José Manuel Araújo
O contributo deste texto é fruto duma observação de fatos e fenómenos, permanente e atenta, lógica e racional, e, que a ter de caber neste reduzido espaço, é por consequência e à primeira vista, portador dalgum subjetivismo a se ter em conta. Assim, os resultados dessa observação, não sendo conclusões científicas e nem pretendendo responder a todas as preocupações, podem, entretanto, assumir o papel de fonte documental a quem, portador de legitimidade académica especializada, também considere como relevante e inadiável o aprofundamento deste tema no nosso país.
A estratificação social varia de sociedade para sociedade por razões diversas, como as raciais, económicas, religiosas, tribais ou outras. Sendo que o que interessa neste texto é o momento atual de S. Vicente e principalmente, como nele chegou, en passant recordamos que no tempo colonial, um descalço não podia caminhar na Praça Nova. Havia alguns seres humanos que se consideravam superiores a outros, porém, se entendermos essa desprezível atitude como pertença duma época de quase total isolamento e consequente obscurantismo, pode-se interpretar que a intensão não era tão evidentemente maldosa, mas antes, fruto de enorme ignorância de gente que entendia honestamente na variedade genética, uma validação da condição de ser humano.
Muitos acreditaram que a luta de libertação nas terras da Guiné, entre outras frentes de reposição da dignidade dos cabo-verdianos, traria também uma resposta a este problema, agora num país novo, do século XX, longe do isolamento, do obscurantismo e da ignorância.
No entanto, nos finais dos anos 70 e já país independente – há dados -, começaram a surgir os primeiros sinais duma tentação, ainda sem evidências de premeditação, de que algo poderia estar se desviando daquele sonho dos cabo-verdianos de Santo Antão à Brava. E com uma velocidade estonteante acompanhada de permanentes discursos simultaneamente branqueadores e legitimadores, chegou-se ao estado do centralismo irracional implantado hoje no país ao fim de 50 anos.
A fuga do capital humano das outras ilhas para a Capital, de ato de solidariedade patriótica, rapidamente foi capturada como instrumento de nepotismo, primeiro disfarçado, depois descarado.
Neste inesperado contexto de centralismo desenfreado, frustrante relativamente às expetativas da luta pela independência, cada uma das restantes ilhas vive experiências próprias e particulares. Brava, cada vez mais invisível. S. Nicolau, cada vez mais isolada e despovoada. E S. Vicente, mas só dela, rapidamente sentiu na pele e no desalinhamento do seu percurso, os efeitos gravemente nocivos da nova realidade implantada no país, do que resultou logicamente uma reação própria e diferenciada das restantes ilhas, mas nem por isso
menos legítima.
De imediato e com uma inesperada astúcia que nem se enquadraria nos cânones de coisa imaginável, como resposta a essa reação mindelense a uma experiência não vivida pelas demais ilhas, a armadura centralista já implantada, inclusivamente nesse tempo com a comunicação social do Estado já inteiramente nas suas mãos e ao seu dispor, de forma inteligente, porém cínica e sorrateira, tratou de pôr em marcha a maior investida contra a imagem, a moral e o carácter de S. Vicente, inclusivamente jogando a seu favor com as diferentes aspirações e posições relativas de cada ilha no contexto nacional, conseguindo colocar por meio deste processo divisionista, alguma gente de muitas delas também contra S. Vicente.
Um desmedido e persistente assédio e desproporcionada violência, não propriamente motivados por um presumível ódio inexplicável como muita gente pensa, mas sim, mera estratégia para se atingir a verdadeira finalidade almejada e que consistiria unicamente, no enfraquecimento da credibilidade duma luta que no fim das contas, até competiria a todas as outras oito ilhas unidas numa só voz, mas que por razões diversas só S. Vicente assumira explicitamente. A inteligência centralista aproveitou dessa situação para semear a desconfiança e a discórdia no resto do país, para poder manter o statu quo de domínio absoluto.
E hoje, como resultado desta aparente e conveniente guerra sem dono e sem autoria, e deste turbulento e singular percurso pós-independência a que tem sido posta à prova diariamente, S. Vicente entrou num processo de degradação comportamental coletiva diferente do que seria naturalmente expectável.
Porém, insistindo em desafiar a frustração daqueles que não acreditando na existência duma reserva de pujança histórica e cultural como pilar da sua capacidade de resistência, admitiriam com a sua estratégia, a inevitabilidade da imediata capitulação de S. Vicente e consequentemente da sua capacidade de continuar a lutar contra o centralismo a bem de todo o país.
Continua…
