-Hélio Africano Querido Varela-
Esta semana tem sido particularmente intensa para mim. Tenho sido questionado e dado algumas entrevistas sobre o tema incontornável da atualidade: a Inteligência Artificial e o quase pré-anúncio do fim do mundo feito por alguns especialistas ligados às grandes Big Tech americanas.
Intriga-me como esta narrativa encontrou eco quase sem resistência em muitos cantos da nossa aldeia global, ao ponto de ofuscar um anúncio de enorme significado: a China declarou a intenção de abrir as suas tecnologias e modelos de IA a outros países, sob bandeira de inclusão e futuro partilhado. Sem negar que a IA comporta riscos reais, torna-se cada vez mais claro que estamos também perante uma disputa maior, pelo protagonismo mundial e pelo modelo de governação da IA, entre China e Estados Unidos.
Mas não é essa a razão principal desta reflexão. O que me motivou tem a ver com o meu Cabo Verde. E com aquilo que senti durante a visita que fiz ao Lianqiu Lake R&D Center da Huawei, em Xangai, o maior centro de investigação e desenvolvimento da empresa e um dos maiores complexos de inovação tecnológica do mundo.
Para se ter uma ideia da dimensão: mais de 160 hectares, mais de 2 milhões de metros quadrados de área construída e cerca de 35.000 pessoas a trabalhar ali diariamente em investigação e desenvolvimento. Muito do que vai moldar o mundo de amanhã, Inteligência Artificial, 5G, computação avançada, e dimensões que provavelmente ainda nem conseguimos imaginar, está a ser pensado nestes espaços, por jovens engenheiros que constituem a maioria desta verdadeira cidade da inovação.
Durante as horas que ali passei, houve uma palavra que não me saiu da cabeça: visão.
Para enquadrar porquê, permitam-me recuar no tempo. Em 1998, precisamente quando comecei o meu próprio percurso na transformação digital de Cabo Verde, com o RAFE e depois o NOSI, a Huawei era ainda uma empresa infinitamente menor do que a que conhecemos hoje, faturava algumas centenas de milhões de dólares. Menos de três décadas depois, só naquele centro de I&D trabalham 35.000 pessoas, e a empresa fatura mais de cem bilhões de dólares por ano. Mas há dois números ainda mais reveladores: mais de metade da força de trabalho da Huawei está ligada a investigação e desenvolvimento, e a empresa investe mais de 20% das suas receitas anuais em R&D. Uma parte gigantesca da organização existe para uma coisa aparentemente simples: pensar o futuro.
Há ainda outra dimensão fascinante: a Huawei construiu um modelo em que a esmagadora maioria da participação económica da empresa pertence aos seus trabalhadores, enquanto o fundador, Ren Zhengfei, mantém apenas 1%. Talvez isso ajude a explicar algo que senti naquela cidade: níveis de compromisso, pertença e excelência que raramente encontrei na minha vida profissional.
E foi aí que percebi que a palavra visão escondia outras duas: confiança e autoestima. Porque só um profundo sentimento de confiança coletiva pode levar uma organização, ou um país, a investir persistentemente na sua própria capacidade, dedicando energia, recursos e os seus melhores cérebros a imaginar e construir o seu próprio futuro.
Não resisti a fazer a correlação com Cabo Verde. Foi impossível não pensar na diferença abismal entre os nossos dois percursos.
Durante quase 30 anos, optámos invariavelmente por centrar o nosso desenvolvimento na procura de “ajuda”. Fomos interiorizando a ideia de que quem aterrava no nosso aeroporto conhecia melhor os nossos problemas do que nós próprios. E fomos estendendo a mão. Do outro lado, quase sempre encontrámos a condescendência suficiente para colocar nessa mão exatamente aquilo que permitia que ela continuasse estendida.
Tenho um exemplo que ilustra isto de forma quase perfeita, e que vivi de perto. No NOSI, desenvolvemos há mais de 20 anos, com competências totalmente nacionais, sistemas críticos que chegaram a ser internacionalmente reconhecidos.
