Um estudo publicado na 7.ª edição do Boletim de Saúde Pública revela que apenas 16 dos 43 casos diagnosticados (37,2%) com esquistossomose urogenital no município de São Miguel têm registo de terem recebido tratamento com praziquantel. Destes, 14 pacientes foram submetidos ao esquema de dose única e dois requererem dose dupla do fármaco.
A investigação, da autoria de Landa de Pina, do Serviço de Saúde da Polícia Nacional, com a participação de Josilene Martins, da Delegacia de Saúde de São Lourenço dos Órgãos, Katilene de Pina, da Delegacia de Saúde da Praia, Ngibo Fernandes, do Instituto Nacional de Saúde Pública, e Menilita Barbosa, do Programa de Treinamento em Epidemiologia de Campo, analisou os casos registados em São Miguel entre janeiro e junho de 2026.
O estudo surge na sequência do primeiro surto de esquistossomose urogenital notificado em Cabo Verde, em 2022, naquele concelho. Segundo a investigação, os casos continuaram a ser registados nos anos seguintes, com evidências de expansão geográfica em 2026. A pesquisa teve como objetivos caracterizar os casos registados no período em análise e apresentar recomendações para o reforço da vigilância, prevenção e controlo da doença.
Para a realização do estudo foi utilizada uma metodologia transversal, retrospetiva e mista, baseada na análise de fichas de notificação e de urgência da Delegacia de Saúde de São Miguel, complementada por entrevistas semiestruturadas a dez informantes-chave. Foram identificados 51 casos suspeitos, dos quais 43 foram confirmados laboratorialmente. Entre os casos confirmados, predominou o sexo masculino, com 72,1%, enquanto a faixa etária dos 10 aos 14 anos concentrou 53,5% dos casos.
A hematúria, ou presença de sangue na urina, foi a manifestação clínica mais frequente, registada em 79,1% dos casos. A investigação identificou ainda uma associação entre o hábito de tomar banho em tanques e um maior risco de infeção. Diz ainda a investigação que Principal concentrou 55,8% dos casos, constituindo a área com maior número de ocorrências no período.
Um dos principais alertas levantados pela investigação está relacionado com o acesso ao tratamento. Apenas 16 dos 43 casos confirmados, correspondentes a 37,2%, apresentavam registo de tratamento com praziquantel. As entrevistas realizadas no âmbito do estudo apontaram para limitações de recursos humanos, transporte, capacidade de diagnóstico e articulação intersetorial como alguns dos constrangimentos que condicionam a resposta à doença.
Perante estes resultados, os autores defendem que o controlo sustentável da esquistossomose urinária no município de São Miguel exige uma abordagem integrada de “Uma Só Saúde”, com reforço da vigilância ativa, melhoria da qualidade dos dados e desenvolvimento de intervenções intersetoriais direcionadas aos principais fatores de risco identificados.
A investigação recomenda uma resposta coordenada entre os diferentes setores envolvidos, de modo a melhorar a deteção dos casos, garantir o tratamento dos pacientes diagnosticados e reforçar as medidas de prevenção e controlo da doença no concelho.
