Cabo Verde e o Mundo – Partes I, II e III

Christian Lopes

Há muito que se fala da necessidade de diversificar a economia cabo-verdiana. Hoje, porém, essa discussão passou a ser uma necessidade estrutural. O modelo de crescimento económico que sustentou Cabo Verde nas últimas décadas dá sinais claros de esgotamento. Instituições internacionais, como o Banco Mundial, têm vindo a alertar para a estagnação da produtividade e para a perda de competitividade relativa de economias pequenas, insulares e excessivamente concentradas num único setor.

Cabo Verde e o Mundo – Parte I

O primeiro problema é precisamente esse: a concentração. Cabo Verde construiu uma economia fortemente dependente do turismo, um setor que, apesar de relevante e necessário, é por natureza volátil e altamente vulnerável a choques externos. A pandemia da Covid-19 foi uma demonstração clara dessa fragilidade. Quando o turismo colapsa, a economia cabo-verdiana entra imediatamente em stress. Este nível de dependência constitui hoje um dos maiores riscos estruturais do país.

Quando analisamos a estrutura económica nacional, os níveis de produtividade, a competitividade dos setores existentes e as limitações inerentes a um pequeno Estado insular, chegamos à seguinte conclusão: Cabo Verde precisa de diversificar a sua economia de forma pragmática e orientada para resultados. E, dentro dessa diversificação, o setor com maior potencial para funcionar como alavanca de crescimento é o setor dos serviços.

Mas, vender serviços a quem?

Fora do turismo, Cabo Verde não é suficientemente competitivo para disputar, em larga escala, os mercados europeu, americano ou asiático nos serviços tradicionais. Isso remete-nos, de forma quase natural, para um mercado que tem sido subvalorizado no debate nacional: o mercado africano.

Apesar dos problemas que todos conhecemos, a África é também crescimento demográfico, urbanização, consumo, juventude, procura por serviços, necessidade de alimentos, energia, tecnologia, formação, saúde, mobilidade e infraestruturas. Queremos continuar a assistir a esse processo de longe ou posicionar-se nele?

A integração de Cabo Verde na África e, em particular, na CEDEAO deve ser analisada sem filtros ideológicos e com absoluto pragmatismo económico. Hoje, as relações comerciais de Cabo Verde com o continente africano, especialmente com a CEDEAO, continua muito modesto. Estamos aquém daquilo que deveria ser uma estratégia já em fase de execução.

Um exemplo simples ajuda a ilustrar esta oportunidade. Atualmente, a esmagadora maioria dos turistas que visitam Cabo Verde provêm da Europa. Esta concentração expõe o país a riscos evidentes. Se Cabo Verde conseguisse atrair uma pequena fração da classe média da África Ocidental, isso representaria um mercado complementar ao mercado europeu. Para isso, naturalmente, seria necessário ajustar políticas de fronteira, infraestruturas e até parte da oferta turística nacional.

Mas o potencial africano não se esgota no turismo. Pelo contrário. A região já dispõe hoje de indústrias qualificadas e certificadas, capazes de fornecer Cabo Verde com produtos a preços mais competitivos do que os mercados tradicionais europeus. O exemplo recente da importação de cimento produzido na Costa da África, com certificação europeia e preços significativamente mais baixos, demonstra que esta alternativa é real e viável.

Na área agroindustrial, existem produtores africanos que exportam para a Europa e para os Estados Unidos e que poderiam responder à crescente procura do setor hoteleiro cabo-verdiano. Na energia, Cabo Verde poderia assumir um papel muito mais ativo, nomeadamente na produção de equipamentos como painéis solares, aproveitando parcerias internacionais interessadas em instalar unidades de produção no país com vocação exportadora para a região. Na transformação do pescado, na conservação, na logística marítima, nos medicamentos, nos inertes e até na tecnologia, existem nichos claros onde o Estado de Cabo Verde e o nosso setor privado poderiam posicionar-se estrategicamente.

Nada disto exige que Cabo Verde “faça tudo”. Pelo contrário: exige que escolha bem. Um país pequeno não pode dispersar recursos nem tempo. Precisa de prioridades bem definidas e de vontade política. Sem isso, continuaremos a repetir diagnósticos corretos sem resultados práticos.

Podemos reduzir a nossa vulnerabilidade económica, diversificar a nossa base produtiva e afirmarmo-nos como um fornecedor relevante de serviços e bens específicos no espaço africano. Este é o futuro económico estratégico que precisamos compreender.

