Dignidade Humana, o nosso chão comum

Hélio Africano Querido Varela

“Human dignity is the foundational belief that all individuals possess an inherent, inalienable worth simply because they are human, regardless of age, status, ability, or background. It dictates that every person deserves respect and should never be treated merely as a means to an end”

Os últimos dias, o debate sobre o Sistema Nacional de Saúde de Cabo Verde tem sido marcado por uma polarização previsível, mas pouco útil e expondo uma criança, seu nome, suas imagens, enfim, sua família!

De um lado, surgem narrativas que descrevem o sistema como um fracasso absoluto. Do outro, levantam-se defesas quase incondicionais, suportadas em indicadores globais que, embora positivos, não contam toda a história.

A verdade, como quase sempre, está no meio, e exige mais responsabilidade coletiva.

É inegável que Cabo Verde tem um posicionamento relevante em África em dimensões críticas do acesso à saúde. Indicadores como mortalidade infantil, mortalidade materna ou esperança de vida colocam o país à frente de muitos contextos comparáveis. Isso não é acaso. É o resultado de décadas de investimento consistente, sobretudo ao nível dos cuidados de saúde primários. Devemos nos orgulhar de tal feito.

Mas há um erro recorrente que precisamos de evitar: transformar desempenho médio em prova de excelência universal.

Um sistema pode ser sólido na base e, ainda assim, apresentar fragilidades sérias nas áreas mais complexas, como a oncologia, a cirurgia especializada ou o diagnóstico avançado. E é precisamente nesses momentos que a qualidade do sistema é verdadeiramente testada.

O caso recente que mobilizou a opinião pública não deve ser usado nem como prova de colapso, nem como algo a ser relativizado com estatísticas. Deve ser encarado como aquilo que é: um sinal que merece ser compreendido com seriedade.

E aqui entramos num problema mais profundo da nossa sociedade: a dificuldade em lidar com falhas fora do campo político.

Em Cabo Verde, temos uma tendência preocupante para transformar rapidamente qualquer tema sensível num campo de batalha político. Questões que deveriam ser analisadas com base no “senso comum”, na evidência e na responsabilidade institucional passam, quase automaticamente, para a lógica de defesa e ataque.

E esse fenómeno tende a agravar-se em períodos como o atual, em plena contagem decrescente para um embate eleitoral que se prevê vir a ser tenso e pouco edificante, onde tudo ganha uma dimensão estratégica.

O resultado é ruído, ruido, ruido!!

Multiplicam-se vídeos, declarações, contra-declarações, anúncios de investigações. Muito fumo. E, no meio disso, perde-se o essencial: compreender o que aconteceu, identificar falhas (se existiram), responsabilizar e, sobretudo, garantir que o sistema evolui.

Importa dizer com clareza: o SNS de Cabo Verde não é uma desgraça, mas também não é um paraíso africano. É um sistema em construção, com conquistas relevantes e limitações reais.

E talvez o maior risco neste momento não seja a existência de falhas, mas sim a incapacidade de as discutir com maturidade. Porque sistemas fortes não são aqueles que não falham, são aqueles que conseguem reconhecer, aprender e corrigir rapidamente.

Se conseguirmos retirar este debate do campo da emoção política e colocá-lo no campo da responsabilidade técnica e institucional, então este episódio terá servido um propósito maior.

Caso contrário, será apenas mais um momento de ruído num país que precisa, mais do que nunca, de lucidez.

Entretanto paremos de expor esta criança e sua familia. A dignidade humana deve estar acima de tudo. “Human dignity is the foundational belief that all individuals possess an inherent, inalienable worth simply because they are human, regardless of age, status, ability, or background. It dictates that every person deserves respect and should never be treated merely as a means to an end.”

Estejamos fortes, unidos e inabaláveis na defesa da dignidade humana. Que seja este o nosso chão comum.

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