Cinco óbitos no Serviço de Neonatologia do HBS em duas semanas: Hospital abre investigação 

Cinco recém-nascidos faleceram inesperadamente no espaço de duas semanas no Hospital Dr. Baptista de Sousa, segundo denuncia feita ao Mindelinsite pelas mães, que estão desesperadas para saber as causas destas mortes. Quatro dos bebés eram prematuras e estavam em incubadora para ganhar peso, enquanto o quinto nasceu com falta de ar e estava em oxigénio, todos na Neonatologia deste hospital, o que levas estas mães a afirmar que o serviço está contaminado. A direcção do Hospital assume apenas três óbitos no decurso desta semana. 

Carolina Araújo, Janilda Santos, Telma Delgado e Radisa “Rady” Lima são, neste momento, o rosto do sofrimento por causa da morte inesperada e sem explicação dos seus filhos recém-nascidos, no Serviço de Neonatologia do Hospital Dr. Baptista de Sousa, em São Vicente. Apesar da sua dor atroz, mostram-se dispostas a lutar para buscar explicações credíveis para a morte dos seus recém-nascidos e não apenas uma certidão de óbito, a única prova da sua perda neste momento. 

Foram quatro mortes no espaço de uma semana e dois dias. E antes um outro bebé já tinha falecido, também sem explicação. No meu caso, o hospital limitou a dizer-me que o meu filho morreu devido a uma pneumonia e deficiência respiratória. O problema é que, no dia em que ele morreu, no inicio da manhã, meu filho fez um raio-x e a sua médica me tranquilizou, dizendo que o seu pulmão estava muito mais limpo, inclusive desligou-lhe os tubos que o ajudavam na sua respiração”, diz Carolina Araújo.

É por isso que esta mãe recusa agora aceitar a explicação de que o seu filho morreu por deficiência respiratória. “Não entendo e não aceito esta justificação porque o meu filho já estava a respirar sem auxilio. Significa que já não precisava de equipamentos para o ajuda para respirar. Se o seu pulmão estava mais limpo como me disse a médica, como é que faleceu devido a uma pneumonia?”, questiona.

Segundo esta mãe, o filho completou 14 dias de vida, após nascer com seis meses e três semanas. “A sua morte foi uma surpresa porque sempre foi muito forte. Ultrapassou todos os constrangimentos, inclusive a nível do peso. Alegam que ele morreu de pneumonia e de deficiência respiratória, mas recusam me entregar o relatório médico, o raio x e as suas análises. Deram-me apenas o certidão de óbito e o cartão de Planeamento Materno Infantil (PMI) quando recebi autorização para ir para casa. Na altura, estava tão perturbada que nem me preocupei em exigir os outros documentos.”

No início, Carolina Araújo explica que optou por camuflar a sua dor e seguir com a sua vida. Mas, a morte de outros três bebés num curto espaço de tempo deu-lhe coragem para denunciar. “Decidi falar porque, se continuar a engolir a minha dor sozinha, acredito que muitos outros bebes teriam o mesmo destino do meu. Não vou conseguir trazer o meu filho, mas pelo menos posso evitar que outros morram nas mesmas condições. Acho que o problema está na maternidade do hospital.” 

Questionada se teve uma gravidez normal, esta jovem mãe conta que teve dois sangramentos, mas foi medicada e ficou de repouso. Mas nunca foi colocada a hipótese de parto prematuro por seu médico. “Uma semana antes do meu bebé nascer, estive no PMI porque tinha passado a noite com dores. Ao invés de me encaminharem para o hospital, fui medicada e colocada em repouso. Em casa, as dores aumentaram, fui para o hospital e estava com nove centímetros de dilatação.”

Hemorragias como causa das mortes

De acordo com as certidões, dos cinco óbitos, três foram devido a pneumonia e dois por hemorragia. É o caso, por exemplo, do bebé de Janilda Santos, que nasceu no dia 26 de abril e faleceu no dia 9 de maio último. “Quando o meu bebé nasceu estava prestes a completar oito meses de gravidez. Foi colocado na incubadora para ganhar peso mas, logo de seguida, começou a apresentar algumas complicações, designadamente perda de sangue. E, logo de seguida, veio a óbito. Infelizmente não me deram qualquer explicação. Apenas uma certidão que diz que meu filho teve uma hemorragia.”

Este foi aliás o único documento do bebé que esta mãe levou para casa. “Estava muito perturbada na altura e sequer me preocupei em certificar os documentos que recebi. Mas tarde, em casa, fui ver que me entregaram todos os meus exames, mas nenhum do meu filho, que nasceu com 1.200 gramas e nunca apresentou nenhum problemas antes de ser colocado na incubadora. Foi aliás uma gravidez normal, apenas no final entrei em trabalho de parto antes da hora e tive uma ligeira perda de sangue.”

Já Rady Lima explica que o seu bebé nasceu no dia 28 de abril, com seis meses completos e pesava 1.185 gramas. Apesar de aparentemente estar saudável, devido ao peso reduzido, foi colocado na incubadora. Alguns dias depois, conta, percebeu alguns riscos de sangue na sonda de alimentação da sua bebé. Alertou a enfermeira de serviço de Neonatologia, mas esta disse que era normal. “No dia seguinte, o sangramento aumentou e voltei a informar a enfermeira. Nesta altura, percebi que meu filho não estava bem e que a incubadora apitava com muita freqüência”, relata.

