Arlindo Nascimento Rocha
“O principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que outras gerações fizeram.” – Jean Piaget.
“Na educação, a marca mais elevada do sucesso não é ter imitadores, mas inspirar outros a irem além” – Seymour Papert
Jean Piaget e Seymour Papert são duas referências centrais no campo da educação, por representarem, respectivamente, duas das correntes pedagógicas mais influentes do século XX: o construtivismo e o construcionismo. Como se depreende das epígrafes que inauguram este artigo, ambas as correntes de aprendizagem rompem radicalmente com os modelos tradicionais pautados na mera transmissão unidirecional e na reprodução mecânica do conhecimento.
Em Piaget e Papert, a educação é entendida como um processo eminentemente ativo, criativo e transformador, no qual o aluno aprende a interagir dinamicamente com o mundo, a problematizá-lo de maneira reflexiva e a reconstruí-lo de forma contínua e interativa. Essa visão desloca o epicentro pedagógico do professor como detentor do conhecimento para o aluno como construtor da sua própria aprendizagem.
Piaget, ao formular o construtivismo, destacou de maneira seminal que o conhecimento não constitui uma cópia passiva da realidade externa, mas uma construção progressiva e endógena resultante da interação dialética entre sujeito/aluno cognoscente e o objeto de conhecimento. Aprender, nesse paradigma epistemológico, implica necessariamente mudança estrutural, desequilíbrio cognitivo e reorganização das estruturas mentais preexistentes.
Em sua riquíssima obra, Piaget apresentou e desenvolveu o construtivismo, revolucionando a compreensão sobre a formação do conhecimento ao afirmar que este é construído pelo aluno por meio dos processos cognitivos fundamentais de assimilação e acomodação. A assimilação consiste na integração de novas informações ou experiências em estruturas mentais prévias, enquanto a acomodação ocorre quando tais estruturas são reorganizadas e adaptadas para se ajustarem a novos dados ou desafios experienciais.
A aprendizagem, segundo ele, resulta do equilíbrio dinâmico entre esses dois movimentos complementares, revelando que o conhecimento não é algo a ser recebido de forma passiva, mas algo a ser elaborado internamente pelo aluno em interação com o ambiente.
Essa visão epistemológica coloca o aluno no centro do processo educativo, registrando-o como agente principal de sua própria aprendizagem e responsabilizando-o pelo desenvolvimento contínuo de suas estruturas cognitivas. Trata-se de uma responsabilização que não isola o aluno, mas o situa em um contexto de interações progressivas com o mundo físico, social e simbólico.
Seymour Papert, discípulo direto de Piaget e um dos pioneiros na interface entre educação e tecnologia digital, amplia de forma inovadora essa concepção construtivista ao propor o construcionismo. Para ele, aprender implica primordialmente construir algo significativo e tangível: um projeto concreto, uma ideia articulada, uma solução prática ou um artefato que materialize o pensamento abstrato e dê visibilidade externa ao processo cognitivo interno.
O uso da tecnologia, nesse contexto epistemológico-pedagógico, não se configura como um fim em si mesmo, mas como um meio poderoso para potencializar a autoria intelectual, testar hipóteses empíricas, simular cenários complexos e promover o pensamento criativo divergente.
Papert defende convictamente que os alunos, e, por extensão, todas as pessoas, aprendem com maior facilidade quando estão envolvidos em atividades que lhes permitem produzir algo com valor pessoal, social ou funcional. Esse princípio construcionista aproxima-se de uma visão transformadora da aprendizagem, ao identificar no ato de construir, seja de forma material ou simbólica, um espaço privilegiado para a aprendizagem significativa. Trata-se de um traço comum que aproxima as metodologias ativas, como a Abordagem por Competências (APC), de Perrenoud, o Método de Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), de Barrows, e a Teoria das Múltiplas Inteligências, de Gardner, discutidas nos artigos anteriores.
são metodologias ativas centradas no aluno e convergem diretamente com a PDM, pois exigem adaptação contínua, reflexão crítica e capacidade de mobilizar saberes em contextos incertos. Ambas promovem autonomia, resolução de problemas reais e aprendizagem significativa, articulando pensar e agir num movimento permanente. Nesse espaço, o aluno não absorve o conhecimento de maneira passiva, mas transforma-se em si próprio através da autoria reflexiva e da ação intencional sobre a realidade.
É nesse horizonte teórico robusto que se insere a proposta da PDM, entendida como uma abordagem pedagógica e epistemológica que valoriza de maneira central a transformação constante do aluno, do conhecimento em si e das práticas educativas como um todo. Ao dialogar criticamente com Piaget e Papert, a PDM propõe a aprendizagem como um processo aberto, dinâmico e historicamente situado, orientado não pela repetição acrítica, mas pela capacidade de criar, reinventar e ir além das fronteiras conhecidas. Isso se aplica especialmente a um mundo cada vez mais incerto, complexo e ambíguo, onde as certezas que outrora funcionavam como portos seguros hoje se mostram precárias e constantemente sujeitas à revisão crítica e à reformulação.
Nesse contexto transformador, aprender passa a significar o desenvolvimento de competências cognitivas (para processar informações), metacognitivas (para monitorar o próprio pensamento) e socioemocionais (para navegar nas relações interpessoais), que permitem ao aluno lidar de forma resiliente com a incerteza, a mudança acelerada e a multiplicidade de perspectivas concorrentes. Elementos como o erro construtivo, o conflito cognitivo deliberado e a experimentação interativa emergem como constitutivos essenciais do processo educativo, atualizando a busca por aprendizagens significativas, críticas e transformadoras.
