– Airton Ramos –
No dia 21 de novembro de 2025, foi lançado no YouTube, o videoclipe da canção «Nô Tchal Tê Li», o carro-chefe e bandeira-erguida-título, do novo álbum da cantora cabo-verdiana Ceuzany (Gonçalves) Pires, constituído por dez faixas. A canção-força-interpretação na voz de Ceuzany, com letra de Hernani Almeida & Jenifer Solidade, inicia-se com uma sequência textual narrativa: «One passód, nô conchê nô conchê na bera-mar…»
Este «ano passado» é deítico (referência) temporal, que toda vez que se escuta, é atemporal e memória de um outro deítico (referência) espacial – um belo-retrato (areia & sol – beira-mar), que tanto poderá ser a praia da Lajinha ou Baía das Gatas (São Vicente), a Prainha (Santiago – Praia), a praia de Santa Mónica (Boa Vista), a de Santa Maria (Sal)… – tendo como palco a mater-pátria – Cabo Verde! [Contudo, é da inteira responsabilidade e dever de cada recetor (ouvinte-apreciador) mergulhar imageticamente noutras praias partes – do Mundo (Miami, Ibiza, Cancún, Maldivas, Copacabana…]!
E a narrativa progride, em que o eu-lírico afirma: «… bo surpreendê-me, bo entendê-me!». [Quem nunca vivenciou isso? Uma conexão magnífica & «afetimorosamente» com outro ser humano – de ser surpreendido(a), entendido(a) e verdadeiramente acolhido(a) por alguém! Acharmos moradia num mar de surpresas agradáveis e mimos constantes… num ambiente-ninho de paz e compreensão (que deverá ser deveras mútuo)!]
Em sequência e progressivamente, brota uma decisão (inicial) do sujeito de enunciação da canção: «N resolvê, largá tud pe trás, pame fcá ma bo, confiá na bo!» [Esse «tudo que se larga para trás» pode representar crenças, um emprego, a ilha natal, a família…em prol de um relacionamento – «ouvir a voz do coração» e «atirar-se sem medo» para «viver um grande amor» – alicerçado em entrega e confiança!]
Contudo, entende-se que há um – corte temporal / contraste – desse ANTES – «cenário dos sonhos», «onde se anda nas nuvens», «se tem ou se está com a cabeça no ar», «se sente borboletas no estômago» …!
Pois: «Vida cá ta sabe, sima el era! / Oje em dia, no te estôde ê sô na guerra! / Ca tem nada ê k ta trazê-b (trazê-me) um alegria, / se bo sabê, ê sô desligá-me luz de nha dia!». [De um casal-modelo (de mãos dadas, afeto, cumplicidade, conexão ímpar…) para um ambiente de discussões, desrespeito… onde havia amor, carinhos & carícias – «época de campanha» (entenda-se «conquista») – para momentos onde nada traz alegria, conforto… pela situação que se vive, ficando-se preso em pensamentos e a remoer mágoas… em que o outro ser humano só sabe «desligar a luz do meu dia» – com acusações, orgulho, chantagens emocionais, controlo excessivo, agressões de vária ordem: física, psicológica, sexual … – VIOLÊNCIA BASEADA NO GÉNERO]!
E a estrutura-narrativa avança para uma espécie de clímax (no refrão) – deste ambiente profundamente marcado por um desgaste emocional e físico por parte de quem sofre (INFELIZMENTE) esses tipos de violência, numa relação: «Oje N tem registód na nha corpe, marca que bo ta fazê(-me) que bos dôs mon!» (A dura confissão-brado das marcas deixadas no «meu» corpo – sujeito poético – pelas mãos que antes percorriam carinhosamente o «meu corpo», «me faziam cafuné / massagens…», «me abraçavam»,«me aninhavam», «me faziam delirar em puro êxtase» …!). As mãos que tatuavam amor, hoje, dura e tristemente, tatuam só dor!
E para o desenlace, irrompe esta pergunta dirigida ao interlocutor (outrora – repouso e moradia do «nosso amor, admiração e confiança»): «Paquê k bo crê pa nô continuá, um amor carregód sô na dor?» (Para quê? Por quê? Como? – continuar com este «AMOR» que AGORA é só carregado ou é sinónimo de DOR? Por mero comodismo? Por dependência emocional, económica ou sexual? Por se acreditar que – tal como uma
Fénix Renascida – esse «AMOR» pode surgir das cinzas e ter um «novo fôlego»? Que não estamos «destinados a nunca (mais) ser felizes (novamente) no amor»? Ou por «Jack, bo sabê um coza? Se ê pame bem ranjá um Jack nove, tchame fca que nha Jack bedje»? (Jenifer Solidade – «Hit the Road Jack»).
E a estaca-conclusão é cravada ainda no estribilho: «Nton ta bom, nô tchal tê li, ba (p’) bo camin, mi ê feliz sem bo!» («Já chega! Não quero mais isto! Não quero continuar nesta relação! Posso, quero e mereço ser feliz sem ti»)! E há que frisar isso mesmo: «POSSO E DEVO SER FELIZ SEM TI»!
