Sete meses após o envio de um contentor de encomenda dos Estados Unidos no navio Raquel S, os destinatários ainda não conseguiram levantaram as suas cargas, relatou ao Mindelinsite um dos lesados. Este alega que já contactou a Alfândega e recebeu a confirmação de que o contentor está em S. Vicente, mas diz que, diante de “tantas mentiras”, já perdeu a esperança de receber o carga. A agência de despacho Jô Santos admite que o contentor está no país, mas descarta a possibilidade do seu levantamento, enquanto não for efectuado o pagamento nos EUA.
Ao Mindelinsite, o referido cliente, que falou à nossa reportagem em representação dos demais lesados, explicou que há cerca de sete meses tentam, por todos os meios, levantar as suas cargas, sem sucesso. “Durante este tempo, já nos falaram muitas mentiras. Já batemos em muitas portas e, pelo que nos foi informado, a responsabilidade é do despachante oficial Jô Santos. Estivemos no despachante por diversas vezes, mas, a cada vez, nos apresentam uma desculpa,” desabafa.
Inicialmente, explica , justificaram a demora dizendo que o barco teve problemas em Marrocos. Mas, ao dirigirem-se à Alfândega do Mindelo, foram informados que contentor está em S. Vicente e que o processo da sua liberação foi suspenso por falta de pagamento. “Forneceram-nos inclusive o número do contentor, mas não sabemos de quem é a responsabilidade. Aqui nos dizem que o contentor não foi pago na origem e, nos EUA, passam a responsabilidade para S. Vicente. Nós, os clientes, estamos no meio.”
Para este interlocutor do Mindelinsite, está-se a faltar respeito e boa-fé para aos destinatários das cargas em todo este processo porque criaram expectativa. “Deveriam falar a verdade aos clientes, que pagaram por um serviço. Da última vez que estivemos com o despachante oficial, este nos garantiu que estava a fazer todo o possível para que o processo fosse concluído até final do ano. E já estamos em janeiro.”
A revolta destes utentes é ainda maior porque, afirma a citada fonte, alguns dos bidões contêm produtos alimentares, que já podem ter ultrapassado o prazo de validade, por exemplo, ou simplesmente deterioraram. “Neste momento, toda esta nossa luta pode ser desnecessária porque podemos ir pagar por produtos que já não podem ser consumidos. Ficaremos então duplamente penalizados.”
Contentor retido por falta de pagamento
Questionado se a carga era para consumo ou para venda, esta fonte garante que são encomendas enviadas por familiares, que poderiam ajudar muitas pessoas após a passagem da tempestade Erin por São Vicente. São, pontua, gêneros alimentícios, roupas e calçados, na sua grande maioria. “Temos estado em contacto com outros clientes lesados. O nosso recreio é ainda maior porque, embora não tenha nos dito directamente, a Alfândega deixou em aberto a possibilidade de colocar o contentor para hasta pública e todos ficaremos prejudicados”, sublinha, destacando o caso de uma mulher que tem seis bidões no contentor, que viajou de Santiago para tentar o despacho, mas retornou à sua ilha.
Confrontado enquanto um dos visados, Ivan dos Santos, em nome do despachante Jô Santos, explicou que todo este imbróglio resulta do facto de o frete do contentor não ter sido pago nos EUA. “Enquanto despachante, estamos apenas a prestar um serviço, mas ainda a carga não está sob a nossa responsabilidade. Como transitário, somos responsáveis por esta somente após a entrega do UBL, que é o termo de responsabilidade do contentor. O contentor não foi pago nos Estados Unidos e, por isso, o armador não fornece o UBL. É uma forma de proteger e salvaguardar o valor que este tem para receber.”
Para “desatar” este nó, Ivan dos Santos afirma que os lesados devem contactar o dono do contentor para que emita o documento. “Estamos na mesma situação dos clientes, ou seja, não temos nenhuma informação do dono do contentor. Fomos contactados por este num primeiro contentor e prestamos um serviço, que decorreu sem sobressaltos. Na sequência, voltaram a solicitar os nossos préstimos e aceitamos. Mas, enquanto não tivermos o UBL, perante a Alfandega e a Enapor, o contentor não é nossa responsabilidade.”
Este transitário garante que, por sua iniciativa, entrou em contacto com o responsável pelo contentor nos EUA, que optou por “lavar as suas mãos”. Aliás, afirma, a própria agência Jô Santos está também a ser penalizada porquanto pagou um valor para obter o documento. “Estamos também no prejuízo porque investimos na aquisição do UBL e este não nos foi fornecido”, acrescenta.
Sobre a preocupação dos clientes relativa a deterioração das cargas, o transitário confirma possíveis perdas, tendo em conta o curto prazo de validade dos produtos importados dos EUA. “Fomos contactados por uma mulher com seis bidões, outra com três e um rapaz com uma caixa de madeira. Dificilmente um contentor teria carga de apenas três clientes. Normalmente não trabalhamos com os EUA. Estamos a prestar um serviço, ou seja, a ajudar alguns clientes a levantarem as suas cargas. Nada mais que isso.”
Ivan dos Santos reconhece que os clientes investiram em produtos, por isso devem fazer pressão nos EUA para que possam receber as suas cargas, ou seja, diretamente no fornecedor que confiaram as suas encomendas.
