Ucraniana pede ajuda para conseguir “estatuto de refugiada” em C. Verde 

Chegou a São Vicente em 2019 para fugir da guerra que eclodiu na Ucrânia desde que a Rússia anexou a Crimeia, em 2014. Recusou sempre falar russo e tinha uma postura crítica em relação a guerra entre os separatista e Ucrânia, com envolvimento da Rússia. Sentia-se em perigo. Veio junto com a mãe, que está prestes a completar 65 anos. Já solicitou por duas vezes o “Estatuto de refugiado”, mas a única resposta que obteve das autoridades é para “aguardar”. Cansada de esperar, Joana Alegria, de 35 anos, decidiu lançar um pedido público de ajuda para “desbloquear” o processo. “Só quero paz”, diz.

Ao Mindelinsite, esta jovem artista conta que escolheu São Vicente porque conhecia alguns cabo-verdianos e tinha uma grande amiga desta ilha, com quem partilhava bons momentos. “Aliciada pelas histórias que esta minha amiga contava de São Vicente, cheguei nesta ilha em 2019 e fixei residência na Rua S. João, nas proximidades da Praça Estrela. De imediato, apaixonei-me por esta terra e suas gentes”, conta esta cidadã da Ucrânia, que tem forte ligação com o mundo das artes: faz poesia e música, vende roupas tradicionais da Ucrânia na internet e tem um canal no Youtube onde vem divulgando a cultura e o modo de vida dos mindelenses.

Joana Alegria fala português com alguma dificuldade – nasceu no Brasil e cedo mudou com a mãe para a Ucrânia -, mas diz não ter enfrentado grandes dificuldades para se integrar na ilha de S. Vicente, apesar de ter chegado de supetão. “A guerra na Ucrânia começou desde 2014, com a anexação da Crimeia pela Rússia e com a ocupação de Donbass, e não com a invasão no dia 24 de fevereiro de 2022. Desde então, as condições de segurança foram se deteriorando. Começou uma verdadeira caça aos que se opunham a presença russa no país. No meu caso, sou um espírito livre, uma artista, e desde a primeira hora recusava falar russo ou mudar o meu comportamento”, relata essa cidadã europeia, que se sentiu em perigo e optou por deixar o país.

Decidiu vir para Cabo Verde porque conhecia alguns cabo-verdianos e tinha uma amiga que sempre falava bem de São Vicente. “Tinha esta ideia na cabeça e decidi vir junto com a minha mãe. Foi uma fuga para salvar as nossas vidas”, conta esta jovem que na Ucrânia vivia da arte e de negócios e tentou manter o mesmo estilo de vida em São Vicente.

“Comecei por vender roupas na internet e também na Praça Estrela para garantir a minha sobrevivência e a da minha mãe. Mas, com o agravar da situação na Ucrânia, decidi regressar ao meu país para desfazer de alguns bens, designadamente da nossa casa, e adquirir residência própria aqui em S. Vicente. Infelizmente, já era muito tarde. Ficamos sem nada.”

Joana Alegria voltou em definitivo em outubro de 2021 para S. Vicente. Alugou uma casa e fixou residência. Conta que a sua estada na ilha tem sido tranquila. De início, conseguia vender as suas roupas, sem problema. Mas, com a destruição das fábricas no seu país, ficou sem matéria-prima. “Passei então a viver dos rendimentos do meu canal no Youtube, onde divulgo esta ilha, os bairros, a sua cultura, enfim, as suas gentes. Também divulgo algumas músicas e poesias da minha autoria. Ganho algum dinheiro, que nos tem ajudado. Mas, infelizmente, pago muito imposto porque sou taxada como turista. E, para agravar ainda mais a nossa situação, a Ucrânia cortou a pensão de sobrevivência da minha mãe.”

Neste momento, prossegue, é a única que garante o sustento das duas, com o pouco que recebe no Youtube. E, como pode sempre piorar, Joana Alegria explica que está a enfrentar problemas crónicos de saúde. “Estou aflita. O pouco que ganho é para os impostos porque, como não tenho documento, sou taxada como turista. Sequer posso ir ao médico porque o meu seguro da Ucrânia já não é valido. O meu país já não consegue ajudar os seus cidadãos.” 

Para tentar mudar o rumo da sua história, esta entrevistada do Mindelinsite conta que solicitou, por duas vezes, o estatuto de refugiada. A primeira vez foi em outubro/novembro de 2019. “Fui na CMSV pedir informações e também na Polícia de Fronteira, e entrei com o pedido. Não houve resposta pelo que, em 2020, voltei a fazer um novo pedido. Marquei uma audiência com o presidente da CMSV, que me aconselhou a aguardar. Já da parte da Polícia fui instruída a pedir um visto de turista. O problema é que não sou turista, estou em Cabo Verde porque fugi da guerra no meu país. Sou refugiada de guerra.”

Joana Alegria acredita que parte dos problemas que ela e a mãe estão a enfrentar é porque saíram da Ucrânia de forma intempestiva. “Não nos preparamos para sair do país, e agora praticamente moro com a minha mãe na rua porque o meu salário mal dá para pagar o aluguer. Preciso da ajuda das pessoas porque não sei aonde ir para desbloquear o processo. Preciso de tratamento porque a minha condição médica tem vindo a agravar-se. Perdi tudo, a minha pátria e o meu negócio. Só não perdi a vida.”

Instada a precisar qual o motivo de aceitar se expor, Joana Alegria diz não ter mais nada a perder, mas, com ajuda das pessoas, pode pelo menos conseguir o estatuto de refugiada e viver em paz e tranquilidade. “Estou perdida. O meu sonho é dormir em paz, longe da guerra. Gosto de S. Vicente e já fiz aqui muitos amigos. Sinto amor por esta ilha, gosto da música, da cultura e das gentes”, admite esta ucraniana, que gosta de se embrenhar pelos bairros de Espia, Chã de Alecrim, Salamansa…; depois publica tudo na sua página na internet.

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