Pois o amor é o contrário de tudo isso. O AMOR VERDADEIRO: «(…) não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. / Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. (…)»! (1 Coríntios 13:4-6).
O PURO AMOR é prenhe de «INTENSIDADE» (Batchart & Maya); um «G.LOΛE» de Mark Delman; é um querer «Kuida de bo» (Batchart ft. Ruben Teixeira); onde «Bo tem Mel» (Nelson Freitas & C4Pedro); «um fogo que arde sem ser ver… / É querer estar preso por vontade;» de Camões; na medida que «Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.» (Antoine de Saint-Exupéry, in «O Principezinho»)!
Amar é como o «Ser poeta é ser mais alto, é ser maior (…)» de Florbela Espanca!
Todos nós temos os nossos sótãos interiores (de abomináveis coisas que já fizemos aos outros e a nós mesmos – traições, mentiras, agressões & violências várias, cobranças excessivas, inseguranças, medos…)! Temos perdões a pedir e a receber (de nós mesmos e dos outros)! Não somos puramente anjos nem puramente demónios! O que nos define não são meramente as palavras, mas sim as ações! Muito mais ainda o carácter e a «inteireza de coração»!
Procura ter responsabilidade afetiva (um olhar para mim mesmo, primeiro lugar)! Faz as pazes com o teu passado! Diz aquilo que te machuca / magoa! Conversa sempre com o teu (tua) parceiro(a)! Busca terapia! Pratica exercício físico (um olhar para mim mesmo, novamente!) Foca nos teus objetivos e/ou sonhos pessoais! Sê bênção – para ti e para todos! Sorri! Vibra – verdadeiramente – com o sucesso das (outras) pessoas! Regozija-te pela felicidade do(a) teu (tua) ex-companheiro(a)!
Mas, todavia, contudo, no entanto… (repetição proposital), se não houver sinceridade, se persistir o orgulho, perseguições, o «se não fores meu (minha), não serás de ninguém!…», ameaças, joguinhos psicológicos, labirintos de sempre te querer diminuir para se sobressair, tentativas de mudar a narrativa «de seres sempre o Lobo Mau e, a outra pessoa, a inocente Capuchinho Vermelho!», afasta-te, bloqueia (lato senso), reergue-te, reedifica-te, renasce, protege o teu coração e a tua energia e não sejas o «cão que volta para o próprio vómito» (Provérbios 26:11)! Sem VINGANÇA! Sem ALARDE! Tudo pela tua SAÚDE MENTAL e EMOCIONAL / pela tua «PAZ DE ESPÍRITO»; pelo «REFRIGÉRIO NA TUA ALMA»!
AMA! SIM! AMA COM TODO O TEU CORAÇÃO! ACREDITA QUE PODES SER FELIZ (UMA VEZ MAIS E DE FORMA COMPLETA) NO AMOR!
O SINGELO AMOR não é um tabuleiro de xadrez onde, traiçoeiramente, o KING tenta derrubar a QUEEN ou «versa-vice» (expressão muito usada, por mim, tendo como referência, Mário Lúcio Sousa, in obra «Para nunca mais falarmos de Amor»)!
O AMOR MAIOR não são presentes que se compram, se dão ou se devolvem, mas sim a PAZ que se guarda no CORAÇÃO e na MENTE – dos momentos bons vividos! É ser a «Ex» do saudoso Nataniel! É estar presente inteira e sinceramente na jornada do outro (a quem se ama)! Não apenas SEXO (ou a mera ILUSÃO dele)! É sermos «casa, bagunça e viagem para o resto da vida»! (D.A.M.A – «CASA» feat. Buba Espinho)!
«No Tchal Tê Li» é uma canção-terapia-e-alerta, inspirada na própria vida da Ceuzany (um relacionamento tóxico vivido)! E tal como ela testemunhou em palco, a 19 de dezembro de 2025, no lançamento do projeto-álbum, no CNAD (São Vicente): «Ô menintxe, mi tanben N passá mal num relacionamente. N tava quase ta bai, mas como mi ê forte, N consegui superá – que força, que ajuda, sobretude, d’ emigue i kel Senhor
lá na Céu!» (reprodução não fidedigna, mas inspirada no que ela disse).
Não sejas a mulher de Ló (ao fugir da destruição de Sodoma e Gomorra)! Sê FORTE! SÊ FIRME! Muda (por ti – primeiramente – no mais alto ato de CORAGEM e AMOR PRÓPRIO – e por aqueles que te amam – filhos, família, amigos…)!
Revê o magnífico videoclipe da canção e revisite essa poderosa-mensagem (quantas vezes forem necessárias)!
Determina, vive e canta, como a Ceuzany: «Nton ta bom, nô tchal tê li, ba (p’) bo camin, mi ê feliz sem bo!».
