Comunicação, memória histórica e combate à fome marcam a primeira mesa-redonda em conferência internacional da UniCV

A fome, a memória histórica, a desinformação e a construção de futuros possíveis para África estiveram no centro da mesa-redonda realizada no Centro Cultural do Mindelo, no âmbito do II Congresso Internacional de Enfrentamento à Fome e à Desinformação, realizado pela Universidade de Cabo Verde. A iniciativa é coordenada por Ana Paula Régo, Marialva Barbosa e João Almeida Medina.

Subordinado ao tema “Africanidades, Imaginários e Futuros Possíveis: Comunicação, Fome, uma Ponte para África”, o debate reuniu João Almeida Medina, da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), Renata Rezende, da Universidade Federal Fluminense, e Margarida Kunsch, da Universidade de São Paulo (USP). Os três investigadores apresentaram diferentes perspetivas sobre o papel da comunicação na compreensão das realidades africanas, na preservação da memória coletiva e na procura de respostas para problemas sociais persistentes, com destaque para a fome e a desigualdade.

O professor João Almeida Medina defendeu que a compreensão do presente e a construção de um futuro equilibrado exigem um confronto crítico com as feridas históricas, nomeadamente a fome e a escravatura. O investigador sublinhou a importância de abordar aquilo que designou de “conhecimento maldito”, associado às memórias que marcam a história das sociedades, considerando que ignorar essas realidades dificulta a capacidade de se compreender o presente e imaginar caminhos para o futuro.

Na sua perspetiva, é fundamental estimular o pensamento crítico e evitar a aceitação passiva do conhecimento transmitido. Para o académico, aquilo que é apresentado como dado deve servir de ponto de partida para a construção de novas ideias. A reflexão estendeu-se ao uso da inteligência artificial no ensino e na produção de conhecimento. João Medina alertou para o que considera ser uma utilização limitada destas ferramentas, centrada na reprodução de respostas e ideias de terceiros, em vez do desenvolvimento da capacidade de análise.

O investigador salientou que estas plataformas são infraestruturas tecnológicas concebidas para processar informação e responder a questões, defendendo que a sua utilização deve ser acompanhada por uma postura crítica e reflexiva.

Fome e desesperança

Por sua vez, a investigadora Margarida Kunsch, referência nos estudos de comunicação institucional e organizacional, destacou a ligação entre comunicação, cidadania, direitos humanos e causas sociais. Defendeu a importância de transformar dados técnicos sobre a fome, a desnutrição e a desigualdade social em informação acessível, capaz de sensibilizar a sociedade para a dimensão da insegurança alimentar e as suas consequências.

Na sua abordagem, a comunicação assume também um papel fundamental na mobilização social e na incidência política, ao contribuir para dar visibilidade às populações em situação de vulnerabilidade, promover campanhas públicas e estimular a defesa de políticas estruturantes de combate à pobreza. Outro aspeto destacado foi a necessidade de consolidar uma cultura de direitos humanos que reconheça a alimentação como um direito fundamental, e não como um ato de caridade ou uma concessão assistencialista.

Margarida Kunsch salientou ainda a importância da articulação entre movimentos sociais, universidades, instituições públicas e organizações da sociedade civil, através de redes de comunicação capazes de ampliar o alcance das iniciativas de combate à fome e de promoção da justiça social.

Já a professora Renata Rezende apresentou o Projeto África, uma iniciativa orientada para a criação de pontes entre estratégias de comunicação popular no Brasil, em Cabo Verde e em Moçambique. A investigadora partilhou também experiências do trabalho que tem desenvolvido em França com estudantes africanos, recorrendo a entrevistas, análises culturais e à produção colaborativa de conhecimento para dar visibilidade às narrativas locais, às cosmologias africanas e às experiências comunitárias.

O objetivo, segundo a abordagem apresentada, é valorizar formas de conhecimento e de organização social que frequentemente permanecem à margem das narrativas dominantes, identificando experiências capazes de contribuir para a superação das desigualdades. Entre os exemplos referidos, destacou-se o desejo manifestado por estudantes africanos de regressar ao continente para trabalhar nos seus países, uma aspiração que coloca em evidência a importância de criar condições para que o conhecimento adquirido possa contribuir diretamente para o desenvolvimento das sociedades africanas.

A reflexão trouxe para o debate a necessidade de fortalecer as ligações entre os países africanos e as suas diásporas, valorizando a circulação de conhecimentos, as experiências comunitárias e a participação das novas gerações na construção de soluções para os desafios do continente.

A mesa-redonda evidenciou, assim, diferentes dimensões da relação entre comunicação, memória, educação e desenvolvimento. Num contexto em que a fome e a desinformação continuam a colocar desafios às sociedades, os investigadores defenderam, a partir das suas abordagens, a importância de promover o pensamento crítico, ampliar o acesso à informação e valorizar as experiências e os saberes africanos na construção de futuros possíveis.

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