António Santos
A maior transformação económica de Cabo Verde poderá não nascer de uma nova indústria, de uma descoberta de recursos naturais ou de um aumento de impostos. Poderá começar com um simples bilhete de barco de 500 escudos.
Durante décadas, o debate sobre o transporte marítimo em Cabo Verde foi dominado por uma questão recorrente: como reduzir o preço das passagens entre ilhas? A pergunta, porém, sempre foi colocada da forma errada.
A verdadeira questão não é quanto custa uma passagem. A verdadeira questão é quanto custa ao país manter nove mercados separados por um mar que, em vez de unir, continua demasiadas vezes a funcionar como uma barreira económica.
Num arquipélago onde o turismo representa o principal motor da economia, onde a agricultura luta para chegar aos mercados e onde milhares de pequenas empresas enfrentam custos logísticos elevados, a mobilidade deixou de ser apenas um serviço público. Tornou-se um fator decisivo de competitividade.
Cada viagem que não acontece representa uma oportunidade perdida. Um agricultor que não consegue escoar a produção. Um pescador que vende abaixo do preço de mercado. Um estudante que adia uma formação. Um empresário que desiste de investir noutra ilha. Um turista que permanece confinado ao destino onde aterrou.
O impacto desta realidade é silencioso, mas profundo.
Enquanto os países continentais construíram autoestradas para integrar as suas economias, Cabo Verde continua dependente de um sistema marítimo que nem sempre responde às exigências de um país moderno. O resultado é um mercado fragmentado, custos elevados e um desenvolvimento desigual entre as ilhas.
É precisamente aqui que uma reforma estrutural do transporte marítimo pode alterar o rumo da economia nacional.
A introdução de uma tarifa social de 500 escudos, suportada por uma frota moderna de navios híbridos, não constitui apenas uma medida de apoio aos passageiros. Constitui uma política económica.
A lógica é simples. Quando o custo da mobilidade diminui, aumenta a circulação de pessoas, cresce o consumo, multiplicam-se os negócios e expandem-se os mercados.
Uma família que antes fazia uma viagem por ano poderá passar a viajar várias vezes. Um comerciante poderá abastecer-se noutra ilha com maior frequência. Um pequeno produtor encontrará novos clientes. Um operador turístico passará a vender circuitos entre várias ilhas em vez de limitar os visitantes a um único destino.
É este efeito multiplicador que transforma um investimento em transportes numa política de crescimento económico.
Os benefícios não terminam aí.
Uma rede marítima eficiente poderá abrir caminho a uma nova fase de industrialização do país. Pequenas unidades de transformação agroalimentar, fábricas de processamento de pescado, centros logísticos e empresas de distribuição ganharão acesso a um mercado nacional verdadeiramente integrado. Produzir deixará de significar vender apenas na ilha de origem.
Também o turismo poderá entrar numa nova dimensão.
Hoje, uma parte significativa dos visitantes internacionais permanece apenas numa ilha durante toda a estadia. Não por falta de interesse nas restantes, mas porque as ligações continuam a representar um custo e uma incerteza.
Com transportes regulares, modernos e acessíveis, Cabo Verde poderá afirmar-se como um destino arquipelágico integrado. O turista deixará de visitar apenas o Sal ou a Boa Vista. Descobrirá Santo Antão, São Vicente, Santiago, Fogo, Brava, Maio e São Nicolau. Permanecerá mais dias no país, gastará mais, distribuirá riqueza por mais comunidades.
O investimento necessário é significativo. A renovação da frota nacional poderá representar cerca de três por cento do Produto Interno Bruto. À primeira vista, parece um esforço elevado. Mas quando repartido por vários anos e apoiado por financiamento internacional concessionado, torna-se compatível com a dimensão da economia cabo-verdiana.
Mais importante ainda, poucos investimentos públicos apresentam um potencial de retorno tão abrangente.
Uma economia mais integrada gera mais empresas, mais emprego, maior produtividade e maiores receitas fiscais. O crescimento económico ajuda a financiar o próprio investimento.
É precisamente esta mudança de paradigma que merece atenção.
Durante muito tempo, o transporte marítimo foi tratado como uma despesa inevitável. Talvez tenha chegado o momento de o considerar aquilo que verdadeiramente é: uma infraestrutura estratégica de desenvolvimento.
As grandes transformações económicas raramente começam com decisões espetaculares. Começam, quase sempre, com escolhas inteligentes sobre onde investir.
Para um país arquipelágico, a resposta pode estar à vista de todos.
Não no céu.
Não debaixo da terra.
Mas no mar que liga as ilhas.
Porque, no final, o verdadeiro desafio de Cabo Verde nunca foi a distância entre as ilhas. Foi o custo dessa distância.
E reduzir esse custo poderá ser uma das decisões económicas mais importantes das próximas décadas.
21.07.2026
