Silvino Rodrigues
Em democracias modernas, a alternância ou não de poder não é apenas um princípio institucional, é um sinal de maturidade política. Ainda assim, na prática, o fim de ciclos em cargos políticos e administrativos costuma ser marcado por resistência, tensão e, por vezes, conflitos silenciosos. Mas por que é tão difícil aceitar esse momento?
Aceitar o fim de funções políticas e públicas continua a revelar uma fragilidade persistente na nossa cultura política: há quem nunca tenha compreendido plenamente o que significa servir o Estado.
Em vez de transições naturais e serenas, assistimos com frequência a saídas adiadas, resistidas ou mal digeridas. O problema não é novo, mas permanece desconfortavelmente atual. E a sua raiz é simples: a confusão entre cargo e propriedade.
O apego ao poder continua a ser tratado com uma indulgência preocupante. Invocam-se argumentos como experiência, continuidade ou estabilidade, conceitos legítimos, mas frequentemente instrumentalizados para justificar permanências excessivas.
O recorrente argumento do “trabalho inacabado” tornou-se quase um cliché. Mas importa perguntar: quando é que o trabalho público está realmente concluído? A resposta é óbvia, nunca. E é precisamente por isso que esse argumento serve mais para adiar saídas do que para as explicar.
Mais inquietante ainda é o vazio que muitos revelam quando o cargo termina. Para alguns titulares, o fim da função não representa apenas uma mudança de ciclo, representa uma perda de identidade. Esta dependência expõe uma relação distorcida com o serviço público: o cargo deixa de ser um meio para servir e passa a ser um fim em si mesmo.
A isto junta-se a dificuldade em reconhecer limites. Num ambiente onde sair ainda é percecionado como derrota, prolongar a permanência torna-se uma estratégia de autopreservação. Mas essa lógica tem custos claros: bloqueia a renovação, desencoraja novos quadros e cristaliza estruturas que deveriam ser dinâmicas e abertas.
Também não se pode ignorar o papel dos círculos de interesse. À volta de cada cargo formam-se redes que dependem da continuidade, não necessariamente por mérito, mas por conveniência. Quando a permanência serve mais esses interesses do que o bem comum, a função pública perde credibilidade e afasta-se da sua missão essencial.
É neste ponto que o discurso precisa de ganhar clareza. Deputados, diretores- gerais, diretores de serviços e delegados exercem funções temporárias. Nenhum cargo é vitalício, nem deve ser tratado como tal. A resistência em aceitar o fim diz menos sobre a importância da função e mais sobre a incapacidade individual de lidar com a sua transitoriedade.
Igualmente preocupante é o afastamento de alguns da vida política e partidária assim que deixam os cargos. Esse comportamento revela uma ligação utilitária ao poder: enquanto há posição, há envolvimento; quando ela desaparece, desaparece também o compromisso. Esta atitude fragiliza os partidos, empobrece o debate público e compromete a continuidade institucional.
Num país como Cabo Verde, frequentemente apontado como exemplo de estabilidade democrática, este é um tema que não pode continuar à margem da reflexão. A qualidade das instituições mede-se não apenas pela forma como se acede ao poder, mas também pela forma como se deixa.
Saber sair não é um detalhe, é um sinal de maturidade política. É a prova de que se compreende que o interesse público está acima de qualquer ambição individual.
Enquanto não normalizarmos essa ideia, continuaremos a confundir serviço público com permanência no poder e essa é uma confusão que nenhuma democracia pode sustentar por muito tempo.
