Livro “Iniciativa Outros Bairros” seleccionado para Prémio Publicações da Bienal Interamericana

O livro “Iniciativa Outros Bairros”, lançado em março no Mindelo, durante o ISOB – International Seminar on Outros Bairros, foi selecionado para o prémio Publicações da Bienal Interamericana de Arquitetura e Urbanismo, que decorrerá, em Novembro de 2026, em Brasília. A obra, refira-se,r eúne experiências de São Vicente para repensar a urbanização em Cabo Verde, segundo os promotores. 

Entre as 150 propostas a concurso o livro integra um grupo de 25 selecionados, do qual sairá o grupo de finalistas que será anunciado em Setembro de 2026, informa o arquiteto Nuno Flores em comunicado, onde explica que a obra, que retrata um urbanismo invisível relacional e comprometido com as lutas sociais de Alto de Bomba, nasce da inexplicada interrupção do projecto de reabilitação e urbanização desenvolvida neste bairro de S. Vicente. 

“A obra nasce a partir da impossibilidade de continuar o trabalho com as pessoas e transforma esse impedimento em relações sonhadoras como um contributo para futuras iniciativas de urbanismo invisível, relacional e comprometido com as lutas sociais de cada lugar”, refere, indicando que o registo configura uma visão global sobre tudo que foi realizado e aponta para possíveis formas de atuar dentro do atual processo de urbanização.

Para Flores, co-autor do livro Iniciativa Outros Bairros, a obra constitui um contributo para compreender melhor os processos de urbanização em zonas autoproduzidas em Cabo Verde. Resulta de um trabalho desenvolvido entre 2019 e 2022 em três áreas de produção informal – Covada de Bruxa, Fernando Pó e Alto Bomba, na ilha de São Vicente, com uma abordagem centrada na escuta das comunidades. “Decidimos perceber como as pessoas envolvidas – desde técnicos a moradores – olharam para esta experiência e que reflexões resultaram desse trabalho colectivo”, frisa, referindo que, apesar do projecto ter sido descontinuado, houve intervenções físicas e era importante registar e analisar o processo vivido.

A obra reúne entrevistas, testemunhos e textos académicos, procurando captar diferentes perspectivas sobre a reabilitação urbana em contextos informais. Para Nuno Flores, o principal contributo do livro passa por propor uma mudança de paradigma na forma de intervir nas cidades. “Tradicionalmente pensa-se a cidade a partir de projectos previamente definidos. Nestes territórios, é fundamental compreender, primeiro, como eles se produzem e evoluem, antes de actuar”, sublinhou, em declarações à Inforpress.

Defende que Cabo Verde, à semelhança do resto do mundo, enfrenta um processo acelerado de urbanização, pelo que é “urgente abandonar rótulos como ‘informal’ ou ‘clandestino’” e apostar em políticas públicas baseadas no conhecimento real dos territórios. E o livro poderá ajudar a melhorar a intervenção urbana no país, ao incentivar uma abordagem participativa. “Trata-se de construir decisões passo a passo, com base na compreensão de cada contexto e na escuta das pessoas que vivem nesses espaços”, frisou. Questionado sobre a possibilidade de o conteúdo da obra contribuir para prevenir desastres naturais, como os associados a chuvas intensas, o arquitecto admitiu que o conhecimento gerado pode ajudar a reduzir vulnerabilidades. 

Ainda assim, alertou que fenómenos extremos tendem a tornar-se mais frequentes, exigindo uma melhor preparação ao nível das infra-estruturas, sobretudo, em zonas sensíveis como ribeiras. Apesar de o estudo incidir sobre São Vicente, Nuno Flores advertiu contra a replicação automática de soluções noutros contextos, como no município da Praia. “O método – escutar e compreender antes de intervir – pode ser aplicado em qualquer lugar, mas copiar soluções sem considerar as especificidades locais é arriscado”, disse.

Relativamente à vulnerabilidade dos bairros auto-produzidos, reconheceu a existência de fragilidades, sobretudo pela ausência de infra-estruturas adequadas. Mas rejeitou abordagens que passem pela eliminação desses espaços. “Há ali potencial social e cultural. O caminho deve ser investir nesses territórios para garantir qualidade de vida equivalente a outras zonas”.

Para o arquitecto, é essencial repensar o imaginário urbano e adaptá-lo às realidades locais, promovendo intervenções que valorizem as práticas existentes e reforcem a segurança habitacional e urbanística. Em suma, o livro apresenta-se como um instrumento de reflexão sobre a urbanização no país, propondo soluções mais inclusivas e sustentáveis para o desenvolvimento.

 

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