Defesa do Monumento à  Democracia rende críticas contundentes aos ex-ministros Paulo Veiga e A. Vicente

A defesa da construção do Monumento à Democracia e Liberdade, como um ato de construir memória e celebrar valores, está a render críticas contundentes aos ex-ministros e atuais deputados do MpD, Paulo Veiga e Abraão Vicente. Naquilo que parece ser uma estratégia para justificar o investimento, numa altura em que o Governo está a procurar apoios para ajudar as famílias afetadas pelas chuvas de 11 de agosto, os discursos de outras figuras relevantes do sistema MpD, que decidiram entrar nesta “briga”, estão a ser desmontados por pessoas bem posicionadas, que pedem ao Executivo para ouvir a voz do povo, tal como dita a democracia. 

Em uma publicação nas suas redes sociais, o eleito nacional pelo círculo eleitoral da Praia, Paulo Veiga, afirma que “há quem veja apenas o custo, assim como há quem veja ideologia em tudo e que continue a sonhar com uma visão da História que a Democracia libertou. No entanto, diz, o que está em causa vai muito além do dinheiro. Trata-se de celebrar a nossa história, a nossa liberdade e a nossa democracia. “Cabo Verde conquistou o direito de decidir, participar e viver em democracia com esforço e sacrifício. E celebrar isso é tão importante quanto lembrar as dificuldades do passado.” 

Entende o deputado que um monumento que simboliza esses valores não é um luxo, é memória, inspiração e identidade para as gerações que irão continuar a liderar Cabo Verde. E mais: povos de todo o mundo já ergueram símbolos nos momentos mais difíceis, e não quando tudo era fácil. “É isso que queremos para Cabo Verde: um marco que nos lembre de quem somos, do que já conquistamos e do futuro que podemos construir juntos”, sublinha, reforçando que liberdade e democracia não são objetos, nem se vendem. “Vivem naquilo que somos e no que deixamos para quem vem depois. E acreditar nisso é o primeiro passo para transformar uma ideia em legado”, insiste. 

Mais incisivo, o ex-ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, alega que nos debates em torno do Monumento à Liberdade e da reconstrução de São Vicente após as chuvas, o que sobressai não é apenas a divergência de opiniões, mas a mentalidade de pobreza que ainda marca o nosso pensamento coletivo. “Em vez de cultivarmos uma visão estratégica para multiplicar recursos, criar novas fontes de investimento e expandir a base de riqueza, caímos no instinto de dividir ´o pouco´ que já existe. Como se só esse pouco existe. Esta lógica reducionista, herança de velhos paradigmas ideológicos, infiltra-se mesmo entre aqueles que afirmam professar valores liberais”, critica.

Para Vicente, a  questão não é escolher entre monumentos e obras urgentes, mas entre duas formas de pensar o futuro: a lógica da escassez ou a lógica da criação de valor. “Enquanto ficarmos presos ao cálculo de repartir, continuaremos a gerir a pobreza em vez de superá-la. O verdadeiro desafio é estrutural: pensar em grande, investir em grande, mobilizar capital e imaginação para gerar excedentes que nos permitam cuidar do património, das cidades e das pessoas”, perspectiva, sinalizando que o futuro de C. Verde não se constrói com a aritmética da divisão, mas com a ousadia da multiplicação.

Mas, uma breve leitura dos comentários, mostra que nem um nem outro conseguiu convencer as vozes dissonantes com os seus argumentos. E são às centenas. Por exemplo, o arquitecto César Freitas questiona se está-se perante democracia ou ditadura e pede para ouvirem o povo. Já Marco Silva revela que os 150 mil contos – sem IVA – em chapa e LED numa rotunda constroem dois Centros Nacionais de Arte e Design, e ainda sobra, e sugere aos governantes para optarem por esta via. Para o professor Valódia Monteiro, este discurso não passa e não há-de passar. “Ouçam as pessoas, a não ser que queiram manter este contra-senso: construir um monumento à Liberdade e à Democracia quando o próprio povo não o quer ( sabendo que, pelo custo e pelo momento, é totalmente desajustado)”, desafia.

