Da bola ao ritmo, que caminho para a nossa música depois da Copa?!

David Leite

“Fala-se em trazer o mundo a Cabo Verde. Mas poucos falam em levar Cabo Verde ao mundo, e não oiço falar da nossa música. Assim como o nosso hino nacional ecoou na Copa, apetece-me dizer que a nossa música, até agora confinada a nós-outros cabo-verdianos (nas ilhas e na diáspora) merece ecoar mais longe!”

1. Também na música somos potência!

Apetece-me escrever hoje o que venho dizendo e repetindo há vários anos: a nossa música deve expandir-se mais no mundo. No futebol já provámos ser uma potência. Nôs era bom, nô ca sabia!

Na música, mesma coisa – mas isso já sabíamos, muito antes da Copa! O que falta é pôr as nossas melodias no mundo, assim como pusemos o nosso futebol na mais alta competição do planeta!

Se me apetece escrever agora o que há muito venho dizendo é porque nunca se falou tanto de Cabo Verde. Não ganhámos a Copa do Mundo, ganhámos o mundo na Copa! E vai daí, fala-se em trazer o mundo a Cabo Verde. Mas poucos falam em levar Cabo Verde ao mundo, e não oiço falar da nossa música. Assim como o nosso hino nacional ecoou na Copa, apetece-me dizer que a nossa música, até agora confinada a nós-outros cabo-verdianos (nas ilhas e na diáspora) merece ecoar mais longe!

Não estamos a descobrir a pólvora: Cesária deu o pontapé de saída e os nossos produtores e empresários musicais nunca baixaram a bola. Mas quero crer que é possível ir mais longe se apostarmos numa boa comunicação e numa ofensiva de marketing que extravase das nossas comunidades para outros públicos e outros mercados.

2. O infinito génio dos nossos criadores

Se a nossa música tem tudo para estar no mundo é graças ao infinito génio dos nossos jovens criadores, muitos deles driblando dificuldades que nem os nossos intrépidos jogadores até chegar à baliza da consagração. E cada dia surgem novos talentos, nas ilhas como na diáspora (não vou mencionar nomes para evitar melindres). O nosso espectro musical é hoje tão diverso que precisamos dar nome aos novos géneros, nascidos de diferentes matrizes como o Sanjom, o Batuku, a Coladêra, Mascrinha-mandinga ou Funaná. Todas essas musicalidades, antigas e contemporâneas fazem de Cabo Verde um caso de estudo para musicólogos e pesquisadores.

O nosso carnaval ganhou novas composições nos desfiles de competição, diferentes das marchinhas do tempo do Ti-Goi. Já não vibramos tanto com “Cidade maravilhosa”, “Olha a cabeleira do Zézé”, “Me dá um dinheiro aí” e outros clássicos do carnaval brasileiro – kem podê! Hoje, ouso acreditar que as nossas cadências de “mascrinha” e “mandinga” haveriam de fazer furor em Copacabana! Tais ritmos fizeram do carnaval de São Vicente uma manifestação singular, com personalidade própria… e acho que é hora de partirmos à “conquista” do carnaval brasileiro! Ariahhhhh!

Com a independência, colhemos “vingança” de uma administração colonial soberba e altiva que num passado remoto apitou “fora de jogo” para o batuku e o funaná! Se em silêncio fizemos “dançar” os argentinos durante mais de duas horas, um bom funaná é que era bom!

3. Universalizar a nossa música

Sonho com uma música cabo-verdiana universalizada, como a Salsa, o Zouk, o Samba ou o Reggae, para só mencionar estes ritmos latino-americanos… pois há também os afro-americanos e outros. Quero ouvir a nossa música nos palcos, nos estádios, desfiles e eventos populares por este mundo fora. E porque não nas discotecas de Londres, Paris, Tóquio ou Nova Iorque!…

E não temos só ritmos para vibrar, temos também música para a alma! Músicas para todos os palcos e plateias, instrumental e cantada. Até nos círculos mais eruditos, os nossos compositores, instrumentistas e músicos em geral não deixam o seu crédito por mãos alheias! Sonho até com o nosso “São Silvestre” feito tradição em outros países que não conhecem a magia do nosso Natal e Passagem de Ano!

Se houvesse uma Copa do Mundo para a Música, certamente iríamos à final! Mas o jogo, por ora, é fora das quatro linhas… A bola está no pé dos produtores e empresários musicais!

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