Cabo Verde e o Mundo – Parte II

Na primeira parte desta reflexão, defendi que Cabo Verde precisa de olhar para África com mais estratégia, por uma razão simples: um país pequeno, insular e vulnerável não pode continuar dependente de poucas rotas económicas, poucos mercados e poucos parceiros.

Além do continente africano, se queremos pensar o país com visão geopolítica, económica e diplomática, temos também de olhar para o outro lado do Atlântico. E, desse lado, há um parceiro que devemos começar a olhar como uma oportunidade estratégica: o Brasil.

O Brasil é para nós um país irmão, é língua portuguesa, é música, é futebol, é literatura, e é história comum. Mas o Brasil é também uma potência continental. Tem escala agrícola, capacidade industrial, recursos naturais, universidades, investigação, empresas, tecnologia, experiência em saúde, energia, agroindústria, alimentação e formação técnica.

Devemos, e com urgência, transformar esta relação histórica com o Brasil numa verdadeira estratégia económica. Pelo simples facto de que o Brasil nos pode ajudar a alargar opções.

Na segurança alimentar, Cabo Verde importa muito e caro. O Brasil, pela sua capacidade agrícola e agroindustrial, pode ser um parceiro complementar no abastecimento, na formação, na tecnologia agrícola, na investigação aplicada e na criação de soluções adaptadas a países tropicais e insulares.

Na formação técnica e universitária, há espaço para muito mais cooperação. Cabo Verde precisa de quadros preparados em áreas práticas: energias renováveis, agricultura, tecnologias digitais, gestão portuária, saúde, indústria alimentar, economia azul, turismo, logística e empreendedorismo. O Brasil tem instituições, universidades e centros de conhecimento que podem ser mobilizados de forma mais estratégica.

Na saúde, na indústria farmacêutica, na tecnologia, na cultura e nas indústrias criativas, também há oportunidades. Trata-se aqui de construir parcerias úteis, com resultados concretos. Mas, a parceria com o Brasil abre espaço para pensarmos mais além e começarmos a olhar, a partir deste, para o Mercosul.

O mundo está a reorganizar-se em blocos económicos, corredores comerciais e novas cadeias de valor. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul mostra que grandes regiões estão a procurar novas vantagens comerciais e novas formas de presença no comércio global. Podemos ser úteis?

Reparem. Temos uma localização atlântica relevante. Temos estabilidade institucional. Temos ligação à lusofonia. Temos proximidade à África Ocidental. Temos relações históricas com a Europa. Temos diáspora. Temos experiência em serviços. E temos uma posição geográfica que pode ser transformada em vantagem.

Ora, o Brasil pode ser uma porta para a América do Sul. Cabo Verde pode ser uma porta para a África Ocidental, para a Macaronésia e para o Atlântico Médio. Esta ideia tem de entrar na economia real.

Precisamos de missões empresariais consistentes entre Cabo Verde e Brasil. Precisamos de acordos entre universidades, câmaras de comércio, portos, empresas, municípios e instituições financeiras. Precisamos de estudar linhas logísticas, rotas comerciais, mecanismos de financiamento para pequenas e médias empresas, cooperação agroindustrial, parcerias tecnológicas e projetos ligados à economia azul.

A ligação entre os 2 países tem de ser produtiva.

Que produtos podemos importar melhor? Que serviços podemos vender? Que empresas podemos aproximar? Que conhecimento podemos transferir? Que oportunidades podemos criar para jovens, empresários, universidades e municípios? Que papel podemos desempenhar na ligação entre Brasil, África Ocidental e Europa?

É aqui que entra a diplomacia económica, por via das próprias embaixadas que não podem ser vistos apenas como espaços de representação política. Devem mapear oportunidades, abrir portas, aproximar empresas, identificar investidores, apoiar exportadores, promover setores estratégicos e transformar relações históricas em resultados concretos.

Cabo Verde é pequeno demais para pensar pequeno. Precisamos pensar para lá do mercado interno. Precisamos estudar mercados, participar em feiras, criar consórcios, procurar parceiros, melhorar qualidade e obter certificações.

O nosso papel é, acima de tudo, a proteção dos nossos próprios interesses. Uma das armas que podemos ter à nossa disposição é a diversificação. Diversificar é escolher melhor, negociar melhor e criar mais margem de manobra.

Cabo Verde precisa de uma política externa económica mais ambiciosa. Uma política externa que produza comércio, investimento, conhecimento, formação, tecnologia, exportações e emprego.

Cabo Verde e Brasil têm história. Têm língua. Têm afetos. Têm cultura. Mas falta transformar tudo isso em economia. O Atlântico está entre nós e pode ser a nossa ponte. Está na hora de deixarmos de o ver como separação.