Outros, caso do sindicalista Nelson Cardoso, convidam os deputados a praticarem a democracia interna, sugestão aliás de um dos pares do MpD. “Ninguém é contra qualquer construção simbólica. Questiona-se o timing, a oportunidade face ao contexto atual. Deixem de manipulação e oportunismo, do fanatismo de muitos cabo-verdianos infelizmente. A dita construção ditará a vossa derrota e de forma expressiva, do tamanho da vossa arrogância e insensibilidade manifestada neste momento”.

As reflexões e contestações seguem o mesmo tom, com outros a elencar mais prioridades, como Carolina de Freitas, que pede para esquecerem a calamidade em S. Vicente e falar nos transportes. “Esse dinheiro dava para comprar avião? Barco? Mais que um?”, interroga, enquanto Luciano Monteiro cita a “maldade” por detrás da realização deste investimento, num país pedindo esmola no mundo inteiro.

Há ainda quem lembra que foi este povo dotado desta “mentalidade de pobreza” que elegeu este governo. “Devemos sempre tentar entender as divergentes opiniões antes de fazer críticas, sejam elas construtivas ou não. Afinal, quando o povo elege um determinado partido para governar tem visão e um pensamento futurista, segundo os políticos que defendem as mesmas cores.”

Em meio às dezenas de opiniões, sobressaem alguns a tentar justificar, sem grande convicção, caso de Domingos Conceição, que ironiza pedindo para se fazer a representação dos 15 anos da ditadura, para satisfação de alguns. Já o ex-deputado maiense Adalberto “Betu” Silva prefere fazer contas e compara os custos da estátua de Amílcar Cabral, que custou 40 mil contos, mais a requalificação do espaço, totalizando 126,5 mil contos, com o Monumento à Liberdade, mais a requalificação da estrada do aeroporto da Praia e o acesso a escadaria de Achada Grande com um custo total de 150 mil contos. Mas os números foram igualmente descodificados com o comentário de Mário Semedo: “Parece que estes monumentos passaram a ser símbolos e caprichos partidários, não símbolos e patrimónios históricos de todos.”

Estátua da ironia nacional 

Para Afrodite Monteiro, Cabo Verde está a construir uma estátua da “ironia nacional”, com um custo de 150 milhões de escudos, para eternizar o que não se pratica, enquanto São Vicente afunda na lama. “O Governo decidiu erguer um monumento à democracia. Um gesto simbólico, dizem. Pena que a democracia real esteja soterrada sob voos cancelados e ilhas isoladas: TACV opera com aviões alugados e avariados. Passageiros retidos, sem alojamento, sem comida e sem rumo, e Agência de Aviação Civil está em modo avião”, desabafa. 

Enquanto isso, diz, as escolas básicas estão com os tetos a cair e casas de banho em ruínas. “50 escolas em obras, mas sem garantia de conclusão. Crianças aprendem mais sobre infiltrações do que sobre matemática. A água potável é transportada por navio militar: São Vicente depende de 150m 3 diários trazidos de Santo Antão. A democracia bebe água racionada”, detalha, acrescentando que os hospitais estão inundados e vacinas perdidas.“O principal hospital de Mindelo foi alagado. Mas pelo menos teremos um monumento para contemplar enquanto esperamos pela ambulância,” ironiza.  

Mas, mais, acrescenta, os esgotos correm a céu aberto, inclusive nos centros urbanos, que convivem com o cheiro da negligência. Aliás, prossegue, a coesão territorial virou ficção, os empreendedores sufocados por burocracia e falta de crédito. Entretanto, o país cresce, dizem, mas só no papel timbrado dos discursos oficiais. “Mas quem precisa de democracia quando se tem granito polido e placas comemorativas? Que tal um monumento à transparência? Ou à mobilidade interilhas? Ou à dignidade escolar? Enquanto isso, seguimos com a democracia de vitrine: bonita por fora, vazia por dentro!.”  

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