Wake up “.cv”

Helio Africano Querido Varela

Há uma inquietação que me acompanha quando observo a velocidade a que o mundo se está a transformar com a inteligência artificial e comparo com a natureza do debate político em Cabo Verde.

Continuamos a gastar uma parte significativa da nossa energia em disputas partidárias, em responsabilidades pelo passado e em promessas para o futuro.

Tudo isto faz parte da democracia, e compreendo-o. Mas pergunto-me se não estaremos demasiadamente ocupados a discutir quem deve governar, e pouco preocupados em compreender o mundo onde teremos de nos encaixar, e governar, nos nossos dez grãozinhos de terra.

Não ignoro os avanços que Cabo Verde alcançou na transformação digital. Mas hoje a questão é outra: estaremos verdadeiramente a compreender a profundidade desta revolução e as suas consequências para o desenvolvimento e para a soberania nacional?

O que está a acontecer vai muito além do ChatGPT, do Claude ou do DeepSeek, que é, mais ou menos, o que já apropriámos aqui na nossa “tapadinha”. Estamos a assistir, na primeira fila, à convergência de quatro ondas da inteligência artificial que prometem transformar profundamente as sociedades.

A primeira onda é a IA generativa (Generative AI). Democratizou a capacidade de produzir textos, imagens, software e conhecimento. Competências que antes exigiam equipas especializadas tornaram-se acessíveis a milhões de pessoas. O conhecimento ficou mais acessível e imediato.

A segunda é a IA agêntica (Agentic AI), e representa uma transformação ainda mais profunda. A inteligência artificial deixa de apenas responder a instruções e passa a perseguir objetivos: formula planos, toma decisões operacionais e executa ações com diferentes graus de autonomia. Posso, por exemplo, pedir ao meu “agente” que me organize umas férias. Ele procura destinos de acordo com as minhas preferências, marca a viagem, reserva o hotel e até compra bilhetes para um concerto. Faz o que for preciso para atingir o objetivo que lhe dei. Com a IA agêntica, passamos da automação de tarefas para a delegação de decisões.

A terceira é a IA física (Physical AI), que leva a inteligência artificial para o mundo material. Literalmente, a IA sai do ecrã do computador e ganha “braços e pernas”. Robôs, drones, veículos autónomos e equipamentos inteligentes começam a interpretar o ambiente e a adaptar as suas ações. Na agricultura, na energia, na saúde ou nas telecomunicações, os ganhos de produtividade possíveis são extraordinários.

E isto já não é ficção: em 2025, Pequim acolheu os primeiros jogos mundiais de robôs humanoides.

A quarta onda é talvez a mais inquietante, e está na origem de muitas teorias sobre o fim da espécie humana. Refiro-me ao autoaperfeiçoamento recursivo (Recursive Self-Improvement): a possibilidade de sistemas inteligentes contribuírem para desenvolver versões mais avançadas de si próprios, em ciclos sucessivos de melhoria. Um pouco como a teoria da evolução, mas aplicada à IA e a uma velocidade incomparavelmente maior.

Ainda não foi demonstrado um processo destes sem limites. Mas há responsáveis do próprio setor que admitem vê-lo começar a materializar-se num horizonte de meses, e não de anos. Só essa possibilidade já altera profundamente a nossa perceção do futuro.

A questão deixa de ser apenas o que a inteligência artificial consegue fazer. Passa a ser a velocidade a que poderá aumentar aquilo que consegue fazer.

Estas quatro ondas conduzem-nos a um paradoxo. Quanto maior a autonomia que concedemos à inteligência artificial, maior poderá ser a produtividade, mas mais difícil se torna garantir o controlo humano.

É aqui que assentam as grandes reflexões em curso à escala global, para as quais não vejo equivalente em Cabo Verde. Estaremos anestesiados, convencidos de que não seremos profundamente afetados?

Quem define os objetivos destes sistemas? Quem estabelece os limites da sua autonomia? Quem responde pelas consequências das suas decisões?

Fala-se muito de manter o ser humano no circuito de decisão, o chamado human in the loop. Mas será suficiente? Ter autoridade para aprovar uma decisão não significa ter capacidade para a compreender, nem para a controlar.

É precisamente aqui que surge uma questão fundamental para países como Cabo Verde: a soberania da inteligência.

Durante décadas discutimos soberania política, económica e, mais recentemente, digital. Agora teremos de discutir a soberania sobre a inteligência que passará a sustentar uma parte crescente das nossas decisões.

Se agentes inteligentes começarem a participar na gestão de serviços públicos, de infraestruturas críticas e de atividades económicas, quem os controlará efetivamente? Quem define os seus critérios? Quem os poderá auditar? E quem garante a sua continuidade quando dependem de fornecedores externos?

O que significa, então, soberania no mundo de hoje? A Europa, que está a perder a corrida da inovação tecnológica, começa a redefinir o conceito: não como domínio de todo o ciclo tecnológico, mas como capacidade de escolher as melhores tecnologias para o seu desenvolvimento, e de as governar. E África? E nós, em Cabo Verde?

Precisamos de competências nacionais para compreender, integrar, governar e controlar estas tecnologias, que mudam a uma velocidade nunca antes vista.

A dependência tecnológica pode transformar-se em dependência decisória. E esta pode comprometer a própria soberania.

Considero urgente colocar a inteligência artificial no centro da reflexão sobre o desenvolvimento nacional. Não basta organizar conferências, anunciar iniciativas ou incentivar o uso de ferramentas digitais. Proponho, como ponto de partida, três compromissos concretos:

* Regras de auditabilidade para a IA no Estado. Nenhum sistema que influencie decisões sobre cidadãos deve entrar em serviço sem critérios conhecidos, registo das decisões e possibilidade de auditoria independente.

* Uma unidade nacional de competências em IA. Uma equipa técnica permanente, ao serviço do Estado e da economia, capaz de avaliar, integrar e supervisionar estes sistemas, em vez de depender apenas de quem os vende.

* Critérios de soberania nas compras públicas de tecnologia. Onde ficam os dados, quem pode desligar o sistema, como se garantem a continuidade e a portabilidade se o fornecedor mudar de condições.

Temos ainda um desafio de fundo: repensar a educação, a produtividade, a organização do Estado, a organização do trabalho e a competitividade das empresas para uma era em que a inteligência se torna infraestrutura estratégica, tão importante como foram a eletricidade, as telecomunicações e as redes de transporte.

A democracia é indispensável. A alternância política é uma conquista. Mas uma democracia não pode limitar-se à escolha periódica de quem governa. Tem também de mostrar capacidade para antecipar transformações e democratizar as oportunidades que delas resultam.

O mundo não está à espera que terminemos as nossas disputas para continuar a transformar-se. Estamos a ensinar as máquinas a criar, a decidir, a agir e, potencialmente, a melhorar a sua própria inteligência.

Mas estaremos nós, em Cabo Verde, a desenvolver a inteligência coletiva necessária para continuar a decidir o nosso próprio futuro?

 

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