Aricson Jesus da Cruz
A transformação digital do setor financeiro é frequentemente apresentada como uma questão tecnológica. Fala-se de aplicações móveis, de inteligência artificial e de fintechs como motores de inovação. No entanto, a mudança mais profunda pode não estar apenas na tecnologia em si, mas também na forma como as decisões financeiras estão a evoluir.
Uma ideia que tem sido discutida ultimamente é a de que os serviços financeiros estão cada vez mais presentes no nosso quotidiano, muitas vezes sem estar associados a um banco físico. Ou seja, o banking começa a acontecer “em todo o lado”: nos telemóveis, em plataformas digitais, em sistemas de pagamento integrados e em serviços financeiros que funcionam em segundo plano.
Para países como Cabo Verde, esta evolução representa uma oportunidade significativa. A digitalização financeira pode facilitar pagamentos, melhorar a inclusão financeira e reduzir custos de transação, fatores particularmente relevantes numa economia aberta, fortemente ligada à diáspora e dependente de fluxos financeiros internacionais, como as remessas.
Nos últimos anos, o sistema financeiro cabo-verdiano tem feito progressos importantes no processo de modernização e digitalização. A adoção crescente de serviços bancários digitais e sistemas de pagamento eletrónicos mostra que o país está atento às transformações globais no setor financeiro. Contudo, esta evolução também levanta novas questões:
- Onde está realmente localizada a decisão financeira, se cada vez mais decisões financeiras, como concessão de crédito, avaliação de risco ou autorização de pagamentos, passam a ser automatizadas ou baseadas em dados e algoritmos?
- E, mais importante ainda, quem controla essa decisão?
Quando os serviços financeiros passam a estar integrados em plataformas digitais e sistemas automatizados, a intermediação financeira torna-se mais difusa. Isto pode trazer ganhos de eficiência, mas também exige uma atenção crescente à governação do sistema financeiro.
Para instituições financeiras, o desafio passa por integrar novas tecnologias sem comprometer a gestão prudente do risco. Para reguladores e supervisores, como o Banco de Cabo Verde, o desafio é garantir que a inovação financeira ocorra de forma compatível com a estabilidade do sistema e com a proteção dos utilizadores. Num sistema financeiro cada vez mais digital, a supervisão e a governação tornam-se ainda mais relevantes.
A adoção de tecnologias como inteligência artificial e análise avançada de dados pode melhorar a eficiência e ampliar o acesso aos serviços financeiros. Mas, a verdadeira questão estratégica não é apenas tecnológica: é saber como garantir que as decisões financeiras continuem transparentes, responsáveis e bem supervisionadas.
Para uma economia como a de Cabo Verde, pequena, aberta e profundamente integrada em fluxos financeiros internacionais, manter a confiança no sistema financeiro é essencial. Em última análise, o futuro do setor financeiro não dependerá apenas da tecnologia disponível, mas da capacidade das instituições financeiras, dos reguladores e dos decisores públicos de governar adequadamente um sistema financeiro cada vez mais digital e interligado.
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