José Manuel Araújo
- evolução e consequências –
Neste novo contexto de centralismo e quando os descalços já tinham conquistado o direito legítimo de poder andar na Praça Nova com a sola dos pés no chão, eliminando assim a relativamente ténue estratificação vertical vigente (ténue porque S.Vicente não se forjou duma sociedade escravocrata mas sim originalmente operária), com a independência ocorre a intensa saída de quadros superiores para a capital que, repetidamente conjugada com a entrada de trabalhadores braçais, deu origem a uma estratificação horizontal no mínimo original, que teve como primeiras consequências, a alteração do perfil do sentido humorístico da cidade, o aumento da indisponibilidade de influenciação da ilha no contexto nacional e a perda do rigor na sua capacidade reivindicativa (muita quantidade e pouca qualidade) intrínseca, fragilizando-os.
Dessa emergente babel social difusa em sentimentos, interesses, desafios e comprometimento, resulta internamente uma espécie de desordem psicossocial de perspetivas, de consensos e/ou entendimentos, plasmada no espartilho da sociedade mindelense em quatro castas sociais definidoras do novo perfil da ilha.
(I) Casta dos mindelenses que, acreditando fielmente na existência duma alternativa de visão e organização do Estado e da sociedade cabo-verdiana capazes de romper com um centralismo que não disponibiliza nem promove a atenção, o respeito e o tratamento equilibrado e justo a todo o cidadão cabo-verdiano independentemente da parcela do território nacional onde vive. Aqueles que levantam bem alto o
estandarte duma descentralização (regionalização ou autonomia) honesta em defesa do compromisso inabalável e inadiável de amor e respeito por todas as ilhas, personificado em manifestações denunciatórias do cerco a que a própria ilha foi por isso votada. Esta casta, “combate” o centralismo;
(II) Casta dos não mindelenses que vivendo aqui nesta outra parte da terra deles e que é também Cabo-verde e que a partir daqui, oferecem a compreensão e o respeito por esta luta, a amizade e as participações cívicas e críticas construtivas que qualquer ilha do país merece receber, contribuindo desta forma para o reforço do tecido social. Esta casta, “apoia conscientemente o fim” do centralismo;
(III) Casta dos conhecidos equilibristas mindelenses residentes em qualquer lugar e que, por desprovimento espiritual, dispensam nomenclaturas de modo a resguardarem-se do risco de erosão de notoriedade, alheando-se de forma oportunista de tudo o que de grave se passa com a sua própria ilha ou até fazendo uso precipitado de críticas vulgares e mal fundamentadas, como forma covarde de se distanciarem da chuva de rótulos a que indiscriminada, inteligente e gratuitamente a máquina centralizadora tenta colar a imagem dos são-vicentinos e se possível com esta postura, ganharem uns segundinhos da graça do aparelho centralizador. Esta casta, “ajuda inconsciente e covardemente” o centralismo;
(IV) Casta dos mindelenses que guiados por interesses individualistas, como a perspetiva duma carreira político-partidária, ou de simples reconhecimento no seio da sua organização de estimação ou noutra esfera qualquer, por uma quantas vezes estéril e intestinal luta entre partidos, se silenciam cúmplices e cruelmente até à morte perante o mais importante, mesmo vendo morrer a sua ilha, quando muitas vezes relativamente bem posicionados para interceder, lavam as mãos. Esta casta, “estende conscientemente tapete vermelho” ao centralismo.
Perante este cenário emergente, pode-se entender que o sucesso da luta mindelense contra um centralismo empobrecedor de almas, só será possível se ela estiver associada ao comprometimento duma desafiante tarefa de alinhamento, convergência e pacificação das referidas castas nas suas divergências forjadas nesta já em certa medida debilitada sociedade de são-vicentinos, porque estratificada socialmente com este estranho e quase inconciliável figurino.
Se um dia, o quórum da sociedade mindelense conseguir partilhar e formatar entre as diversas castas, uma consciência coletiva sobre a instalação no país dum centralismo controlador de vontades e influenciador de narrativas, ela ficará razoavelmente bem apetrechada para o êxito duma luta coletiva com o intento de corrigir os aspetos impeditivos do verdadeiro e pleno progresso para a ilha e para o país.
Em período de carnaval, vale o refrão duma música do grupo Cruzeiro do Norte que diz, “na luta do bem contra o mal, o bem acaba sempre por vencer”. Por isso, S. Vicente tem de se mostrar de espírito aberto para se reinventar, investindo duma hercúlea vontade e disponibilidade de união, atitude essa que terá de passar inevitavelmente pelo comprometimento responsável das diferentes castas tão diversas quanto dispersas, empoderando-se umas às outras para a mesma causa, com a mesma bandeira – o combate ao centralismo – mantendo sempre bem clara no horizonte a consciência lúcida de que tem sido esta união que fortalece, o cirúrgico e principal alvo do centralismo.
