Mário Pop: O regresso de um cantor-ícone do “Voz de Cabo Verde” e “Les Flammes”

Para a juventude cabo-verdiana, Mário Monteiro Ramos é um ilustre desconhecido, mas esse cantor ainda representa um ícone para a geração dos anos ‘70, seguidores dos famosos grupos Voz de Cabo Verde e Les Flammes, este último formado na França por cabo-verdianos e músicos de outras nacionalidades. Conhecido no mundo artístico por Mário Pop – devido ao seu cabelo “black power”, as calças “boca d’sino”, os sapatos de salto alto e o estilo de música que gostava de cantar -, conquistou uma legião de fãs em Cabo Verde quando lançou o seu primeiro trabalho discográfico com suporte do conjunto Voz de Cabo Verde. Um disco rotação 45 gravado com selo da Editora Morabeza e que continha apenas duas músicas: “You Looking Good” e “Yesterday”, dos Beatles, que o catapultou para o estrelado em Cabo Verde e na emigração.

“Yesterday foi a música que me deu projecção. Foi sem dúvida a canção mais famosa que gravei”, reconhece Mário Pop, que já havia actuado noutras paragens, enquanto “embarcadista d’vapor”, inclusive no Japão. Como recorda, tudo aconteceu num ápice. Numa das noites que saiu para se divertir na Holanda, esse então marinheiro aproveitou um show dos Voz de Cabo Verde na discoteca La Bonanza e pediu ao saxofonista Luís Morais para cantar uma música. Interpretou exactamente “Yesterday” e “You looking good”, as suas duas canções predilectas na altura. A presença em palco e a voz sonante desse fã de Wilson Pickett, Tom Jones e James Brown impressionou de tal forma que foi logo convidado para integrar o grupo numa digressão pela França. “Aceitei de bom agrado, não era todos os dias que recebia um convite dessa natureza”, conta Mário Pop, que cria uma relação próxima com os músicos. De regresso à Holanda, grava o famoso disco de duas faixas. Mais tarde volta a entrar em estúdio com os elementos do Voz de Cabo Verde e dá voz à coladeira “Pitrol na Europa já vrá or”, da autoria de Morgadim, e “Amada Amante”, de Roberto Carlos.

Mário Pop no Baile d’Emigrante, em S. Vicente

Surge, entretanto, uma oportunidade para o mais famoso agrupamento cabo-verdiano fazer uma digressão pelas ex-colónias portuguesas Guiné-Bissau, Angola e Cabo Verde. Temendo ser apanhado e obrigado a fazer o exercício militar, Mário Pop prefere ficar em Roterdão. “Ouvia tanta coisa do regime que dava medo. Eu não tinha nada a ver com a política e sequer cantava músicas revolucionárias. Luís Morais disse-me que não haveria problemas, pode até ser que ele tinha razão, mas preferi não arriscar”, recorda o cantor.

Com o regresso da tournée à África colonial portuguesa, segundo um apontamento de Djunga d’Biluca, o conjunto é dissolvido por razões várias. Morgadim e Toi d’Bibia fixam-se em Paris, onde já viviam as respectivas esposas, Djosinha vai para os Estados Unidos, enquanto que Luís Morais, Frank Cavaquim e Chico Serra regressam a Cabo Verde.

Para Mário Pop surgia, entretanto, uma nova luz na sua carreira. Nascia o “Les Flammes” na França, integrado pelos músicos cabo-verdianos Morgadim e Toi d’Bibia, um trio português e um argelino. Enquanto cantor, gravou seis discos com o grupo e animou um grande número de bailes na Europa.

No auge da sua carreira, nunca Mário Pop actuou em Cabo Verde. Esse sonho só foi realizado em Agosto deste ano, durante as suas férias na cidade do Mindelo. A convite do produtor Rachel Silva, voltou a pisar os palcos aos 70 anos de idade. Apesar da idade, cantou alguns dos seus sucessos na 5ª edição do “Baile d’Emigrante” e ressuscitou nos presentes velhas lembranças. “Pelos vistos as pessoas gostaram. Muitas disseram que ainda a voz está lá, mas é preciso um pouco de treino”, diz Mário Pop, a brincar.

O certo é que Mário Pop levou vários presentes a viajar para os anos setenta, quando ainda estava no auge da juventude. Agora na sua reforma, tenciona regressar mais vezes a Cabo Verde e fazer um show na Rua de Lisboa para que todos o possam ver, sem pagar nada.

Kim-Zé Brito

Sair da versão mobile