- Hélio Africano Querido Varela
Tem-se focado demasiado no feito desportivo dos Tubarões Azuis, ignorando a dimensão que alcançámos para além do futebol. O perigo deste foco é reduzirmos o nosso potencial enquanto Nação. Estivemos no jogo mais visto deste Mundial, com quase três mil milhões de pessoas a ouvir, a ver, a inspirarem-se com o povo cabo-verdiano, num momento em que o pensamento predominante era que a Argentina não ganhou: sobreviveu. Reduzir este acontecimento à esfera desportiva é uma visão míope. Quase um crime de lesa-pátria.
Foi por isso que no meu texto anterior fui ao extremo de propor que se consagre um dia à União e Consciência Nacional. Vivemos os primeiros cinquenta anos da independência com um discurso assistencialista. O pensamento dominante instalou em nós a ideia de que dependemos da ajuda exterior para sobrevivermos. Era o milho nos primeiros anos. Mas ainda hoje esse pensamento persiste, inculcado no nosso ser: dependemos de terceiros para existir.
Se há algo que deve sair desta jornada, e que deve sair com clareza, é a certeza de que podemos depender das nossas próprias capacidades para potenciar a nossa economia. A nossa força está em… nós!!
Cesária Évora já tinha apontado o caminho. Bubista, Vozinha, Mário Semedo e tantos outros vieram reforçar a mensagem. O nosso desenvolvimento pode depender de algo verdadeiramente endógeno: a nossa cultura, o nosso desporto, os nossos valores. Esta é, para mim, a transformação que Cabo Verde necessita. Acreditar que temos valor suficiente para mudar o paradigma, da mão estendida para a contribuição efectiva no mundo global.
Claro que devemos investir mais no desporto. Bastante mais. Claro que devemos investir mais na cultura. Bastante mais. Mas a grande mudança de paradigma não está no montante do investimento, está na resposta à pergunta: porquê, qual o propósito maior desse investimento?
Desporto e cultura para o desenvolvimento de Cabo Verde!!! Desporto e cultura como resposta aos problemas da pobreza!!! Esse é o mindset a mudar. Acreditar que o desporto e a cultura podem alavancar investimento e turismo, que podem, na verdade, ser os principais alavancadores do investimento e do turismo em Cabo Verde, através da exposição positiva e global da marca Cabo Verde. Sim, esta ambição ultrapassa o futebol. Sim, a obra pode ultrapassar o seu autor. E ainda bem!!
Infelizmente, vejo demasiadas reflexões a reduzirem o efeito do que está a acontecer. Há quem proponha profundas reformas para o futebol e o desporto cabo-verdiano, como se este fosse o momento para a gestão corrente. Não. Isso é diminuir o que todo o mundo reconhece. O que nos pede este momento é outra coisa: arregaçar as mangas e ter um discurso novo. Um discurso para Cabo Verde.
Esta geração, estes jovens, merecem a ousadia de pensar um Cabo Verde diferente. Liberto das amarras que durante décadas nos limitaram e nos forçaram a acreditar que somos filhos de um deus menor.
Defendo um dia a ser lembrado, e que fique claro, claríssimo, não pelos ganhos notáveis dos Tubarões Azuis. Defendo que esta jornada seja registada como o momento em que Cabo Verde mudou o rumo do seu desenvolvimento: saindo da mão estendida para assumir o papel de contribuinte na aldeia global potenciando a diáspora e, sustentado pelo que é genuinamente nosso.
Claro que esta proposta implica ousadia. Mas não foi essa mesma característica que nos trouxe a independência e a democracia? Cinquenta anos depois, uma nova ruptura de posicionamento é o que Cabo Verde precisa.
Proponho o Dia da União e Consciência Nacional.
O dia em que Cabo Verde acertou o passo com o seu próprio potencial.
Afinal…a liberdade é hino. E o homem a certeza.
