Cruzeiros do Norte conquista segundo título consecutivo: Troféu “ornamentado” com “pedras negras”

O Cruzeiros do Norte colocou na prateleira o segundo título consecutivo de campeão do Carnaval do Mindelo, troféu fruto de uma história construída com “pedras negras” e dedicada ao povo de São Vicente. Confirmando o favoritismo num concurso oficial disputado apenas com Flores do Mindelo, os campeões de Cruz João Évora açambarcaram a maioria dos prémios em disputa: Carnavalesco, Carro Alegórico, Bateria, Rainha da Bateria, Mestre-sala e Porta-bandeira, Segunda-dama, Primeiro Cavaleiro e Rainha do Carnaval. Coube a Flores do Mindelo as melhores pontuações para Música do Carnaval, Primeira-dama e Rei do Carnaval. Mesmo assim, Jailson Juff só respirou de alívio quando foi anunciado o grupo vencedor.

“Este foi um Carnaval especial, por isso estou feliz por termos alcançado o nosso objectivo. Quero aproveitar este momento para dedicar este troféu ao povo de S. Vicente porque trabalhamos para dar um momento de alegria à nossa gente, que foi martirizada pela tempestade de 11 de agosto”, declarou o presidente do Cruzeiros do Norte. Perguntado se a conquista do título foi mais fácil porque a concorrência foi de apenas um grupo, Jailson Juff respondeu negativamente. Salientou que foi um concurso mais difícil porque o grupo enfrentou muita concorrência no terreno.

“Houve adversários que não estiveram na avenida, mas estiveram no terreno dificultando o nosso grande trabalho”, afirmou o dirigente, sem especificar quem andou a criar barreiras ao desfile do Cruzeiros do Norte. Deixou certo, no entanto, que o Carnaval precisava sair à rua este ano tendo em conta os momentos difíceis vividos pela sociedade mindelense em agosto de 2025.

Caído o pano sobre a edição 2026, o Cruzeiros do Norte vai começar logo hoje a preparar o enredo do próximo ano. Segundo Juff vai reunir-se de imediato com o premiado carnavalesco Nóia para iniciarem o processo. E, tendo em conta um post do grupo publicado ontem à noite, o tema já está identificado.

Neste sétimo título da sua história e segundo consecutivo, o Cruzeiros perdeu o prémio de Melhor Música para o compositor Gai Dias, do grupo Flores do Mindelo. Neste embate a dois, o caminho para a vitória começou com a distinção do artista Nóia Morais como Melhor Carnavalesco. Parco nas declarações à imprensa, este criativo salientou apenas que se limita a fazer a sua parte, a cumprir o seu dever por São Vicente, sua ilha natal. “Houve muita onda negativa, mas felizmente que conseguimos superar tudo. É apenas isto que tenho a dizer!”

A distinção seguinte foi a de Melhor Carro Alegórico, intitulado Cidade Cosmopolita, coincidentemente o andor que transportou a vencedora do prémio de Rainha do Carnaval, a jovem Lorilda Morais. A batucada do Cruzeiros foi coroada pela quarta vez consecutiva, estando na ribalta desde 2023, ano em que partilhou o título com a bateria de Monte Sossego. Desde então tem mantido a hegemonia.

Para o maestro Nuno Gonçalves, este reconhecimento é fruto de uma longa caminhada e que este ano enfrentou situações mais desafiadoras. Primeiro porque perderam vários instrumentos com a tempestade Erin, em agosto, e logo em outubro o local de armazenamento dos instrumentos foi assaltado. “Recompor a bateria não foi nada fácil”, salienta Nuno Gonçalves, para quem teve a honra de disputar o título com Helton, um talentoso maestro. “Ele tem feito um excelente trabalho. Se ele tivesse ganho, o premio estaria bem entregue. Alias, faria questão de ser eu a entregar-lhe o trofeu!”

Cruzeiros do Norte passou a ostentar as faixas de Mestre-sala e Porta-bandeira, conquistadas por Kady Fernandes e Laurinda dos Santos – dupla que criou uma forte harmonia durante os ensaios. “Acho que sem Laurinda não iria conseguir atingir este objectivo. Ficamos muito unidos”, confessou o jovem, que dedicou o prémio aos apoiantes, em particular à sua mãe, mas também às pessoas que não acreditaram no seu potencial.

A coroa de Rainha da Bateria, um dos títulos mais ansiados do Carnaval do Mindelo, foi este ano conquistada pela passista Ilsevânia Alves. A personal trainer era dada como favorita e explodiu de emoção após o anúncio. “É um sentimento muito agradável – emocionante. Estou contente por mim, pelo meu grupo e por ver o nosso trabalho reconhecido”, disse Ilse, que dedicou o título ás amigas Nely Tavares e Patrícia Brito pelo suporte dado durante os preparativos.

O grupo Flores do Mindelo arrecadou três prémios individuais: Melhor Música do Carnaval 2026, atribuído ao compositor/intérprete Gai Dias, autor do samba-enredo “Matá Sodade”; Primeira-dama (Heloísa David) e Rei do Carnaval, distinção atribuída a Nelson Soares. Receber o ceptro de reinado foi um momento emocionante para este carnavalesco, que desenhou o traje, intitulado Chama do Candeeiro e da Resiliência, e acabou por vesti-lo, na falta de um candidato. Apesar da satisfação, confessa que foi desgastante desdobrar-se como dirigente, trabalhador do estaleiro e ainda confecionar o traje de Rei.

O palco da Rua de Lisboa serviu para o anúncio e entrega dos troféus do Prémio Kakoy, atribuídos pelo Centro de Artesanato, Artes e Desing. Na categoria de grupo, o grupo Jovens Unidos de Espia saiu vencedor com o tema “Bombeiros”, enquanto nas propostas individuais o primeiro lugar foi entregue aos autores da animação “Um Grito do Oceano”. Por seu lado, a Câmara de S. Vicente distinguiu os grupos de mandinga de Fernando Pó, Espia, Ribeira Bote e Fonte Filipe, bem como aos Professores, que desfilaram na noite de segunda-feira.

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