Gilson Maocha
Em Cabo Verde fala-se muito de democracia, mas fala-se pouco do silêncio. E o maior silêncio político do país tem um nome: abstenção.
A cada eleição, milhares de cabo-verdianos escolhem não votar. Não porque não tenham consciência política. Não porque não saibam o que está em jogo. Mas porque deixaram de acreditar que o sistema político cabo-verdiano ainda os representa.
A abstenção tornou-se a verdadeira força política invisível de Cabo Verde.
E talvez seja precisamente por isso que quase ninguém queira falar dela seriamente.
Nas últimas décadas, os discursos políticos foram-se tornando repetitivos, distantes da realidade das pessoas comuns e cada vez mais centrados em máquinas partidárias, interesses internos e estratégias eleitorais. Enquanto isso, o cidadão comum passou a sentir-se usado apenas durante campanhas.
Depois do voto, regressa ao abandono.
Os números falam por si.
Nas eleições legislativas de 2021, a taxa de abstenção rondou os 42,2%, representando mais de 131 mil eleitores residentes que não foram às urnas.
Nas eleições autárquicas de 2024, Cabo Verde voltou a registar números extremamente preocupantes: cerca de 49,8% de abstenção nacional. Em termos práticos, quase metade do país escolheu não participar no processo eleitoral.
Em algumas ilhas e municípios, os números foram ainda mais graves.
A pergunta que a classe política insiste em evitar é simples:
Porquê?
Porque cresce a descrença?
Porque cresce o afastamento?
Porque cresce a sensação de que votar já não muda a vida das pessoas?
A resposta não está apenas na pobreza, no desemprego ou no custo de vida. Está também no desgaste moral da política cabo-verdiana.
O povo cansou-se de promessas recicladas.
Cansou-se de campanhas milionárias num país onde muitos não conseguem garantir dignidade básica.
Cansou-se de ver militância transformada em dependência.
Cansou-se de discursos de desenvolvimento enquanto bairros inteiros continuam esquecidos.
Cansou-se da política transformada em rivalidade permanente, onde partidos discutem entre si enquanto os problemas estruturais permanecem.
Mas no meio desse cenário também surgem vozes que acabam por representar aquilo que muitos cidadãos sentem faltar na política cabo-verdiana: independência, coragem e proximidade com o povo.
Ao longo do seu mandato parlamentar, a deputada Mircéa Delgado destacou-se precisamente por levantar questões incómodas dentro do próprio sistema político, questionando a relação entre disciplina partidária e representação popular.
Num dos seus discursos mais marcantes, Mircéa Delgado lançou uma reflexão que tocou directamente no centro da crise de confiança política em Cabo Verde:
“Será que os deputados são realmente livres para representar o povo e não o partido?”
A intervenção surgiu no contexto de uma reflexão mais ampla sobre o funcionamento do Parlamento cabo-verdiano e a autonomia dos deputados perante as estruturas partidárias. A deputada questionou se, passados mais de 35 anos de democracia, o modelo político actual ainda permite ao parlamentar ser um verdadeiro intermediário entre a sociedade e o Estado.
Ao defender a necessidade de maior autonomia parlamentar e até a possibilidade futura de um sistema eleitoral misto, com espaço para deputados independentes, Mircéa Delgado trouxe para o debate público um sentimento já presente em muitos cabo-verdianos: a percepção de que vários representantes acabam mais ligados às diretrizes partidárias do que às preocupações reais da população.
Essa postura diferenciada tornou-a, para muitos cidadãos, símbolo de uma política menos mecânica e mais humana.
Não por ser perfeita.
Não por estar acima de críticas.
Mas porque demonstrou algo cada vez mais raro: disposição para questionar o próprio sistema do qual faz parte.
Em diferentes momentos do seu mandato, Mircéa Delgado assumiu posições públicas consideradas independentes, inclusive em temas sensíveis ligados ao funcionamento institucional e à relação entre poderes. Um dos exemplos mais debatidos foi a sua posição sobre a imunidade parlamentar no caso do deputado Amadeu Oliveira, defendendo cautela perante excessos institucionais e alertando para os riscos de desvios de poder fora do controlo eleitoral directo.
Também nas discussões sobre regionalização, coesão territorial e municipalismo, insistiu na necessidade de aproximar o poder político das realidades concretas das ilhas e comunidades mais esquecidas do país.
E talvez seja exactamente isso que muitos cabo-verdianos procuram novamente:
Sentir que alguém fala em nome deles e não apenas em nome de estratégias partidárias.
Porque quando o eleitor vê representantes activos, presentes e dispostos a enfrentar temas incómodos, volta a existir ligação entre povo e instituições.
Quando isso desaparece, cresce o vazio político.
E cresce a abstenção.
A abstenção não nasce do desinteresse.
Nasce da frustração.
Nasce da perda de confiança.
Nasce da percepção de que muitos políticos aparecem apenas em tempo eleitoral, falando em nome do povo sem viver os problemas reais do povo.
Ao longo das minhas intervenções públicas, tenho defendido precisamente isso: o cidadão cabo-verdiano precisa recuperar consciência política sem cair em fanatismo partidário.
O voto não pode ser tratado como mercadoria.
A consciência não pode ser comprada.
E quando um partido tenta comprar consciências, demonstra exactamente porque talvez não mereça governar.
Também tenho defendido que o povo deve denunciar práticas de compra de votos e manipulação eleitoral. E mesmo quando a necessidade obriga alguém a aceitar dinheiro ou favores, o voto deve continuar livre na consciência de cada cidadão.
Porque democracia sem consciência popular torna-se apenas um ritual vazio.
A verdade é dura:
Muitos cabo-verdianos já não acreditam nos partidos.
Mas também ainda não acreditam suficientemente na força da participação cívica independente.
E é nesse vazio que cresce a “terra de ninguém”.
A abstenção.
Uma massa silenciosa de cidadãos que não se sente representada nem mobilizada.
O perigo disso é enorme.
Quando quase metade da população não participa, a democracia enfraquece. Não legalmente — porque as eleições continuam válidas — mas moralmente.
Um país onde a maioria emocionalmente se afasta da política começa lentamente a criar espaço para populismo, radicalização, compra de influência e degradação institucional.
A abstenção é um sintoma.
Não é a doença.
A doença é o afastamento entre política e realidade.
É a incapacidade de muitos líderes compreenderem que hoje o povo está mais atento, mais cansado e menos disposto a acreditar apenas em slogans.
Cabo Verde precisa urgentemente de reconstruir confiança pública.
Precisa de uma nova cultura política baseada em competência, responsabilidade, proximidade e verdade.
Precisa de cidadãos críticos, não seguidores cegos.
Precisa de debate, não idolatria partidária.
Precisa de políticos que saibam ouvir antes de falar.
Porque enquanto a política continuar a ignorar a mensagem escondida na abstenção, continuará a crescer a maior força invisível do país:
Os que já desistiram de acreditar.
E talvez o mais perigoso não seja quem vota errado.
Talvez o mais perigoso seja quem já deixou de acreditar que vale a pena votar.