Foi só depois do estado do filho agravar-se que decidiram fazer uma transfusão de sangue e alterar a medicação. “Infelizmente, no dia 5 de maio, por volta das 23 horas, foram me informar que o meu filho tinha falecido devido a uma hemorragia. Estava transtornada, mas também preocupada porque fui alertada que outros bebés que também estava na incubadora faleceram nas mesmas condições e que as mortes vinham acontecendo deste o dia 01 de maio, sendo que o último aconteceu esta sexta-feira. No caso, foi uma bebé que faleceu logo depois de nascer, aumentando para cinco o total.” 

Bebé com 35 semanas e seis dias

Mais complexo é o caso de Telma Delgado, cujo bebé nasceu às 8h30 do dia 30 de abril, com mais de oito meses, ou seja, 35 semanas e seis dias, com 2.310 gramas e 44 centímetros, e morreu no dia 8 de maio. “O meu filho era um bebé normal. Foi colocado em incubadora porque nasceu com dificuldades para respirar. Esteve oito dias na incubadora. Esteve 24 horas entubado e outros 24 horas a receber o oxigênio perto do nariz. Depois começou a respirar por seus próprios meios. Ficou apenas com a sonda de alimentação para receber lei. Mas este também foi depois retirado e passou a amamentar no seio, mas, como tinha pouca força para sugar, dava-lhe leite no copo.”

Depois de permanecer quatro dias na incubadora, Telma conta que o quadro clinico do filho começou a agravar-se. Inicialmente, apresentou uma inflamação nos testículos, mas os médicos não souberam explicar porque. “Fizeram um raio-x e um hemograma, que acusou liquido nos testículos. Os médicos suspeitavam que que ele podia estar com hidrocele testicular agravado. Foi medicado, mas os médicos me informaram que o meu filho estava também com uma infecção no sangue. A minha preocupação aumentou porque o meu filho nasceu normal e eu não tinha nenhuma infecção também, então só podia ter sido contaminado dentro do Serviço de Neonatologia,” acusa. 

E as más-notícias só aumentavam porque, logo de seguida, foi informada que o filho não tinha plaquetas no sangue. “Fiz uma dádiva de sangue para poderem separar as plaquetas para fazerem uma transfusão ao meu filho. Logo após a transfusão, meu bebé teve um sangramento interno, segundo me informaram. Mas acredito que este sangramento seja anterior porque já tinha percebi do resíduos na sonda de alimentação, com uma cor acastanhado.”

Certo é que, no dia que fizeram a transfusão, prossegue, retiraram duas seringas de sangue do seu estômago. “Questionei a enfermeira e fui informada que meu filho estava com hemorragia interna. Fiquei desesperada porque, depois de três dias normais, meu filho apresentava muitos problemas, sem explicação. Cheguei a questionar uma enfermeira, que me disse que também não sabia de onde surgiu a hemorragia”, afirma Telma, que relata um grande sofrimento entre o tempo de espera para visitar o filho na Neonatologia.  “Só podemos visitar os nossos filhos durante uma hora, de três em três horas. O espaço em que não estava com o meu bebé era de grande sofrimento porque não sabia o que estava a acontecer. Sobretudo porque sabia que o meu filho foi o quarto bebé a falecer neste serviço num curto espaço de tempo. E mais, os três primeiros óbitos apresentaram os mesmos sintomas do meu filho.”

Perante tantas evidências, Telma Delgado não tem dúvidas de que este serviço está contaminado. “Está muito claro que o Serviço de Neonatologia está com uma infecção porque não é normal cinco crianças morrerem com os mesmos sintomas, sabendo que não tinham nenhuma doença. O hospital precisa investigar porque estas crianças tiveram hemorragias, seguidas de paragens cardíacas, até chegarem ao ponto de falecerem. Por mais que a maioria tenha sido prematuro – o que não era o meu caso – é muita coincidência.”

Esta mãe garante que ontem, quando deslocou à Maternidade para fazer alguns exames, em conversa com uma enfermeira, esta confirmou-lhe que o Serviço de Neonatologia está com uma infecção. “Sei que, dentro de um hospital, as pessoas estão sujeitas às infecções. Mas não aceito que digam que dentro de uma incubadora uma criança pode ser contaminada porque não estão a conseguir combater a infecção. Estamos a falar de um serviço especializado, altamente esterilizado. E não há alternativa.” 

Aliás, diz, o último sobrevivente do grupo de cinco bebés que estavam internados também começou ontem a apresentar os mesmos sintomas dos recém-nascidos falecidos, conforme revelou a mãe. “Ontem, enquanto estava no hospital, procurei a minha colega e ela me disse que por volta das 13 horas quando foi visitar a filha, estavam a fazer uma transfusão de sangue na sua bebé. Estou agora a imaginar o  sofrimento desta mãe, tendo em conta que é a última bebé ainda na incubadora. Segundo ela, a filha teve uma hemorragia interna, mas sequer dignaram a lhe informar.” 

Confrontado pelo Mindelinsite sobre estas mortes ocorridas no Serviço de Neonatologia, a direção do Hospital Dr. Baptista de Sousa, através da sua assessoria de imprensa, limitou a informar que, efectivamente, no decurso desta semana, ou seja de 1 a 8 de maio, foram registados três óbitos. “De imediato, foram tomadas medidas no serviço, de se operar qual a causa da morte, de modo a se poder caminhar no sentido da sua eliminação”, indica. 

O HBS promete, no entanto, prestar mais informações oportunamente. 

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