As tarifas de Trump e Cabo Verde… Podem ser impactantes

A recente proposta de Donald Trump de impor tarifas de 34% à China, 20% à Europa e 10% ao restante do mundo reacende preocupações globais sobre uma nova escalada protecionista e inflacionista. Embora Cabo Verde esteja geograficamente distante dos epicentros desse conflito comercial, nossa economia frágil e altamente dependente de relações externas não está imune aos efeitos indesejados. A medida que reflete tensões históricas e recentes entre EUA, China, UE e BRICS, pode gerar ondas de choque capazes de atingir Cabo Verde.

Por: Nelson Faria

Importamos cerca de 80% do que consumimos, incluindo alimentos, combustíveis e bens manufaturados, muitos deles oriundos da UE. Por isso, tarifas elevadas entre EUA e UE podem perturbar cadeias logísticas globais, elevando custos de transporte e, consequentemente, os preços de produtos importados pelo país. Isso pode pressionar a inflação, já sensível devido à volatilidade internacional, e o andamento dos últimos cinco anos, afetando sobretudo as famílias mais
carenciadas, embora a inflação seja consequente para todos os consumidores.

O turismo que responde por mais de 25% do PIB cabo-verdiano, com visitantes europeus (principalmente portugueses, britânicos e alemães) e norte-americanos representando uma fatia significativa, naturalmente poderá ser afetado. Uma guerra comercial prolongada pode reduzir o
poder de compra desses mercados, desencorajando viagens internacionais. Além disso, tarifas sobre aeronaves ou combustíveis poderiam encarecer operações de companhias aéreas, limitando rotas
para o arquipélago. Com isso, os operadores e os postos de trabalho desse sector podem ter condicionantes que levem a desaceleração de crescimento.

A diáspora cabo-verdiana na UE e nos EUA é vital, com remessas equivalendo a mais de10% do PIB.
Uma desaceleração económica nesses países poderá reduzir esse fluxo. Adicionalmente, se a UE
redirecionar recursos para mitigar os efeitos das tarifas, projetos de cooperação em Cabo Verde,
como infraestruturas ou energia renovável, podem também ser afetados.

O escudo cabo-verdiano está indexado ao euro. Se a moeda europeia se desvalorizar devido a
tensões comerciais, a capacidade de importação do país, especialmente de dólares para transações
energéticas, seria comprometida, pressionando o estado das nossas reservas internacionais. Com este cenário, creio não ser tempo para se dar tanta tenção a guerrilhas de egos, de grupos ou de partidos e, sim, de coletivamente aventarmos soluções estratégicas proactivamente nas oportunidades que este momento potencialmente difícil pode conter.

A implementação de medidas de contenção da inflação, como subsídios temporários em setores essenciais e a adoção de políticas monetárias prudentes, será fundamental para manter a estabilidade económica. O acompanhamento próximo dos índices de preços e a pronta intervenção do Banco Central podem evitar pressões inflacionárias descontroladas.

Considerar a diversificação de mercados com quem nos relacionamos para reduzir a dependência de importações da UE, procurando parcerias com países africanos via Zona de Livre Comércio Continental. O incentivo na melhoria da produção local de alimentos básicos, com atenção ao sector primário em escala industrial, como também de manufaturas leves, pequena indústria, que pode diminuir vulnerabilidades.

Executar o alargamento da promoção turística em novos mercados, como China, Japão, países africanos, países árabes, e investir em nichos como ecoturismo e turismo cultural, de forma mais
acentuada, menos suscetíveis a flutuações globais.

Inevitavelmente, a nossa orientação deve centrar na aposta e reforço de utilização das fontes de energias renováveis. Acelerar a transição para energias solar e eólica reduziria a dependência de
combustíveis fósseis, cujos preços podem subir com crises logísticas e impactar a produção e
inflação nacional.

Estabelecer uma linha de comunicação constante com parceiros internacionais e órgãos multilaterais pode auxiliar Cabo Verde a antecipar mudanças e ajustar suas políticas de comércio e investimento. A participação ativa em fóruns internacionais pode oferecer insights valiosos, que devem ser utilizados na definição da estratégia nacional, e fortalecer a posição do país nas negociações globais.

Com um mundo cada vez mais volátil, a resiliência depende da capacidade de antecipar crises, diversificar aliados e investir na autossuficiência estratégica. Diversificação de parceiros, fortalecimento da produção local e medidas para conter a inflação serão fundamentais para transformar essa turbulência em uma oportunidade de modernizar e robustecer a economia nacional. Adaptar-se a um ambiente económico cada vez mais dinâmico e incerto é, sem dúvida, um imperativo estratégico para garantir crescimento sustentável e resiliência diante dos choques externos.

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