A Política em Cabo Verde: Entre a Paixão Partidária e a Consciência Nacional

Guy Ramos

As eleições em Cabo Verde são sempre envoltas em emoções intensas. Mais do que um simples exercício democrático, a política no nosso país tornou-se, para muitos, uma questão quase religiosa. Existem até fidelidades partidárias tão profundas que, por vezes, lembram o fanatismo dos adeptos mais fervorosos dos clubes de futebol.

A euforia política, o extremismo, o pragmatismo, o fanatismo e até o chamado “credo político” acabam por dominar o debate nacional. E, no meio disso tudo, perde-se frequentemente aquilo que deveria ser o mais importante: a consciência política racional e o interesse colectivo da nação.

Infelizmente, em muitos casos, o voto deixa de ser uma escolha baseada em visão, competência, programas ou no futuro do país. Passa a ser influenciado por interesses pessoais, amizades, favores, oportunidades de emprego, protecção social ou simplesmente pela proximidade com figuras ligadas ao poder.

Numa sociedade onde o Estado continua a ser o maior empregador, a política ganha um peso enorme na sobrevivência económica de milhares de famílias. O problema é que esta dependência cria um ciclo vicioso difícil de quebrar.

O cidadão comum sente-se muitas vezes preso entre os dois partidos dominantes do arco do poder, como se Cabo Verde estivesse condenado a viver eternamente dividido entre “camisolas vermelhas e amarelas”. E, enquanto isso acontece, novos projectos políticos têm enormes dificuldades para crescer, não necessariamente por falta de ideias, mas porque enfrentam uma cultura política profundamente enraizada.

A política, infelizmente, também separa famílias, amigos e comunidades. Divide pessoas que deveriam estar unidas pelo bem comum. E isso revela que ainda temos um longo caminho a percorrer na construção de uma democracia mais madura.

Mas há uma solução: mudança de mentalidade. Contudo, essa mudança não acontece com um abrir e fechar de olhos. É um investimento a longo prazo, à medida que a democracia desce do berço em que está a ser criada.

Urgente é a erradicação da hipocrisia política mantida para governar através da manipulação das massas. 

É necessário criar uma mentalidade mais crítica e consciente, capaz de detectar atempadamente os falsos profetas e as suas mentiras propositadas, através de uma sociedade mais bem formada e preparada para escolher o rumo do seu futuro.

Uma democracia forte não se constrói apenas com eleições livres. Deve construir-se sobretudo com cidadãos conscientes, críticos e independentes, e não com uma máquina programada para produzir votos através de astúcias maquiavélicas, sem conseguir provar cientificamente a possibilidade de obter resultados positivos das promessas inerentes e necessárias às campanhas eleitorais.

O povo deve estar atento e consciente, para ter a capacidade de votar não por paixão cega, mas por responsabilidade nacional.

O futuro do nosso Cabo Verde não pode depender apenas de cores partidárias ou interesses individuais. 

Deve depender, sim, da capacidade colectiva de escolher aquilo que realmente beneficia o país, mesmo quando isso exige sair da zona de conforto político.

Talvez o maior desafio das próximas eleições não seja saber quem vai ganhar. Talvez seja importantíssimo perceber se o povo cabo-verdiano está finalmente preparado para colocar a nação acima do partido, para assim surgirem novas apostas neste grande desafio de retirar as ilhas da eterna cepa torta.

Porque, no fim das contas, governos passam, partidos extinguem-se, líderes políticos morrem e caem no esquecimento colectivo… mas Cabo Verde fica. 

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