A PDM, enquanto proposta disruptiva, surge como um modelo epistemológico e pedagógico que procura responder diretamente aos desafios de um mundo marcado pela complexidade VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo), pela incerteza ontológica e pela atualização das transformações tecnológicas, culturais e sociais.
Ela desloca o foco pedagógico do acúmulo de conteúdos fragmentados para a formação de alunos epistemicamente ativos, capazes de aprender a aprender de forma autônoma, de reconstruir saberes obsoletos e de intervir criativamente na realidade em transformação permanente. No centro dessa abordagem está a premissa fundamental de que o conhecimento não é estático, nem se apresenta como um conjunto fechado de verdades a serem transmitidos passivamente; pelo contrário, constitui um processo em permanente construção, no qual o aluno desempenha um papel ativo, reflexivo e criador, em diálogo constante com o contexto histórico, social e tecnológico.
Neste sentido, tanto o construtivismo de Piaget quanto o construcionismo de Papert fornecem bases teóricas robustas e complementares para compreender a aprendizagem como um processo aberto e orientado para a autonomia plena do aluno, alinhando-se perfeitamente aos princípios estruturantes do PDM. A convergência epistemológica entre essas abordagens torna-se evidente quando se observa que todas sustentam, de maneira unânime, a centralidade do aluno como protagonista, a valorização da atividade intelectual, o reconhecimento de que o erro integra o processo educativo e a locação de que aprender implica interagir com o meio, com a tecnologia e com os outros atores sociais e com as próprias ideias em elaboração.
A PDM incorpora esses elementos de forma orgânica ao enfatizar que a aprendizagem, em um mundo marcado pela mutabilidade radical, exige assuntos capazes de adaptar modelos mentais flexíveis, lidar proativamente com a incerteza, integrar novos conhecimentos de fontes diversas e reconstruir continuamente aquilo que sabe ou creem saber. Ao incorporar esses elementos fundamentais, a PDM expande essa lógica epistemológica ao inserir a mutabilidade como princípio estruturador primordial, reconhecendo que a construção do conhecimento é um processo sem ponto final, sempre aberto à revisão e à interação, tal como as transformações sociais que moldam o presente e projetam trajetórias futuras incertas.
Assim, Piaget fornece ao PDM as bases sólidas da construção cognitiva interna do conhecimento, centrada no equilíbrio individual, enquanto Papert oferece o contributo prático-tecnológico da construção externa, visível, autoral e intuitiva, dois movimentos dialéticos que se complementam e reforçam mutuamente num continuum pedagógico.
Apesar dessas convergências profundas e promissórias, é necessário refletir sobre a forma crítica de algumas especificidades desses dois modelos pedagógicos. A visão piagetiana, ao focar-se na estrutura cognitiva individual e em atualizações universais de desenvolvimento, certamente, pode desconsiderar dimensões sociais, emocionais e culturais da aprendizagem que se revelam essenciais na contemporaneidade globalizada e interconectada. Já o construcionismo de Papert, ao promover intensamente a utilização de tecnologias digitais como mediadoras, pode encontrar limitações significativas em contextos socioeconômicos desiguais, com acesso desigual a recursos tecnológicos, e enfrentar o risco concreto de transformar a tecnologia de um meio pedagógico para um fim consumista em si mesmo quando mal aplicada ou sem orientação crítica.
A PDM, ao articular essas abordagens complementares, enfrenta igualmente o desafio de evitar práticas pedagógicas pontuais, isoladas ou meramente instrumentalizadas, devendo manter o foco inabalável na reflexão crítica profunda, na ética aplicada e na formação integral do sujeito em todas as suas dimensões. É fundamental que as instituições escolares não reduzam a PDM a metodologias superficiais ou modismos transitórios, mas que se integrem como uma visão ampla, coerente e sistêmica sobre a aprendizagem em tempos de mudança acelerada e imprevisível.
A médio e longo prazo, a estratégia estratégica entre a PDM, construtivismo e construcionismo pode gerar práticas educativas mais responsáveis e adaptativas, centradas na autonomia intelectual, na criatividade generativa e na capacidade de resolver problemas complexos e sem soluções definitivas. A educação se torna, assim, um campo de experimentação consciente e ética, no qual o aluno aprende não apenas a pensar de forma crítica, mas a agir de maneira transformadora e a transformar-se enquanto constrói o mundo que habita e co-cria.
Para fortalecer este modelo pedagógico e epistemológico de maneira sustentável, reforçamos e recomendamos vivamente o investimento prioritário na valorização profissional e na formação contínua dos professores, capacitando-os como mediadores reflexivos; na criação de ambientes educativos flexíveis, colaborativos e tecnologicamente incluídos; na promoção de projetos integradores que articulem disciplinas e realidades concretas; e na incorporação ética e crítica das tecnologias digitais, com ênfase em alfabetização digital e prevenção de vieses algorítmicas.
A PDM, ao dialogar de forma fecunda com Piaget e Papert, consolida-se como uma abordagem contemporânea e visionária, profundamente alinhada com as necessidades imperativas de uma sociedade em transformação permanente. Reconhece que aprender é, em essência, construir, reconstruir e transformar de maneira incessante, e que cada aluno representa um ser inacabado, em processo contínuo e dialético de desenvolvimento pessoal e coletivo.
Neste quadro epistemológico e pedagógico, educar significa criar condições estruturais e culturais para que este processo ocorra de forma autônoma, crítica, criativa e ética, uma tarefa árdua que exige não apenas métodos inovadores, mas uma visão educativa sensível ao tempo presente, às suas contradições e às exigências do futuro emergente.
