencial elevado para provocar adição e um potencial devastador em termos de desestruturação, sobretudo em pessoas que já têm uma fragilidade psicossocial. Questionada sobre possíveis medidas para travar este flagelo, Katiza realça que a Comunidade Terapêutica é uma prevenção terceira, que só atua quando o problema já está estabelecido e os danos são visíveis. “Temos feito um esforço enorme, mas ainda não é suficiente. É preciso atuar na prevenção primária e secundária. É preciso também lutar contra a disponibilidade das substâncias.”

Sobre este particular, relata casos reportados por jovens internados que contam que o seu primeiro consumo ocorreu dentro das casas de banho, salas de aulas ou nos intervalos. Por isso, apela à uma intervenção num nível mais macro, ou seja, do sistema, porque as substâncias estão disponíveis. “Somos um país com grande vulnerabilidade psicossocial. A condição econômica de boa parte da população não é favorável. Por isso, a atuação deve ser no sentido de promover a saúde mental das famílias e atuar antes da doença estar instalada. É preciso envolver uma infinidade de profissionais da área e a própria população para, em conjunto, tentar delinear estratégias de intervenção. 

Outra sugestão, do seu ponto de vista, é começar por atualizar o inquérito e com um alcance mais abrangente para que se possa conhecer a realidade atual. E, numa fase posterior, socializar os dados com a população porque, mais do que os decisores, cada pessoa, cada comunidade tem uma palavra a dizer. 

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