Nelson Faria
“É verdade que, pela exposição inerente à atividade, o político, bom ou mau, honesto ou desonesto, está naturalmente sujeito ao escrutínio público. No entanto, esse escrutínio muitas vezes transcende a análise do trabalho para se transformar numa generalização acrítica e num julgamento moral simplista.”
Na minha perspectiva, a política e os políticos são, frequentemente, vistos através de uma lente deformante. Pré-concebida, preconceituosa, por vezes sem fundamento. Porque sim, porque é assim que se diz. Nessa forma de ver, misturam-se observações fundamentadas com preconceitos enraizados, críticas justas com adjetivos indecorosos que desrespeitam a pessoa para além da função.
É verdade que, pela exposição inerente à atividade, o político, bom ou mau, honesto ou desonesto, está naturalmente sujeito ao escrutínio público. No entanto, esse escrutínio muitas vezes transcende a análise do trabalho para se transformar numa generalização acrítica e num julgamento moral simplista.
Como qualquer atividade humana, a política tem os seus dignos representantes e os seus oportunistas. Estar na política ativa não torna ninguém inerentemente melhor ou pior; antes, funciona como um amplificador que tende a revelar o caráter de quem detém o poder. É aqui que reside um paradoxo relevante. Bastas vezes, a política e o político são um reflexo fiel da sociedade que alegadamente “não quer saber de política”. Uma sociedade desinteressada, cética ou cínica acaba, por omissão, por delegar o seu destino àqueles que se dispõem a ocupar o espaço. O resultado é um ciclo vicioso onde o desinteresse gera desconfiança, que por sua vez alimenta uma classe política por vezes distante e incompetente, o que novamente justifica o desinteresse. E assim o ciclo se adensa e se perpetua.
Neste contexto, considero que os verdadeiros protagonistas da política são os cidadãos. São eles que, através dos valores que cultivam coletivamente e da atenção (ou falta dela) que dedicam ao bem comum, determinam a qualidade dos políticos que escolhem, ou que toleram. O pré-conceito, a pré-concepção negativa e a visão pejorativa generalizada não abonam a favor de ninguém, nem da sociedade, que se priva de um debate sério, nem da democracia, que se enfraquece.
É compreensível e até razoável não querer saber de partidos políticos, das máquinas quando não se colocam como um instrumento de serviço público, por vezes opacas e dogmáticas. No entanto, a afirmação “não quero saber de política” é intrigante e, no fundo, ilusória. A política, no seu sentido mais amplo, é a arena onde se decidem as regras da nossa vida coletiva, a saúde, a educação, a justiça, os transportes, a cultura, o ambiente. Na minha perspectiva, alegar neutralidade perante ela não é um ato de liberdade, mas, sim, uma abdicação silenciosa. Um boicote a si próprio e à comunidade, que apenas beneficia aqueles que preferem agir sem o olhar atento dos cidadãos, sem olhar para o lado.
Portanto, talvez o caminho não passe por idolatrar ou demonizar a figura do político, mas por recuperar, enquanto sociedade, a consciência de que a política é, antes de tudo, uma responsabilidade partilhada. Exigir mais e melhor dos que governam começa por exigir mais e melhor de nós mesmos, mais atenção, mais discernimento, mais participação. Quebrando o ciclo do desinteresse e do preconceito podemos aspirar a uma esfera pública que reflita a nossa melhor capacidade de construir em conjunto.
