Nelson Faria
A vivência em coletividade, especialmente no contexto das organizações, exige um exercício constante de autocrítica e desapego. Quando permitimos que a miopia pessoal, o ego e o orgulho ditem as nossas ações, comprometemos não apenas o nosso crescimento, mas a própria viabilidade do todo. Estas forças, embora intrínsecas à natureza humana, são frequentemente as maiores barreiras ao desenvolvimento de coletividades saudáveis e resilientes.
A miopia pessoal manifesta-se na incapacidade de ver além da nossa própria perspetiva ou interesse imediato. Nas organizações, isto traduz-se numa resistência em aceitar decisões que, embora validadas democraticamente pela maioria, não coincidem com a nossa visão individual. A maturidade organizacional exige que saibamos a que “família” pertencemos e que valores defendemos. Se o objetivo é o bem comum, a aceitação do resultado democrático não é uma derrota, mas um ato de integridade e respeito pelo coletivo.
“O ego entende a democracia como a imposição do ‘eu acho’, enquanto a consciência coletiva a entende como o respeito pelo ‘nós decidimos’.
Muitas vezes, o antagonismo que nutrimos por um par ou por uma decisão da organização é mais um sintoma do nosso orgulho ferido do que uma dissonância real com os valores da coletividade. É imperativo questionarmo-nos: até que ponto estamos dispostos a ir para “aniquilar” aqueles que partilham a nossa mesma base de valores apenas para provar que temos razão? Quando o desejo de prevalecer individualmente supera o desejo de ver a organização prosperar, o ego já começou a comprometer o futuro do todo.
Em última análise, a forma como o nosso ego entende a democracia revela o nosso verdadeiro compromisso com a organização. A democracia nas organizações não é o triunfo do “o que eu quero”, mas a salvaguarda do que a maioria definiu como o melhor caminho, mesmo que este seja de uma corrente diferente da nossa. Respeitar a maioria é um exercício de humildade que reconhece que a inteligência coletiva é, quase sempre, superior à visão isolada de um único indivíduo.
Para que uma organização se desenvolva é necessário que cada membro saiba colocar o propósito comum acima das suas idiossincrasias. O orgulho pode construir monumentos ao indivíduo, mas apenas a abdicação do ego em favor do coletivo consegue construir instituições duradouras.
