Os moradores de Ribeira da Cruz, no município do Porto Novo, em Santo Antão, estão há cerca de três meses com dificuldades para aceder à Televisão Digital Terrestre (TDT) e ao sinal da Rádio de Cabo Verde (RCV), situação que, dizem, está a limitar o acesso a informações sobre o que acontece no país e no mundo. A denúncia foi feita ao Mindelinsite por moradores, que afirmam que o sinal da TDT se tornou intermitente desde Junho, enquanto o sinal da RCV deixou de ser captado há mais tempo.
“Estamos fora da realidade”, lamenta Olavo Morais, um dos moradores que chamou a atenção para o problema. Segundo conta, antes a TDT funcionava normalmente, mas desde Junho o sinal aparece e desaparece, deixando sem televisão as famílias que não dispõem de antenas parabólicas. “Antes, a TDT funcionava, mas desde Junho ficamos sem sinal. Apenas nas casas onde existem antenas parabólicas é que as pessoas conseguem ver televisão. Nós, que dependemos da TDT, não estamos a ver nada. O mais grave é que não sabemos o que se passa e ninguém se digne a nos dar uma explicação”, afirma.
Olavo Morais diz ter procurado informações junto do delegado da RCV no Porto Novo, mas, segundo relata, foi informado de que o problema estaria relacionado com a Cabo Verde Broadcast, empresa responsável pela rede de TDT. O morador garante, entretanto, que a comunidade enfrenta também dificuldades para acompanhar a programação radiofónica, particularmente da RCV, uma das estações mais ouvidas na localidade. “Também estamos sem acesso à rádio. A preferência aqui é pela RCV, mas neste momento está difícil acompanhar a sua programação”, afirma.
Explica Morais que, anteriormente, o sinal era captado através de uma antena localizada em Moroso, mas esta deixou de funcionar, fazendo desaparecer o sinal da RCV em Ribeira da Cruz. “Não sei que tipo de procedimento devem fazer, mas acredito que, se colocassem espelhos nos lugares altos para dar cobertura às zonas de sombra, poderíamos voltar a ouvir a Rádio Nacional”.
“Estamos completamente isolados”
Maria Helena, conhecida na comunidade como uma das ouvintes mais assíduas e participativas da RCV, confirma as dificuldades e afirma que o problema ultrapassa Ribeira da Cruz. “Estamos completamente isolados. Às vezes conseguimos ver um pouco de televisão, mas logo desaparece. O mesmo acontece com a RCV. Gostaríamos pelo menos que reparassem as antenas para que pudéssemos ter acesso às notícias via RCV”, afirma.
A moradora critica igualmente a actual forma de distribuição das rádios através da televisão, considerando que esta solução não responde às necessidades das comunidades onde o sinal televisivo é deficiente. “Não faz sentido colocarem as rádios na televisão porque não conseguimos carregar o aparelho às costas”, ironiza.
Segundo Maria Helena, moradores de outras localidades próximas, como Martiene, Chã de Norte, Jorge Luís e Chã de Branquinho, também enfrentam dificuldades para captar o sinal da rádio. Perante a persistência do problema, a comunidade está a ponderar avançar com um abaixo-assinado para chamar a atenção das autoridades e das entidades responsáveis.
Acidente no Fogo acompanhado pelas redes sociais
A ausência de rádio e televisão, diz, tem consequências particularmente graves no acesso a informação de interesse público. Maria Helena cita como exemplo o recente acidente rodoviário ocorrido na ilha do Fogo, que provocou 25 mortes e feridos. Diz que os moradores de Ribeira da Cruz só conseguiram acompanhar os acontecimentos através das redes sociais.
“Foi apenas através do Facebook que pudemos saber o que se passa porque, se fosse pela televisão ou pela rádio, continuávamos a léu dos acontecimentos”, lamenta. A moradora considera que a situação contribui para o isolamento de comunidades que já enfrentam dificuldades devido à sua localização e às condições de acesso.
Outra moradora, Dinora, também confirma a falta de sinal e destaca o impacto que a situação tem no acesso às notícias. “No meu caso, não tenho antena parabólica. Por isso, dependo da TDT, que às vezes funciona, outras não. Já a rádio, há muito tempo que não temos nenhum sinal. É triste porque parece que não estamos em Cabo Verde ou no mundo”, conta.
Os moradores apelam, por isso, a uma intervenção urgente das entidades responsáveis para a reposição dos sinais de televisão e rádio na localidade e nas comunidades vizinhas. O Mindelinsite tentou contactar a Cabo Verde Broadcast (CVB) para obter esclarecimentos sobre as causas da interrupção e saber que medidas estão previstas para resolver o problema. A empresa comprometeu-se a prestar informações e a retornar o contacto, mas, até ao momento da publicação desta notícia, tal não aconteceu.
Do lado da RCV, o director técnico explicou que desconhecia o problema de sinal na localidade de Ribeira da Cruz porque não recebeu nenhuma queixa de moradores ou da delegação da RCV na ilha de Santo Antão. Manuel Sanches prometeu inteirar-se dos factos, através das estruturas locais. Explicou que o técnico responsável encontra-se em gozo de férias, mesmo assim, vai informar-lhe e resolver o problema o mais rápido possível.
