Há um ano São Vicente acordou para um cenário que parecia saído de um pesadelo. A tempestade Erin passou pela ilha deixando para trás uma rasto enorme de destruição, com as suas ruas transformadas em rios, casas destruídas, estradas danificadas, negócios paralisados e famílias mergulhadas na incerteza. E, acima de tudo, deixou nove vidas perdidas para desespero dos que ficaram e sequer conseguiram enterrar o seu ente.
Passaram-se 365 dias. Um ano inteiro. Mas há feridas que o tempo não consegue fechar . Na cidade, a vida voltou ao seu ritmo habitual. As pessoas voltaram às suas rotinas, os mercados reabriram, as ruas recuperaram parte da normalidade e a cidade voltou a receber visitantes, muitos visitantes. Mas basta sair um pouco do centro ou conversar com algumas das famílias atingidas para perceber que a Erin ainda não passou completamente.
Há marcas que permanecem e, sobretudo, na memória de quem viveu aquelas horas de aflição, mas também nas paredes, casas, estradas e ruas esburacadas. Naqueles primeiros dias, São Vicente mostrou também uma das suas faces mais bonitas: a solidariedade. Quando a força da tempestade deixou famílias sem casa, sem roupa, sem alimentos e, em alguns casos, praticamente sem nada, a população arregaçou as mangas.
Vieram mãos para limpar, alimentos, água potável e produtos de higiene. Vieram colchões, roupas, sapatos e brinquedos. Da diáspora chegaram donativos de toda a espécie. Foi como se, perante a dimensão da tragédia, a ilha tivesse decidido responder em uníssono: ninguém ficará sozinho.
As instituições se fizeram presentes. A Cruz Vermelha mostrou a sua verdadeira essência. Apoiou de todas as formas e transformou São Vicente no palco da celebração do Dia Nacional do Voluntariado, numa homenagem àqueles que estiveram na linha da frente da resposta à catástrofe. A iniciativa serviu para recordar que, em momentos de crise, o voluntariado deixa de ser uma escolha individual e passa a ser uma força coletiva.
Debateram-se as operações humanitárias na ilha, o apoio psicossocial em tempos de crise e o papel da juventude no voluntariado. Mais do que sessões de formação, eram lições aprendidas no terreno. Porque a Erin ensinou, da forma mais dura, que uma comunidade preparada pode fazer a diferença quando tudo à volta parece desabar.
Também houve música e solidariedade. Por exemplo, a cantora Luchinha Neves, residente nos Estados Unidos, juntou amigos num espectáculo beneficente para ajudar as famílias afetadas. Durante duas horas, a música tradicional tornou-se mais uma forma de reconstrução. Era preciso reconstruir casas, mas também esperança.
O Governo decretou o Estado de Calamidade e mobilizou recursos para intervenções urgentes, desde o alojamento de famílias à reparação de estradas, apoio às empresas e aos pequenos negócios. No sector das pescas foram autorizadas despesas de cerca de 62 mil contos para a aquisição de motores e equipamentos de segurança destinados às embarcações de pesca artesanal danificadas ou destruídas pela tempestade. A intenção era clara: devolver à esta classe profissional os meios de produção perdidos e permitir o regresso à actividade. Mas reconstruir depois de uma tempestade não é apenas levantar paredes ou substituir motores.
A Câmara Municipal de São Vicente, que foi fortemente criticada devido a alegada atuação lenta num primeiro momento, passou a divulgar notas frequentes sobre as visitas ao terreno e às intervenções. O objetivo era claro: mostrar presença e obras. E, agora no balanço do primeiro ano da catástrofe, revela que reforçou canais de drenagem e esgotos, recuperou mercados e habitações, mas admite que falta ainda muito por fazer.
Mas a Erin deixa de ser apenas uma memória de São Vicente para se transformar num aviso para o país. Numa conferência promovida pelo Banco de Cabo Verde sobre o papel dos seguros na gestão das alterações climáticas, esta questão esteve no centro do debate. O aumento da frequência e da intensidade dos fenómenos extremos está a obrigar governos, empresas e reguladores a repensar a forma como se protege o património e as pessoas.
Em Cabo Verde, país particularmente vulnerável às alterações climáticas, a questão ganha ainda maior urgência. Esta conferência expôs uma realidade preocupante: muitas famílias e empresas continuam sem seguro ou possuem coberturas para os seus bens. A questão, portanto, não é apenas saber quanto custa um seguro. É saber quanto custa ficar sem ele quando chega uma Erin.
A tempestade Erin ensinou aquilo que muitas vezes só se aprende depois da perda: prevenir custa menos do que reconstruir. Um ano depois, São Vicente não é exactamente a mesma ilha. Talvez porque também não seja possível voltar a ser a mesma depois de perder nove pessoas, depois de ver casas destruídas e famílias desamparadas, depois de perceber a força de um fenómeno extremo.
