Erika Melo
“Este ano eu vivi pela primeira vez a experiência de torcer pelo meu país na Copa do Mundo! O meu próprio país, aquele que me viu nascer, crescer, partir e voltar. Não sei explicar esta emoção. Uma emoção que há muito deixara de acreditar que pudesse voltar a sentir.”
Eu cresci a torcer pelo Brasil no Mundial. A minha família inteira torcia pelo Brasil e eu, naturalmente, torcia também. Em Cabo Verde crescemos com as novelas dentro de casa – Tieta, Pedra Sobre Pedra, A Indomada, Rainha da Sucata, Mulheres de Areia e por aí vai. E com isso, nós brincávamos “em brasileiro” – a falar o português com sotaque do Brasil.
Mais tarde, após 8 anos a viver em Lisboa, naturalmente ganhei um carinho especial por Portugal e passei a torcer também por eles. Sou fã do Cristiano Ronaldo e não entendo aqueles que o criticam, o homem que gritou o nome do seu país aos sete ventos e que, mesmo com as limitações da idade, continua a marcar golos. Na minha honesta ignorância sobre o mundo do futebol, não é isso que conta, afinal?
Mas este ano eu vivi pela primeira vez a experiência de torcer pelo meu país na Copa do Mundo! O meu próprio país, aquele que me viu nascer, crescer, partir e voltar. Não sei explicar esta emoção. Uma emoção que há muito deixara de acreditar que pudesse voltar a sentir.
Em 2013 torci por Cabo Verde com esta mesma intensidade e com todas as minhas forças, mas fomos desqualificados por um erro administrativo e voltamos para casa, à beira do Mundial, com o pé na porta… houve quem dissesse que a própria FIFA era contra a nossa qualificação, pois não vendíamos bilhetes suficientes, não enchíamos um estádio. País pequeno, pouca gente, poucos recursos…
Foi então que deixei de acreditar. Parei de assistir aos jogos, deixei de me envolver, porque não fazia mais sentido. E, de repente… lá chegámos! Torcer pelo teu país num Mundial e ver o seu nome ser reconhecido pelo mundo inteiro…
O Brasil — aquele mesmo Brasil da minha infância que eu conhecia do avesso (mesmo sem por lá os pés), que vivia de longe, mas cujo sentimento não era recíproco, porque afinal, onde fica Cabo Verde? Há mapas em que sequer existimos! E hoje, vi aquele país inteiro, de milhões de habitantes a torcer por nós, “tirar um mutirão” por nós, como dizem eles. E vi crescer os meus. Os nossos.
E que bom que é ver crescer os nossos! Rapazes humildes, batalhadores a ganhar jogos sem agressividade e com um fair play que pouquíssimas vezes vi dentro do campo… o meu marido dirá que não vejo futebol, e é verdade. Mas acredito que concordará comigo nesta frase!
O Vozinha tornou-se o nosso Deus, o nosso Cristiano Ronaldo, o nosso Messi, o nosso Pelé, o nosso Maradona. Aos 40 anos! Imaginem o que teria feito se tivesse tido as oportunidades que tantos outros tiveram desde muito pequenos.
Somos um país pequeno, com poucos recursos. Não há orçamentos para escolas de futebol, campos relvados, bolas ou equipamentos. É tudo à custa das famílias e dos grandes apaixonados pelo futebol, que fazem o possível e o impossível para vencer as adversidades e manter vivo o futebol e o desporto no nosso país. E o mesmo se aplica ao basquet, à ginástica, ao andebol e a tantas outras modalidades.
Que este Mundial traga, com toda a visibilidade que nos deu, mais investimento no nosso país, distribuído de forma justa pelas 9 ilhas habitadas, e mais recursos para criar condições que permitam formar aqueles que amanhã poderão ser gigantes e elevar ainda mais o nome de Cabo Verde, para que seja reconhecido nos quatro cantos do planeta.
Até aqui, já vencemos – a Espanha, o Uruguai, a Arábia Saudita, a Argentina e o Mundial inteiro! Chegar onde chegámos é um sonho que se tornou realidade!
