Denise Resende*
Há uma pergunta incómoda que raramente fazemos em voz alta: Quão livre é o voto de quem não sabe se vai comer amanhã?
Em períodos de campanha, multiplicam-se promessas, apoios e ajudas “pontuais”. Sacos de comida, facilidades, favores, soluções rápidas para problemas antigos. À primeira vista, parece cuidado. Parece proximidade. Parece resposta. Mas nem sempre é.
Existe uma linha, muitas vezes invisível, entre apoiar e condicionar. Essa linha é ultrapassada quando o acesso ao básico deixa de ser um direito e passa a depender de quem está no poder. É neste ponto que o assistencialismo deixa de ser apenas questionável e passa a ser um problema democrático.
Não, o problema não é ajudar. O problema é como, quando e com que intenção se ajuda.
Quando a ajuda surge estrategicamente em tempo de campanha, é seletiva, cria vínculos de lealdade ou carece de transparência, já não estamos perante política social. Estamos perante influência. E sejamos honestos: a influência funciona. Funciona onde dói.
Num país onde muitas famílias vivem em fragilidade económica, o voto não acontece num vazio. Acontece num contexto de necessidade real, urgente, diária. E a necessidade condiciona.
A psicologia é clara: quem vive em escassez não decide com a mesma liberdade de quem tem estabilidade. Decide com base no imediato, na sobrevivência, na redução do risco. Não é falta de consciência. É contexto.
Assim, quando alguém recebe hoje o que garante o jantar de amanhã, a escolha no boletim de voto deixa de ser apenas política. Torna-se inevitavelmente emocional e prática. Gratidão. Medo de perder o apoio. Pressão social. Proximidade. Tudo isso pesa. E pesa mais do que qualquer programa eleitoral.
Em Cabo Verde, esta realidade ganha contornos ainda mais sensíveis. Somos um país pequeno, de relações próximas, onde “quem ajuda” tem rosto, nome e presença. Isso torna tudo mais complexo e mais perigoso. Não é necessário pedir voto em troca. Basta criar dependência. E quando o voto nasce da dependência, a democracia fica comprometida, mesmo que tudo pareça formalmente correto. Não se trata de ilegalidade. Trata-se de integridade.
Uma democracia não se mede apenas pela existência de eleições. Mede-se pela liberdade real de escolha. E essa liberdade desaparece quando há medo de perder o pouco que se tem.
O assistencialismo perpetua ciclos. Mantém pessoas presas ao imediato. Desvia o debate político das ideias para benefícios. E, no limite, transforma cidadãos em beneficiários agradecidos, em vez de sujeitos de direitos. E isso devia incomodar-nos mais.
Enquanto aceitarmos isto como normal, estaremos a legitimar uma democracia frágil, onde nem todos escolhem em igualdade de condições. A solução não é deixar de apoiar. É deixar de usar o apoio como ferramenta de poder.
Políticas sociais fortes, estruturadas, transparentes e universais não são um luxo, são condição para uma democracia saudável. Quando a sobrevivência deixa de estar em jogo, a liberdade começa, de facto, a existir. E, enquanto houver quem vote para garantir o hoje, o amanhã da democracia continuará em risco.
*Psicóloga, orientadora parental e especialista em proteção infantil, com intervenção em contextos comunitários e contributo em iniciativas de advocacy e políticas de proteção da criança em Cabo Verde.