E, no entanto, hoje, os critérios de financiamento do modelo de ajuda ao desenvolvimento (complementado com a nossa baixa estima) acabam por exigir que a atualização desses mesmos sistemas seja entregue a empresas estrangeiras, teoricamente por “falta de capacidade local”. A ironia é evidente: quem construiu a versão 1.0, com reconhecimento internacional, é hoje considerado incapaz de atualizar o seu próprio produto. Não porque a capacidade tenha desaparecido, mas porque o modelo de financiamento nunca foi desenhado para a reconhecer, alimentar ou preservar.
Enquanto isso, outros países fizeram uma escolha diferente. Decidiram olhar para dentro. Investiram no seu potencial endógeno. Formaram pessoas, criaram instituições, erraram, aprenderam, e voltaram a tentar. E começaram a escrever, com a sua própria mão, o livro dos seus sonhos e do seu futuro.
Já tinha sentido exatamente isto quando visitei a Estónia. E, nos dois casos, veio-me à cabeça a mesma frase: “Pensar com a própria cabeça.”
Nós preferimos, demasiadas vezes, aceitar um modelo de ajuda que há décadas nos recorda que estamos atrasados, que não dominamos os instrumentos, que não identificamos corretamente os nossos próprios problemas e que, no fundo, não somos capazes.
O mais perturbador é que, por mais que nos esforcemos, a avaliação permanece essencialmente a mesma, pontuada, de tempos a tempos, pelos nossos prémios de menino bem-comportado, tradição que conhecemos desde os tempos coloniais.
Olhando friamente para o processo, o ciclo permanece quase intacto: o consultor vem de fora, identifica as nossas fragilidades, desenha projetos milionários para as resolver, conclui, explícita ou implicitamente, que não temos capacidade para os implementar, e chega então a armada internacional para o fazer (ou nos ajudar). O projeto termina. Pouco depois, recomeça um novo ciclo de “apoio ao desenvolvimento”. E, como somos um povo democrático e livre, desenvolvemos até uma coreografia política em torno disto: quem governa agradece à comunidade financiadora; quem está na oposição denuncia as fragilidades e os resultados. Quando o povo troca os protagonistas, trocam-se os papéis nacionais, mas o fio condutor permanece intacto: o assistencialismo.
Enquanto isso, em centros como o de Xangai, ou em países como a Estónia, os nacionais vão ficando mais robustos nas suas competências endógenas, mais capazes, mais confiantes, mais autónomos, e sobretudo mais preparados para aproveitar tecnologias disruptivas como a IA, precisamente aquelas que podem permitir a países pequenos saltar etapas e acelerar o seu crescimento.
Talvez seja essa a discussão que verdadeiramente me interessa quando falamos de Inteligência Artificial. Não se ela vai destruir empregos, não apenas se é perigosa ou se precisa de regulação, mas quem vai ter o direito, o conhecimento e a capacidade de construir o futuro com ela.
Existe o risco de aceitarmos, mais uma vez, uma ordem mundial em que alguns pensam, outros executam e muitos apenas consomem, a mesma disputa entre China e Estados Unidos com que abri este texto, agora replicada em escala global entre quem decide e quem apenas usa….
Cabo Verde não pode aceitar esse lugar. Temos de formar os nossos jovens, investir em ciência, matemática, engenharia e tecnologia, construir capacidade nacional de investigação e desenvolvimento. Temos de criar espaço para errar. Temos de acreditar que também somos capazes de produzir conhecimento e proteger a nossa identidade cultural, em vez de apenas importar soluções e aceitar passivamente este novo modelo de colonização.
Sobretudo, temos de recuperar uma coisa que nenhum programa de ajuda internacional poderá alguma vez financiar por nós: a confiança na nossa própria capacidade de pensar o futuro.
Pensando bem, e sendo completamente sincero, talvez visão não tenha sido o sentimento predominante durante a minha visita ao centro de investigação da Huawei. Porque já tinha sentido exatamente a mesma coisa na Estónia.
O sentimento foi outro. Muito mais cru. Muito mais desconfortável de admitir. Mas talvez muito mais útil.
Pura e dura inveja.
