Os grupos Cruzeiros do Norte e Flores do Mindelo presentearam o público com desfiles emocionantes, que resgatam memórias e revisitam a história São Vicente através dos enredos “Histórias douradas em pedras negras” e “Nô valorizá e preservá nôs cultura local, nôs memória, nôs património”. Nas sete ruas de morada, o que se viu foi uma reconstituição dos tempos áureos do carvão na baía do Porto Grande, dos hábitos e costumes trazidos por ingleses, mas também homenagens à personalidades que deixaram a sua marca na ilha.
Foi mais um grande episódio do Carnaval em São Vicente, apesar da participação de apenas dois grupos oficiais. Mas estes se empenharam e apresentaram um produto de alta qualidade, com carros alegóricos bem concebidos, músicas empolgantes e muitos figurantes. E o público soube acolher, aplaudir e abraçar ambos grémios.
Para Jailson Juff, o sentimento é de satisfação depois de tantas dificuldades. A título de exemplo, explica, ficaram aquém do orçamento previsto de 13 mil contos – conseguiram cerca de 10 mil contos – , por isso ainda espera por apoios tardios para cobrir despesas, mas nada que afetasse a qualidade almejada. “Passei o dia a chorar, sobretudo depois que vi os nossos andores concluídos e visitei os ateliês e as costureiras. Senti uma emoção enorme porque sabia que estávamos preparados para oferecer este espetáculo à São Vicente. Esta ilha merecia depois de um ano tão difícil”, explicou.
O grupo, segundo Juff, conseguiu concretizar boa parte do seu projeto, mas reconheceu que há coisas que precisam ser melhoradas. Apresentou-se com 1.300 foliões, quatro carros alegóricos, dois tripés e um trio comandado por Edson Oliveira. “Desde o primeiro ano que coloquei o grupo na rua disse que precisamos de um estaleiro e que o subsídio seja disponibilizado mais cedo. Mas temos de colocar S. Vicente em primeiro lugar, tentar ultrapassar estas dificuldades e dar à nossa população esta alegria.”
Este sentimento era partilhado pelo carnavalesco Nóia Morais, mesmo sem ter executado todo o seu projecto. “Infelizmente, nunca conseguimos realizar os nossos projectos na totalidade. Acredito que ficamos em torno dos 70%, o que já é muito bom. Trouxemos um tripé na comissão de frente e uma oficina mecânica. O nosso desfile, como um todo, fala da baía do Porto Grande do tempo do carvão e como este contribui para o desenvolvimento de S. Vicente e formou a personalidade do mindelense, que é diferente de a das outras ilhas.”
Noia exemplifica com alguns marcos ingleses que diferenciam S. Vicente das demais ilhas, como as expressões linguísticas, a forma de falar e os costumes, que estão presentes em todos os andores. “O primeiro andor é uma mina de carvão, que simboliza o poderio económico que este trouxe para a revolução industrial para a Europa e o mundo, e propiciou a expansão territorial dos ingleses à S. Vicente, a última ilha do arquipélago a ser habitada. O segundo mostra o acordo entre os ingleses e a coroa portuguesa e o pedido de autorização do Rei Momo para a implementação do Carnaval em S. Vicente.”
O terceiro carro, prossegue este carnavalesco, simboliza um barco à carvão, o poder de máquinas a vapor e a descarga, que resulta numa economia que alimentou a ilha por anos; o quarto representa Mindelo, uma cidade cosmopolita ainda com marcas visíveis da presença inglesa em hábitos como o “Chá da Tarde”, expressões importadas – boy, friend e cake (bolo) – e nos desportos golfe, tênis, cricket e futebol.
Expectativa alta do Flores do Mindelo
Da parte do Flores do Mindelo, a presidente Ana Ramos exalava alegria porque o grupo apresentou um desfile enorme, segundo as suas palavas. “Fizemos uma boa apresentação. Foi um grande esforço, mas este ano superamos e estou na expectativa de que poderemos ganhar alguma coisa”, declarou ao Mindelinsite. A agremiação apresentou cerca de 800 foliões e poderiam ser mais, tendo em conta que, por causa do estado do tempo, alguns ficaram doentes nos últimos dias.
“Estou satisfeita com o trabalho que apresentamos ao público”, reforçou esta responsável, que assinou o enredo junto com o artista plástico Bitú Alves. Este criativo sempre foi parco em palavras, mas garantiu que o sentimento é de dever cumprido. “O meu sentimento é de dever cumprido. Executamos a maior parte do enredo e estamos todos de parabéns. Os nossos três andores e o tripé falam da nossa cultura, de costumes que estão a cair no esquecimento. Quisemos relembrar outros tempos e os nossos escritores”.
O arranque dos desfiles registou um ligeiro atraso, mas nada que tirasse o brilho deste Carnaval. A noite cultural continuou com uma festa na Rua de Lisboa com os Calema e Banda Folia, com Yackass, Edson Oliveira, Gai Dias, Anísio Rodrigues e Constantino Cardoso. Por pouco esta actuação não acontecia por causa de mais um apagão, o terceiro consecutivo por estes dias de festa na ilha de São Vicente.
