Uma governação pobre e o silêncio da sociedade civil

Uma leitura filosófica e psicológica a partir das reflexões de Fátima Brito Monteiro

Domingos Barbosa da Sila

No artigo publicado por Sara Almeida, que dá voz às reflexões de Fátima Brito Monteiro, investigadora e presidente do Instituto de Estudos da Macaronésia, emerge uma tese perturbadora: a governação em Cabo Verde é pobre porque não é enriquecida pelo conhecimento da sociedade civil (originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1109 de 1 de Março de 2023). Esta afirmação não é apenas política; é ontológica. Diz respeito à forma como o poder se pensa a si mesmo e como concebe o outro — o cidadão — não como interlocutor, mas como figurante.

A análise da senhora Brito Monteiro ultrapassa a crítica circunstancial aos governos, e alcança uma dimensão filosófica: a relação entre poder e saber. Quando o poder se fecha sobre si mesmo, recusando o contributo da massa crítica qualificada — tanto interna como da diáspora — instala-se uma espécie de narcisismo institucional. O Estado deixa de ser distribuidor justo do bem comum e transforma- se num organismo defensivo, que interpreta a competência e crítica externas como ameaça.

O açambarcamento como patologia do poder

A palavra utilizada pela investigadora — açambarcamento — é reveladora. Não se trata apenas de centralização administrativa; trata-se de uma apropriação simbólica de todas as esferas da vida social. Quando o Estado se transforma no epicentro de toda a iniciativa, a sociedade civil deixa de ser locomotiva para se tornar reboque.

Do ponto de vista psicológico, este fenómeno pode ser lido como expressão de insegurança estrutural. O poder que não se sente legitimado por excelência procura legitimar-se pela ocupação. Em vez de partilhar competência, concentra-a. Em vez de dialogar com a massa crítica, seleciona interlocutores homogéneos. A pluralidade torna-se ameaça.

O resultado é paradoxal: um país de reduzida dimensão territorial, mas detentor de uma diáspora com elevado capital humano — formada além-fronteiras, exposta a ambientes académicos exigentes e a contextos institucionais sofisticados — comporta-se como se estivesse condenado à falta de quadros. Como se o talento disperso pelo mundo fosse percebido não como extensão do corpo nacional, mas
como ausência.

A falácia da “boa governação”

Quando a senhora Brito Monteiro afirma que a boa governação cabo-verdiana é “uma das maiores falácias já inventadas”, não está a negar avanços institucionais ou estabilidade democrática. Está a questionar o critério comparativo.

Se Cabo Verde se assume como parte do Ocidente — como ela defende — então deve medir-se pelos padrões de exigência das democracias liberais onde reside a maioria da sua nação emigrada. A comparação com contextos mais frágeis cria uma zona de conforto psicológico. Compara-se por baixo para preservar a autoimagem. Por outras palavras, Cabo Verde compara-se com país da Africa em vez de com os
da Europa.

Os meios de comunicação cabo-verdianos têm, de forma recorrente, denunciado ineficiências na gestão da água, atrasos estruturais, fragilidades no sistema educativo, dependência excessiva da ajuda externa e ausência de planeamento estratégico consistente. Contudo, essas críticas surgem muitas vezes fragmentadas, episódicas, sem continuidade investigativa que produza verdadeira responsabilização pública. A crítica existe — mas não se converte em transformação sistémica.

O medo social como mecanismo de controlo

Um dos pontos mais perturbadores da entrevista acima referida é a ideia de que os cabo-verdianos se tornaram um povo “medroso”. Esta não é uma acusação moral; é um diagnóstico psicológico coletivo.

Num mercado de trabalho reduzido, onde o Estado é o maior empregador direto ou indireto, a autonomia intelectual tem custos. A crítica pode significar exclusão de oportunidades. O silêncio torna-se estratégia de sobrevivência.

Ora, numa democracia vibrante, a crítica científica e técnica não é afronta ao poder; é combustível da governação. Quando investigadores apresentam soluções concretas — como nos casos referidos na área da água e agricultura — e não há follow up, instala-se um bloqueio estrutural: o conhecimento circula, mas não é absorvido e posto em prática.

A diáspora como capital negligenciado

A diáspora cabo-verdiana não é apenas fonte de remessas; é um reservatório de know-how acumulado em universidades e instituições de referência mundial. Ignorá-la é desperdiçar uma vantagem competitiva rara entre pequenos Estados insulares.

Há aqui uma tensão psicológica subtil: integrar elites externas implica abrir o sistema a maior escrutínio e partilha de poder. O contributo técnico não vem sozinho; vem acompanhado de exigência de transparência, de métricas, de resultados.

Um poder habituado à centralidade pode sentir-se diminuído quando deixa de ser o único mediador da modernização.

Identidade, linguagem e inflação da autoestima

A análise da senhora Brito Monteiro sobre a linguagem e a preparação dos jovens liga-se indiretamente à questão da governação. Uma sociedade que fragiliza as suas bases linguísticas fragiliza a sua capacidade de pensamento abstrato e de competição global.

Se os jovens não dominam plenamente nem o português nem o inglês, a sua integração em contextos académicos exigentes torna-se penosa. E quando o confronto externo abala a autoestima inflacionada, pode emergir uma leitura defensiva da realidade.

O desenvolvimento não depende apenas de infraestruturas; depende também da qualidade cognitiva da população.

Macaronésia e estratégia perdida

A insistência na idea da Macaronésia ser um espaço natural de cooperação revela uma visão geoestratégica que contrasta com o discurso diplomático grandioso frequentemente veiculado. A tentação de negociar simbolicamente com grandes potências pode alimentar o ego político, mas raramente produz efeitos estruturais duradouros.

Uma estratégia inteligente exige escala adequada. Filosoficamente, trata-se de aceitar a própria dimensão sem complexo nem ilusão.

A exclusão da sociedade civil como empobrecimento ético

No fundo, a tese da senhora Fátima Brito Monteiro é acima de tudo ética com consequência política: a governação empobrece quando se recusa a ser enriquecida. Não por falta de recursos externos, mas por ausência de abertura interna.

Uma democracia liberal não se mede apenas por eleições regulares; mede-se também pela permeabilidade do poder ao conhecimento independente. Se o saber científico não influencia decisões públicas, a política converte-se em teatro.

E talvez seja esta a dimensão mais filosófica do problema: o conflito entre aparência e substância. Entre parecer bom aluno e ser governante competente. Entre centralizar para controlar e descentralizar para desenvolver.

Conclusão

Cabo Verde encontra-se numa encruzilhada silenciosa. Possui capital humano disperso pelo mundo, posição geoestratégica privilegiada e estabilidade institucional rara na região. Contudo, sem integração efetiva da sociedade civil qualificada, sem coragem de abrir o sistema ao escrutínio e à competência técnica, continuará a repetir o ciclo de dependência e de desenvolvimento incompleto.

A governação não é pobre por fatalidade geográfica. É pobre por não escolher o caminho propício ao enriquecimento.

E talvez o primeiro passo para a maturidade política consista precisamente nisto: converter a crítica em cooperação responsável, transformar o conhecimento em política pública estruturante e reconduzir o poder à sua essência ética — o serviço à comunidade.

Porque uma governação que teme o espelho — o espelho da sociedade civil, da ciência e do pensamento independente — condena-se ao empobrecimento estrutural. Só quando o poder aceita ver-se refletido na inteligência coletiva da nação é que pode aspirar à verdadeira grandeza democrática.

 

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