Um acidente rodoviário provocou a morte de cinco jovens e dois policiais, sábado passado, no Reino Unido. O trágico acontecimento, segundo a imprensa internacional, foi suscitado por uma “trend” (tendência) nas redes sociais, incluindo o TikTok, que desafia condutores a circularem na contramão e em alta velocidade.
No caso concreto, os cinco jovens estavam a colocar em prática essa “brincadeira” quando a viatura em que seguiam colidiu frontalmente com outra ocupada por dois agentes, numa estrada próxima a Middlesbrough, no nordeste da Inglaterra. Inconformado com os riscos associados a esse “desafio”, o Governo britânico pediu às redes sociais para removerem vídeos de condutores executando manobras perigosas nas estradas, especialmente os em que aparecem a trafegar na contramão.
A preocupação das autoridades aumentou após relatos sobre vídeos publicados nas redes sociais que mostram motoristas praticando manobras perigosas deliberadamente. Uma conta no TikTok – que se acredita pertencer a Makai Saddington, um dos jovens mortos na colisão – havia publicado vídeos que aparentemente mostravam direção perigosa. O perfil foi removido.
O ministro da Defesa britânico, Luke Pollard, afirmou à BBC que o governo já havia entrado em contato com as empresas de redes sociais para exigir a retirada de conteúdos que celebram comportamentos perigosos nas estradas. Segundo o ministro, as plataformas também sabem que usuários publicam determinados conteúdos para obter visualizações e, em alguns casos, dinheiro, criando um incentivo financeiro para a produção de vídeos considerados extremos.
O primeiro-ministro Andy Burnham classificou como “verdadeiramente repreensível” o comportamento de pessoas que compartilham imagens glorificando a direção perigosa. Uma porta-voz do governo britânico afirmou, por sua vez, que a “glorificação da direção perigosa para clipes e entretenimento é absolutamente vergonhosa”.
O TikTok afirmou, por seu lado, que suas políticas proíbem conteúdos capazes de provocar danos físicos significativos, incluindo direção perigosa. A plataforma disse que remove ativamente publicações e contas que violam suas regras. A empresa afirmou ainda que utiliza moderação humana, tecnologias de detecção e denúncias de usuários para retirar conteúdos que glorificam violência ou promovem crimes. Entre janeiro e março deste ano, segundo o TikTok, 99,1% dos conteúdos removidos por violar suas políticas sobre comportamento violento e criminoso foram retirados antes de serem denunciados.
A preocupação com vídeos de direção perigosa não se limita ao Reino Unido. Na Irlanda, cinco adolescentes morreram no início de agosto depois que um carro circulou na contramão de uma rodovia no condado de Kildare e bateu de frente com outro veículo. Quatro pessoas que estavam no segundo carro, entre elas um menino de sete anos, ficaram feridas. Após o acidente, um comitê parlamentar irlandês convidou o TikTok para discutir como a plataforma lida com conteúdos que “glorificam atividades ilegais”. A empresa recusou o convite, alegando que há uma investigação policial em andamento e uma apuração separada do órgão regulador de mídia da Irlanda.
Para Mary Aiken, professora de ciberpsicologia da Capital Technology University, nos Estados Unidos, a direção imprudente ganhou uma nova dimensão com as redes sociais. “O perigo se torna o conteúdo”, afirmou. Segundo Aiken, a gravação dessas ações pode criar nos motoristas uma sensação de distanciamento do risco real, enquanto curtidas, visualizações e seguidores funcionam como recompensas sociais imediatas.
C/Globo.com
