Este artigo não pretende esgotar o tema, mas sim servir como um catalisador para o debate público, chamando a atenção da sociedade para as lacunas do sistema educativo que urge corrigir em nome das futuras gerações.
Com a aproximação das eleições legislativas, o debate público é inundado por propostas educativas que, na prática, parecem ignorar os problemas de fundo do sistema. O que se tem observado ao longo dos anos é uma sucessão de reformas de cariz político, focadas na redução de custos e em ajustes de calendário, preterindo a eficácia pedagógica e o desenvolvimento integrado do país.
O desajuste começa nos anos iniciais: manuais escolares do ensino básico impõem textos complexos a crianças de 7 e 8 anos ainda em processo de alfabetização. No secundário, o cenário inverte-se para uma fragmentação excessiva. A redução da carga horária em disciplinas estruturantes como Matemática, Português, Inglês e Francês — justificada pelo Ministério da Educação como “flexibilização” — levanta dúvidas legítimas sobre a qualidade da aprendizagem. Como se espera maior proficiência com
menos tempo de prática?
A massificação do ensino, embora historicamente louvável, não pode ser confundida com sucesso educativo. Uma sala de aula com mesas e cadeiras não anula, por si só, as desigualdades sociais. Pelo contrário, o sistema atual muitas vezes cristaliza privilégios. O exemplo mais gritante reside nos “quadros de honra”, que frequentemente premiam não apenas o esforço do aluno, mas as condições económicas e o suporte familiar que outros, por carência, não possuem.
No centro desta crise estão os professores e funcionários administrativos que operam sem a devida valorização ou ferramentas essenciais. O resultado é um sistema refém das estatísticas. Priorizam-se as notas positivas para satisfazer uma sociedade sedenta de números, em detrimento do saber real. Enquanto a educação for tratada como uma folha de cálculo, e não como um projeto de desenvolvimento humano, o país continuará a formar jovens com diplomas, mas órfãos de competências para o “fazer, ser e estar”.
Pela gravidade do cenário, este é apenas o primeiro de vários alertas; insistiremos no assunto com denúncias e reflexões contínuas para que esta urgência não caia no esquecimento.
