Diretor criativo de “Estrela de Rainha” diz que documentário mostra lado mais íntimo das rainhas de bateria do Carnaval de S. Vicente

O documentário “Rainha de Estrela”, apresentado ontem na cidade do Mindelo para fazedores do Carnaval, familiares, convidados e comunicação social, mostra o lado mais íntimo das rainhas de bateria, o seu dia-a-dia, os desafios, medos e relacionamentos familiares. Para o director criativo, Éder Xavier, a ideia foi mostrar o lado “humano” dessas mulheres na avenida, mas que têm uma história. “São pessoas com mágoas e com dores, mães solteiras ou filhas que crescem sem pai, que encontram no carnaval o seu tubo de escape.”

Para Éder Xavier, a escolha deste ângulo de uma abordagem mais intimista não foi ao acaso. Mostra um conteúdo que não se vende, mas que inspira. “O documentário mostra o lado humano, o caráter, a identidade e é sobretudo o que nos representa enquanto povo. Cabo Verde tem uma história muito parecida com o que vimos aqui. Somos uma sociedade monoparental, as mulheres estão à frente de quase tudo e, no que não estão, deveriam estar. Temos mães solteiras, filhas que cresceram sem pai, pessoas que vivem a história numa perspectiva de ‘preciso de força’, ‘preciso de resiliência’ mas ninguém lhes pergunta ‘como você acordou hoje?”, descreve este produtor. 

Para fazer este documentário, explica, fez uma pesquisa que durou quase três meses, antes de decidir por este caminho. “Encontramos histórias comuns, que são uma espécie de amostra estatística daquilo que é nosso país. As protagonistas são pessoas que têm as suas mágoas e dores, que começam nas famílias, onde sempre falta alguma coisa, sendo na maioria das vezes, o pai. Mas estas rainhas de bateria conseguem encontrar no Carnaval, mais precisamente nos ensaios e na avenida, uma força, ou melhor um suporte, que muita gente não têm. Não sou um especialista, mas facilmente se percebe que muitas pessoas adoecem ou chegam a um nível de depressão porque não têm um escape”, enfatiza.  

Para a maioria das pessoas, diz Éder Xavier, as rainhas de baterias são jovens sem grandes ambições ou esperança, quando na verdade sabem o que querem, têm postura académica, objectivos  e família constituída. “São mulheres que escolheram inspirar e colocar os mindelense a brigar por elas, mesmo sem conhecerem o seu intimo”, constatou. Questionado se este é um projecto acabado, Xavier  garante que a Unitel T + pretende continuar a produzir conteúdos onde mostram Cabo Verde, seja numa perspectiva folclórica ou documental. “Temos vários símbolos culturais no país que precisam ser documentados e sabemos que as empresas de produção audiovisual não têm capacidade financeira e técnica para fazer este trabalho. A Unitel, ao invés de estar a financiar projectos, assumiu dar o seu contributo. E, para o Carnaval, há mais iniciativa.”  

Das quatro rainhas de bateria que participaram no projecto, apenas Jéssica Lopes (Samba Tropical) e Andrea Gomes estiveram presentes. Ambas relataram as dificuldades que enfrentaram para fazer este documentário, sobretudo por causa da timidez.“Foi difícil por causa da minha timidez, mas aceitei o desafio para mostrar o trás da rainha, que não é só ir para os ensaios e desfilar no carnaval. Temos a nossa vida, a nossa rotina e trabalhos. Por isso, de vez em quando as pessoas deveriam ter alguma empatia porque é mais uma coisa que temos de adicionar à nossa rotina diária. Quis mostrar também que não somos um “pedaço de carne” na rua de Lisboa, mas pessoas com histórias, vivências, medos e sentimento, e temos o nosso lugar de acolhimento”, frisou Jéssica

Já para Brodjinha, o desafio foi mostrar que a imagem que mostra no carnaval é  oposta à sua realidade. “As pessoas me vêem no carnaval como uma pessoa simpática e expansiva, mas sou muito tímida na hora de falar. Entrei neste projecto de braços abertos e insisti na participação do meu grupo porque, quando fazemos algo juntos, fica melhor. Mas não foi fácil porque tinha que falar.

Do lado do Cruzeiros do Norte, Fatinha do Rosário destacou a importância de realizar um documentário do género, sobretudo tendo em conta a relevância do cargo de Rainha de Bateria no Carnaval de São Vicente. “Foi muito importante fazer um documentário. O cargo de rainha de bateria é o mais esperado e todos somos júris. Mostraram aqui a sua vida rainha ao lado do seu trabalho como rainha de bateria. Foi bom para apreenderem que são pessoas com família, responsabilidade por detrás deste cargo. Foi emocionante, falaram muito bem. O documentário como um todo foi muito bem concebido.”

A gestora Unitel T+ Região Norte, Sara Rodrigues, agradeceu a presença dos fazedores do Carnaval, que se reuniram para celebrar o lado humano do Carnaval de São Vicente, projeto que, afirmou, nasceu com o propósito de desviar o olhar para além do brilho da avenida e elevar as mulheres que carregam com coragem e dedicação a almas dos grupos. 

A estreia oficial do documentário está marcada para esta sexta-feira, no Auditório do FAED, mediante levantamento de bilhetes nas lojas da Unitel T+.  

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