Estudo sobre mutilação sexual feminina: Profissionais da saúde com escasso conhecimento sobre a prática em CV

Os profissionais da saúde em Cabo Verde apresentam um nível de conhecimento ainda “superficial” sobre a prática da mutilação genital feminina, suas consequências na mulher, assim como a forma mais correcta de abordagem e tratamento clínico dos casos. Estas são algumas das evidências de um estudo de percepção sobre este fenômeno sociocultural no país, realizado pela Universidade de Cabo Verde sob a coordenação das investigadoras Deisa Semedo e Clementina Furtado. Ficou clara, adianta a enfermeira Deisa Semedo, a necessidade de formações direcionadas a essa classe para melhorar a resposta do sistema de saúde a essas situações.  

“De uma forma geral, o desconhecimento sobre a mutilação genital feminina é inerente porque o conhecimento é muito superficial”, afirma Deisa Semedo, salientando que o levantamento foi centrado em Santiago, Sal, São Vicente e Boa Vista, ilhas onde mais residem imigrantes oriundos de países com essa prática, e incluiu ainda visitas de estudo a Portugal e Guiné-Bissau. Esta Mestre em Saúde Pública revela que, além dos técnicos da Saúde, foram efectuadas entrevistas a ONG’s, sobreviventes de mutilação genital ocorrida nos seus países, mas também a mulheres cabo-verdianas e a imigrantes residentes no arquipélago. No entanto, algumas entrevistas, diz essa fonte, foram interrompidas com a chegada dos maridos dessas mulheres. Isto aconteceu, conforme a investigadora do Centro de Investigação em Género e Família, porque o homem acaba por ter uma força de pressão muito forte nesses núcleos e exerce igualmente controlo no domínio da sexualidade. Logo, não permitem que as esposas falem dessas matérias.

“O homem vê a mutilação só para o seu benefício. O objectivo é estabelecer controlo ao nível da sexualidade da mulher. Centra o motivo nas questões da norma de género, na pressão social, no aspecto cultural e, de uma forma equívoca, ao nível religioso. Apega-se muito na questão religiosa para se justificar a mutilação. Só que os estudos demonstram que nenhum dos livros sagrados – Corão e Bíblia – traz essa abordagem”, salienta a citada enfermeira.

 Das conversas possíveis mantidas com mulheres de países onde essa prática é aceite, as entrevistadas, segundo Deisa Semedo, enfatizaram que veem essa sujeição como algo normal por fazer parte da sua cultura. Uma espécie de rito de passagem. Revelou, aliás, que nalgumas comunidades uma menina que não foi submetida à mutilação genital acaba por ter dificuldades em se casar porque passa a ser vista como impura pelos homens. O procedimento, diz, deve acontecer até aos 15 anos de idade, mas a maior parte ocorre por volta dos dez anos, representando a entrada da criança para a fase adulta. E quem não se sujeitar, diz, é estigmatizada.

Apesar de reconhecer o nível de sensibilidade da questão, como especialista da Saúde, a enfermeira alerta para as consequências físicas, psicológicas e emocionais da mutilação genital feminina. Afirma categoricamente que os danos no corpo da mulher são devastadores, podendo mesmo levar à morte.

Esse risco existe porque, segundo a pesquisadora, podem ocorrer hemorragias, infeções graves – devido aos cortes feitos com navalhas e facas – e ainda infertilidade. Normalmente, explica, reúnem várias meninas num espaço e usam o mesmo material cortante para efectuar as mutilações, o que aumenta a possibilidade de passagem do vírus HIV e Hepatite.

Existem diferentes graus de mutilação, podendo ser parcial ou total. Neste sentido, pode ocorrer a retirada integral do clitóris, considerado a fonte do prazer sexual feminino. Pode ainda ocorrer o estreitamento do orifício vaginal. Segundo Deisa Semedo, há mulheres que só tomam consciência da mutilação quando passam a conviver com outras que nunca realizaram esse procedimento e descobrem as diferenças.

O estudo não determinou a prevalência da mutilação genital em Cabo Verde devido as dificuldades na recolha de informações. Mas, tal como acontece com os profissionais da saúde, o levantamento mostrou que algumas organizações não-governamentais demonstraram falta de conhecimento sobre o assunto. Além disso ficou evidenciada uma ignorância generalizada sobre a lei da mutilação sexual, que criminaliza práticas cometidas em homens e mulheres. E, como enfatiza Deisa Delgado, a falta de informação pode levar a comportamentos errôneos e dificultar a proteção das vítimas.

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