Cabo Verde e o Mundo – Parte III

Nas duas primeiras partes desta reflexão, defendi que Cabo Verde precisa de olhar para África com mais estratégia e de transformar a relação histórica com o Brasil e o Atlântico Sul numa oportunidade económica concreta.

Nesta última parte, vamos procurar compreender melhor, enquanto país, o outro lado do mundo: a Ásia, o Golfo, a China, a Índia, os BRICS e os novos centros de poder económico que estão a ganhar influência na ordem internacional.

O mundo já não gira apenas em torno dos centros tradicionais de poder. A Europa e os Estados Unidos continuarão a ser parceiros fundamentais para Cabo Verde. Isso não está em causa. O que está em causa é outra coisa: será sensato um país pequeno, insular, importador e vulnerável depender quase sempre das mesmas geografias, dos mesmos financiadores e das mesmas rotas económicas?

Cabo Verde precisa de mais opções.

China, Índia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Japão, Coreia do Sul e outros polos asiáticos e do Golfo têm hoje peso significativo no financiamento, na tecnologia, na energia, nas infraestruturas, na logística, na indústria, na saúde, na formação técnica e no comércio internacional.

A China, por exemplo, tornou-se um ator incontornável no financiamento de infraestruturas, na construção, na tecnologia, na energia solar, nos equipamentos industriais e nas cadeias globais de produção. Há oportunidades que podem ser estudadas em áreas como portos, energia, digitalização, indústria ligeira, habitação, transportes, formação técnica e economia azul.

A Índia, por sua vez, constitui uma potência tecnológica, farmacêutica, digital e de serviços. Cabo Verde pode procurar cooperação em saúde, medicamentos, formação em tecnologias de informação, serviços digitais, ensino superior, inovação, startups, agricultura adaptada e capacitação técnica.

Os países do Golfo, como Emirados Árabes Unidos, Qatar e Arábia Saudita têm capacidade financeira, experiência em logística, aviação, turismo, energia, portos, fundos soberanos e grandes projetos de infraestrutura. Cabo Verde pode procurar parcerias nessas áreas, mas sempre com critério.

Vejam o caso dos BRICS. Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e os novos membros deste espaço representam uma tentativa de reorganização da influência económica e diplomática do chamado Sul Global. Cabo Verde não precisa de aderir a todos os discursos nem alinhar automaticamente com qualquer bloco. Mas precisa de entender que estes países estão a criar mecanismos próprios de cooperação, financiamento, comércio e influência.

A Rússia, neste contexto, deve ser analisada com particular prudência. Não podemos ignorar o contexto internacional atual, marcado pela guerra na Ucrânia, mas também não podemos ignorar o seu peso histórico e económico em áreas como energia, cereais, fertilizantes, defesa, ciência e geopolítica. Diversificar não é alinhar cegamente. Diversificar é compreender o mundo, aumentar margem de manobra e proteger o interesse nacional.

Cabo Verde deve procurar financiamento para energias renováveis, dessalinização, água, portos, digitalização, habitação, formação técnica, economia azul, saúde, transportes e indústria ligeira. A abertura ao outro lado do globo só fará sentido se produzir resultados concretos.

Mais formação para jovens cabo-verdianos. Mais oportunidades para empresas nacionais. Mais tecnologia. Mais acesso a financiamento. Mais capacidade produtiva. Mais segurança alimentar. Mais eficiência energética. Mais exportação de serviços. Mais integração nas cadeias regionais e globais de valor.

Caso contrário, será apenas diplomacia de fotografia.

Um país com mais parceiros, mais conhecimento, mais alternativas e mais capacidade de negociação é um país menos dependente. A verdadeira soberania, no século XXI está em saber escolher que portas abrir, em que condições e com que retorno para o país.

Cabo Verde não deve escolher entre Ocidente e Oriente. Deve escolher Cabo Verde.

Deve continuar a valorizar a Europa e os Estados Unidos. Deve aprofundar a relação com África. Deve transformar a ponte atlântica com o Brasil em estratégia económica. E deve olhar para a Ásia, para o Golfo, para a China, para a Índia e para os BRICS com inteligência, prudência e ambição.

Mas é preciso negociar bem. Qualquer parceria deve proteger a soberania, evitar endividamento excessivo, exigir transparência, garantir qualidade e procurar transferência real de conhecimento.´

Num mundo multipolar, quem não compreende os novos tabuleiros fica condenado a jogar sempre no tabuleiro dos outros.

O mundo está a reorganizar-se.

Quem não tiver visão, ficará dependente das decisões dos outros.

Cabo Verde é pequeno no tamanho, mas não pode ser pequeno na estratégia.

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