Adolfo Lopes
Introdução Editorial:
Em tempos de “descolonização mental”, as relações Sul-Sul, particularmente entre territórios insulares, começam a assumir novas formas, ainda que num ritmo relativamente lento. Para Cabo Verde, esta aproximação assume uma importância particular. Ao assumir, em 2027, a presidência da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS)[1], o país terá também a oportunidade de reforçar os seus vínculos com outras sociedades insulares, aproximando experiências históricas, desafios contemporâneos e visões de futuro.
Parafraseando o verso de uma conhecida canção, somos simplesmente: “10 padisinhe de txon ta boiá na mar”. Se ontem estas experiências contribuíram para o surgimento de novos povos, identidades e formas de pertença, quase como uma “profecia eclesiástica” que atravessa o tempo, hoje encontramos novos desafios que igualmente nos aproximam: as alterações climáticas, o desenvolvimento sustentável e a exclusão tecnológica, entre outros de muitos desafios.
Magma
A Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS) surgiu em 1990 com o propósito de dar maior voz aos pequenos Estados insulares nas negociações internacionais. Reunindo atualmente 39 Estados, incluindo Cabo Verde, a Aliança atua sobretudo nas áreas das alterações climáticas, do desenvolvimento sustentável e da proteção dos oceanos.
É neste sentido que organizações desta natureza ganham particular importância: permitem que pequenas ilhas, quando unidas, façam ouvir uma voz coletiva mais forte no cenário internacional. Uma participação cada vez mais ativa de Cabo Verde poderá favorecer a aproximação e a partilha de experiências com outros Estados insulares, incluindo Maurícias, Seychelles e Singapura. Mais do que uma opção, esta aproximação pode ser entendida como uma necessidade estratégica, sobretudo perante uma das maiores ameaças comuns aos Estados insulares: as alterações climáticas e a subida do nível do mar. Em Cabo Verde, os riscos já são visíveis. Segundo o Banco Mundial[2], a ilha do Sal é atualmente a ilha com maior exposição: 33% da sua área costeira urbanizada está exposta a inundações costeiras, percentagem que poderá ultrapassar os 38% até 2050 num cenário de elevado aquecimento.
Vulcão submarino
A condição insular coloca desafios particulares ao desenvolvimento: escassez de recursos, vulnerabilidade ambiental, dependência energética e exposição às alterações climáticas. A estes desafios junta-se hoje o risco de exclusão tecnológica, capaz de aprofundar as desigualdades entre pequenas ilhas e o resto do mundo. O verdadeiro desafio será transformar a condição insular num laboratório de soluções para o futuro. Energias renováveis, gestão da água, economia azul, turismo sustentável e, cada vez mais, acesso à tecnologia e ao conhecimento digital serão determinantes para que nenhuma ilha fique à margem da transformação global. Porque, numa época em que a distância já não se mede apenas em quilómetros, a exclusão tecnológica pode criar uma nova forma de insularidade: estar ligado ao mundo, mas não conseguir acompanhar o seu ritmo.
Novas Erupções
Para novas erupções, precisamos, antes de mais, de assumir uma identidade comum, uma identidade particularmente nossa: uma “identidade insular”. Não precisamos ser iguais para nos reconhecermos como parte de um mesmo destino. Se conseguirmos transformar essa consciência numa força coletiva, poderemos construir uma capacidade de pressão comparável à força de um tsunami, não para confrontar, mas para exigir do Norte Global compromissos mais claros e efetivos na redução das emissões de gases com efeito de estufa e mecanismos justos de financiamento e compensação que permitam aos pequenos Estados insulares responder às consequências das alterações climáticas.
Existe aqui uma profunda questão de justiça climática, que deve ser uma pauta para o qual todos nós devemos lutar. Contribuímos pouco para a acumulação histórica das emissões globais, mas estamos entre os territórios mais expostos às suas consequências, suportando custos económicos, sociais e ambientais que não provocámos.
Talvez seja chegada a hora de transformar a nossa vulnerabilidade numa voz ativa e verdadeiramente escutada, capaz de romper a opacidade com que as nossas realidades são tratadas no sistema das Nações Unidas. As nossas ilhas sozinhas, podemos ser pequenas perante a dimensão dos desafios; porém, juntas, podemos transformar a nossa condição insular numa força. O oceano não precisa continuar a ser a medida da nossa distância, mas pode tornar-se a dimensão da nossa união, a nossa tradição oral resume esta frase na expressão popular: “Fartu ka ten dor di fomentu”.
[1] Rádio Televisão de Cabo Verde. (2026, 24 de setembro). Cabo Verde assume presidência da Aliança dos Pequenos Estados Insulares em 2027. RTC. https://www.rtc.cv/noticia/noticia-details/cabo-verde-assume-presidencia-da-alianca-dos-pequenos-estados-insulares-em-2027-14823
[2]World Bank. (2025). Cabo Verde country climate and development report. World Bank: https://documents1.worldbank.org/curated/en/099011425053533766/pdf/P500457-ab149c65-20d3-4583-bd20-e73fbf70a940.pdf?utm
