– David Leite –
1. A viagem mais feliz de DSP
Domingos Simões Pereira jamais esquecerá o dia em que partiu da sua cela de prisão na 2a Esquadra de Bissau e aterrou, livre, no aeroporto de Lisboa! Essa foi, sem dúvida, a viagem mais feliz da sua vida.
O líder do PAIGC é o rosto da da oposição na Guiné, por isso o principal alvo do regime militar saído do falso golpe de estado de 26 de novembro do ano passado. O suposto “golpe” não passou de uma “inventona” velhaca e grotesca para impedir a divulgação dos resultados das eleições realizadas três dias antes… quando tudo apontava para a vitória do candidato investido pelo PRD, Fernando Dias da Costa, também ele detido durante algum tempo.
Preso na sua própria terra pelos usurpadores do poder, DSP volta a respirar a liberdade… na terra do colonizador d’outrora! Esta nossa África é um condensado de absurdos e contrassensos.
Não foi por sua livre vontade que o Alto Comando Militar resolveu dar uma de humanista. Reagiu a contragosto, e foi preciso uma prescrição médica atestando que o líder do PAIGC necessitava de tratamento de saúde, não na Guiné (credo, salvo seja!) mas em Portugal.
Ao fazê-lo, o governo autista de Bissau pôs a nu mais um injusto paradoxo desta nossa mãe-África: o povo morrendo por falta de saúde, e os seus dirigentes a serem tratados nos melhores hospitais das antigas metrópoles coloniais!
Mas ainda há pior: pior é ver pessoas defendendo, por fanatismo, ladrões e corruptos de turbante e colarinho branco! Ainda há quem defende e aplaude um ex-presidente que embarca para o seu exílio dourado com 5 milhões de euros numa mala!
2. Golpe de estado ou golpe de teatro
Esse é que foi um atestado médico providencial para DSP que foi mantido na prisão (carceral ou domiciliária) desde o fictício golpe de estado. Todos os apelos à sua libertação chocaram com a prepotente recusa dos putschistas que não se incomodam de viver em autarcia, sem escutar ninguém, orgulhosamente sós no mundo… como um certo Salazar no seu tempo. Numa retórica claramente antidiplomática, já praguejaram contra a CPLP, contra Timor-Leste e seus respeitáveis dirigentes, nomeadamente Ramos Horta e Xanana Gusmão! Já se indispuseram contra os governos de Angola e Cabo Verde…
Mas, se é certo que a comunidade internacional condenou o falso golpe (diplomatie oblige), as tais gesticulações diplomáticas não passaram de… gesticulações. Aqueles que podiam ter feito pressão sobre o novo regime de Bissau, ou não o fizeram ou fingiram fazer. Outros, assobiaram para o lado. Não se pode tirar o chapéu à CPLP! Nem à CEDEAO! Da União Africana pouco se fala. Não houve grande pressão de governos individuais. Pode-se dizer que a Guiné-Bissau ficou entregue à sua sorte.
A obstinação do regime militar não deixava prever uma libertação de DSP neste momento… mas também não havia interesse em fazer dele um mártir atrás das grades! E este final feliz talvez não seja tão “final” assim, já que impende sobre DSP uma injunção de se apresentar à “justiça” guineense no prazo de três meses. Ora, DSP já declarou que voltará para responder em tribunal militar! E será julgado por golpistas por… alegada cumplicidade em suposta tentativa de golpe de estado! Ai dos vencidos quando a força fala mais alto que a razão!
3. Os militares continuam a dar as cartas
Dá para entender? Na Guiné, dá! É que na Guiné mandam os militares, não os políticos. A não ser os mais manhosos e maquiavélicos, como o buliçoso Umaru Sissoco Embaló, capaz de orquestrar um auto-golpe para neutralizar a oposição e deixar airosamente o poder! USE não foi detido pelos “golpistas”, não se esgueirou pela porta dos fundos – partiu em grande, sem ser molestado, deixando o poder nas mãos dos seus sequazes e companheiros de armas. E, à distância, manipula os cordelinhos das suas marionetes fardadas no palácio de Bissau!
Mas USE não é apenas político – não é DSP ou FDC. É também general do exército, como foi outrora o Nino Veira que tanto admira. Tanto que mandou transladar as cinzas do Nino para o panteão dos heróis nacionais, junto à urna de Amilcar Cabral!
Porém, na Guiné, mesmo os generais que se aventuram nas lides políticas devem saber que as armas ecoam longe e que não convém baixar a guarda. Nino Veira, pupilo de Cabral, herói da independência e vilão por efeito do poder, pagou o preço do sangue! Como Veríssimo Correia Seabra ou Ansumane Mané…
4. Epílogo: novas eleições, nova Constituição
O regime militar de Bissau já anunciou novas eleições para 6 de dezembro. Antes disso, o povo é chamado a referendar uma nova Constituição, dando poderes acrescidos ao Presidente da República. Será no dia 30 de agosto.
Entretanto, os militares continuam a dar as cartas, o povo encolhe-se e a oposição apenas dá a cara. Claro que um golpe de estado libertador, como o 25 de abril, teria de partir das Forças Armadas que, infelizmente, já são o cancro da a Guiné-Bissau! Sampê, ramed d’sampê..
